terça-feira, 26 de março de 2013
domingo, 24 de março de 2013
Circuito fechado - Tu não compreendes e eu não consigo explicar
- Tu não compreendes e eu não
consigo explicar. Neste circuito fechado, não há saída possível. No entanto,
deve dizer-se, que este percurso não nasceu assim, ele foi-se fechando à medida
que a compreensão foi diminuindo. É exactamente a compreensão, a tradução do
sentimento do outro, que permite um aumento da capacidade de explicar e de
compreender aquilo que se sente. Um pai ao dar um nome (traduzir) a um
sentimento de um filho aumenta-lhe o vocabulário afectivo, permitindo dessa forma
que ele possa comunicar – ter uma relação -. Quando isso não
acontece, cria-se lentamente um circuito fechado, entupido de sentimentos à
procura de um nome. A energia, então despendida para alcançar o outro, é agora
usada na protecção dos conteúdos/sentimentos sem nome que precisam ser mantidos
a uma certa distância para não contaminarem todo o aparelho psíquico. A solidificação resultante do descrédito pelo semelhante
(pai, mãe, terapeuta, ...), acrescida pelo passar do
tempo, faz com que um enorme muro seja erguido e só a muito custo demolido. Na maioria dos casos, não estamos a
falar de dar uma segunda ou terceira oportunidade ao outro, mas de tentativas sucessivas,
e por vezes desesperadas, de ser compreendido que falharam. É preciso aceitar
a legitimidade da desesperança, da frustração e principalmente da raiva daquele
que se sente incompreendido. A partir daí abre-se uma nova oportunidade (talvez a última) para encontrar a compreensão junto do outro. Trabalho árduo,
meticuloso e de enorme responsabilidade. Dessa responsabilidade, devem estar
bem cientes, os terapeutas que com dedicação se entregam a tão nobre papel.
Psicoterapia
Contra a corrente
“Neste caminhar tumultuoso para
a massificação e uniformidade dos seres e do estilo de vida, em que o fenómeno
religioso cimenta a unidade pela obediência ao dogma ou verdade absoluta – que é
um contra-senso filosófico e científico, lógico e experimental – levantar o véu
do disfarce e da pseudo-adaptação, com sinceridade, sem medo, e com o interesse
único de investigar o que está por trás das máscara do aparente, como o faz o
psicanalista (e todo o autêntico homem de ciência), é uma ousadia que custa
cara pelo abalo que necessariamente provoca no sistema fechado da ideologia
envolvente, a qual – como em todos os momentos históricos de crise – tende a
organizar-se em código supremo de “harmonia entre os homens” e da “felicidade
na Terra” – utopia de sempre, ópio de todas as sociedades.”
terça-feira, 19 de março de 2013
“Crónico” quer dizer para a vida toda?
O artigo Why ADHD is Not Just a Problem for Kids,
publicado na revista Time começa com
uma frase bastante enigmática, que ainda não consegui descodificar “The effects
of attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD) can extend well beyond
childhood, according to the latest research”.
Os
efeitos? Poderia ficar aqui às voltas com os “efeitos” o resto do dia, mas
provavelmente a jornalista não estava muito ciente do que estava a escrever,
na verdade, até é desculpável, uma vez que as citações de um dos autores do
estudo são bastante ambíguas para não dizer, tendencialmente erróneas.
Num estudo realizado por
pesquisadores do Hospital infantil de Boston e da Mayo Clinic, concluiu-se que
29,3% das crianças às quais foi diagnosticado distúrbio da hiperactividade com
défice de atenção (TDAH), ainda o apresenta em adulto, juntamente com o aumento
da taxa de outros problemas psiquiátricos.
Só 29,3%? Tendo em conta que o
intervalo considerado anteriormente ia dos 6% aos 66%, o valor até não é muito mau.
W. Barbaresi, um dos autores do
estudo, refere com aparente pesar que se banalizou a questão e que temos que
reconhecer que a TDAH é uma doença crónica. E assim, num abrir e fechar de
olhos, condenou milhares de crianças para o resto da vida ao simpático rótulo
de “doentes mentais”.
Barbaresi, com a sua autoridade
científica refere: “temos que parar de banalizar a TDAH como sendo apenas um
problema de comportamento na infância”. Mas então, é um problema de
comportamento ou uma doença? Se é apenas um problema de comportamento porque se
estão a drogar crianças como se fosse uma punição? - Se não te portas bem
ponho-te a tomar Ritalina!
O Sr. Barbaresi sabe muito bem
que não há qualquer tipo de banalização, muito pelo contrário, a cada esquina
está uma criança com TDAH. Milhões no mundo inteiro. A banalização está
exactamente na forma como se atribui um diagnóstico que condena uma criança
para a vida toda.
O que realmente preocupa muito
o Sr. Barbaresi - a tal banalização - é o receio que os pais, quando os filhos crescerem,
decidam deixar de os medicar, ou eles, por iniciativa própria, deixem a
medicação. Mas pode dormir descansado, a malha é tão apertada que só alguns
conseguiram escapar.
Como provam os dados, dos adultos
que tinham TDAH 81% apresentava pelo menos mais um transtorno psiquiátrico
adicional. Dos que não apresentavam sinais da doença, 47% tinha pelo menos mais
um diagnóstico psiquiátrico.
Para terminar o Sr. Barbaresi
escancara as portas do inferno: “Temos que parar de banalizar o TDAH como sendo
apenas um problema comportamento da infância. A natureza e duração deste
estudo mostram que temos de reconhecê-lo como um problema de saúde crónico
grave que merece muito mais atenção do que tem recebido (…) o legado e as
implicações a longo prazo de um diagnóstico de TDAH não foram realmente
consideradas e estudadas de forma adequada, uma vez que a maioria dos médicos
tendem a pensar a condição como afectando principalmente crianças, que
tendem a superar uma vez que atingem a idade adulta.”
O que nos deve preocupar muito
são os Srs. Barbaresis, que de ânimo leve e com uma preocupação perversa, distorcem
a ordem das coisas. O que o Sr. Barbaresi não conclui, nem nunca irá concluir,
mas que os resultados comprovam é que quando a criança cai nas malhas da TDAH
arrisca-se com alta probabilidade a ser um doente mental crónico.
Desculpem o sublinhado: “crónicos”
quer dizer, para a vida toda. TODA.
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psicologia clínica
sábado, 16 de março de 2013
O Alienista
Neste brilhante conto de
Machado de Assis, publicado em 1882, o conceituado médico Simão Bacamarte
resolve dedicar-se à psiquiatria dando início a um estudo sobre a loucura na Vila
de Itaguaí. Simão Bacamarte, em nome da ciência, dedica-se a classificar os
moradores da vila através da observação cuidada dos seus comportamentos, medindo
a loucura nas suas variações e graus. À medida que ia diagnosticando os
residentes de Itaguaí, Bacamarte resolvia interná-los na Casa Verde, fundada,
exactamente, com esse fim. Imbuído pelos rigores da ciência acaba por internar
a maioria dos habitantes da vila, inclusive, sua mulher, D. Evarista. Quando
Simão Bacamarte constata que o único sadio era ele, é atormentado por uma
questão ética, e como era o que se desviava do padrão, decide libertar
todos o loucos e internar-se na Casa Verde, onde passados dezassete meses,
morre solitário.
psicologia clínica
Infelizmente, aqueles (American Psychiatric Association) que se encontram com
a divertida tarefa de criar classificações, não têm – nem podiam ter, porque
são demasiados perturbados para olhar para si mesmos – o sentido ético de Simão
Bacamarte, para procurar internamento. Tal como Bacamarte, imbuídos por um
distorcido rigor científico, continuam a classificar os comportamentos humanos,
com a lupa da moralidade, do desrespeito pela singularidade do ser humano e,
como é óbvio, a servir, sem nenhum pudor, a indústria farmacêutica.
O Alienista, publicado há mais de 120 anos tem um
inquestionável carácter profético. Não deixa de ser curioso que é exactamente
na era das “liberdades individuais” que se assiste a um ataque a tudo o que sai
fora de uma certa normalidade (cada vez mais apertada), ao sujectivo, e dessa
forma, impedindo que se revele e se manifeste a alteridade.
quinta-feira, 7 de março de 2013
E se parasse de fazer perguntas parvas!?
Se a
psiquiatria clássica, de forma geral, esteve às voltas com fenômenos psíquicos
não codificáveis em termos do funcionamento orgânico, guardando espaço à
dimensão enigmática da subjetividade, a psiquiatria contemporânea promove uma
naturalização do fenômeno humano e uma subordinação do sujeito à bioquímica
cerebral, somente regulável por uso de remédios. Há aí uma inversão não pouco
assustadora, pois na lógica atual de construção diagnóstica, o remédio
participa da nomeação do transtorno. Visto que não há mais uma etiologia
(estudo das causas da doença) e uma historicidade a serem consideradas, pois a
verdade do sintoma/transtorno está no funcionamento bioquímico, e os efeitos da
medicação dão validade a um ou outro diagnóstico.
Renata Guarido
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terça-feira, 5 de março de 2013
Não basta querer, ver e saber
O amor e o ódio, a relação ou a
sua ruptura não dependem apenas do querer, do ver e do saber e não são mera consequência
linear da transição existencial, do acidente ou do trauma, nem o simples
resultado do desenrolar do programa genético ou da expressão e reacção do
corpo.
São também, e essencialmente,
produto do conflito interior: dos movimentos do desejo egoísta e omnipotente e
da pulsão bruta em busca do prazer cerceados pelo medo, a culpa e a vergonha
que a percepção subjectiva da realidade social fabricam. O aparelho psíquico é
um laboratório de elaboração da experiência, previsão dos acontecimentos e
construção do projecto que funciona a maior parte do tempo abaixo do limiar de
consciência, e cujo funcionamento os sonhos, o devaneio, a associação livre, os
actos falhados e outras emergências do inconsciente nos informam.
Luz e trevas, razão e afecto,
realidade e fantasia enquadram, movem e orientam a pessoa em situação. E se o pensamento
lógico e operante (…) permite adaptação ao real, é o livre fantasiar que,
abafando por momentos o ruído do saber acumulado, gera, no silêncio feito, novo
conhecimento.
A. Coimbra de Matos
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segunda-feira, 4 de março de 2013
Elogios – melhor que receber só mesmo merecer
Há coisas onde as crianças não diferem muito dos adultos: a satisfação de receber um elogio. Em ambos os casos o elogio pode não ser merecido, mas no que diz respeito aos filhos, os pais têm sempre um elogio “gratuito” para um poema horrível, para uma performance musical de arrepiar ou para um golo a 20 metros da baliza.
– Confiança -, dizem. – É preciso que ganhem auto-confiança para triunfarem na vida. Será que o elogio incondicional gera confiança ou dependência?
As crianças e os jovens gostam de sonhar com conquistas mirabolantes e aplausos intermináveis. No entanto, fazem-no muito mais pelo prazer do devaneio do que pelo desejo real de concretização. Por seu lado, os pais, investem (por vezes na pior acepção da palavra) de corpo e alma nos sonhos dos filhos (ou seus) exponenciando os seus dotes de forma desmesurada.
Os pais estão convencidos que para os filhos triunfarem precisam confiar cegamente nas suas qualidades, esquecendo que sem esforço nada se consegue. Assim, mesmo sem se justificarem, os pais desfazem-se em aplausos.
O problema é que os elogios incondicionais em vez de produzirem auto-confiança provocam dependência: os filhos ficam dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. Escravos desta situação, invertem as prioridades: em vez de se esforçarem na concretização dos seus desejos, buscam os elogios.
Hoje, os filhos são o centro da vida de muitos pais e, ainda que encontremos aí um enorme altruísmo, na verdade, está também um grande vazio, que os pais procuram preencher através dos filhos. Isto acaba por gerar uma dependência desigual: os filhos tornam-se importantes para os pais e os pais indispensáveis para os filhos. Cada passo que o filho dá tem que ser antecedido de um sms de autorização/aprovação.
A visão actual sobre as crianças é muito diferente e, como normalmente acontece, para as compensar de todo o mal que lhes provocámos, passa-se para o outro extremo: endeusamento. Talvez as coisas não sejam assim tão simples e esse endeusamento tenha um preço elevado e, já lhes esteja a ser cobrado.
As crianças são o futuro, é incontestável. Não quererá isso também dizer que lhes colocamos a responsabilidade de compensarem as nossas falhas e fracassos? Não andaremos à procura de um orgulho retroactivo?
domingo, 3 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Normopatia - a doença da normalidade
As
doenças mentais não são nem doenças, no sentido de um processo mórbido natural,
que se infiltra no cérebro dos indivíduos seguindo um curso inexorável e
previsível; nem mentais, no sentido de uma deformação da personalidade. As
doenças mentais, ou melhor, seus sintomas, realizam possibilidades universais
do sujeito, que se tornam coercitivamente particulares ou privativamente necessárias.
Em outras palavras, um sintoma é um fragmento de liberdade perdida, imposto a
si ou aos outros. Por isso há algo que concerne a todos, universalmente, em
cada uma das formas particulares de sofrimento. Assim, a normalidade é apenas
normopatia, ou seja, excesso de adaptação ao mundo tal como ele se apresenta e,
no fundo, um sintoma cuja tolerância ao sofrimento se mostra elevada.
Christian Ingo Lenz
Dunker – O real e a verdade do sofrimento
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Uma certa anormalidade
“Personne ne se rend compte que certaines
personnes dépensent beaucoup d'énergie simplement pour Camus être normale.” -
Albert Camus
"Ninguém percebe que algumas pessoas gastam uma enorme
energia, simplesmente, para serem normais." - Albert Camus
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psicologia clínica
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domingo, 24 de fevereiro de 2013
Repressão
A Repressão e o Reprimido
Num sentido lato, a repressão é designada como a operação psíquica tendente a fazer desaparecer da consciência um conteúdo (ideia, afecto, etc.) desagradável ou inoportuno. Nesse sentido o recalcamento seria uma modalidade especial de repressão.
No sentido mais frequente, a repressão, opõe-se, sobretudo, do ponto de vista tópico ao recalcamento, quer pelo carácter consciente da operação, quer pelo facto do conteúdo reprimido se tornar simplesmente pré-consciente e não inconsciente.
Segundo Laplanche & Pontalis, a repressão seria um mecanismo consciente actuando ao nível da “segunda censura”, que Freud situa entre o consciente e o pré-consciente; tratar-se-ia de uma exclusão para fora da consciência actual, e não da passagem de um sistema (pré-consciente-consciente) para outro (inconsciente).
Do ponto de vista dinâmico, as motivações morais desempenham um papel determinante na repressão.
psicologia clínica
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Diálogos, monólogos e solilóquios
Fica descansado, eu sei que não é por maldade que fazes mal
a ti próprio
sábado, 9 de fevereiro de 2013
A casa
Esta é uma impressionante foto de Teresa, uma menina polaca, sobrevivente de um campo de concentração. No quadro está desenhado aquilo que ela descreveu como sendo a sua casa. A casa, que simboliza o lugar onde são procurados o afecto e a segurança, aparece aqui representada de forma completamente caótica. Não há paredes, portas, janelas ou telhado. É provavelmente, um dos desenhos que melhor descreve a loucura que é a existência de um campo de concentração.
O desenho
infantil é uma técnica usada na psicoterapia de crianças. É um instrumento de auxílio
à barreira da linguagem. O desenho permite a emergência de subtilezas que estão
para além da capacidade verbal. Através dos desenhos e sua interpretação subjectiva,
procura-se chegar aos significados, às representações da realidade vivida pela
criança.
Photo by David Seymour, 1948
psicologia clínica
Amigos imaginários
Os
amigos imaginários não se constituem como alucinações que a criança vê fora de
si, embora, em alguns casos, isso possa acontecer. As crianças acreditam na sua
existência real, procuram a sua companhia e conversam com eles. Estes amigos
imaginários ao auxiliarem a criança na elaboração de angústias e ansiedades têm
um papel importante na constituição do Eu. Estes também podem surgir quando a
criança experimenta uma perda real ou fantasiada. O amigo imaginário pode
desdobrar-se em múltiplas personagens que actuam num teatro interno. À medida
que o Eu da criança se estrutura e vai sendo capaz de fazer frente a conflitos e
aspectos contraditórios eles tendem a desaparecer. Em alguns casos (raros),
quando as condições para o seu desaparecimento não se verificaram eles
permanecem, tornando-se aspectos cindidos da personalidade.
Numa
fase em que as crianças têm poucos amigos reais, os imaginários desempenham um
papel importante na ampliação do mundo social da criança. Através dos vários
papeis que os amigos imaginários vão desempenhando a criança vai experimentando
sobre vários pontos de vista as relações humanas no mundo dos adultos. À medida
que se ampliam o número de amizades, os amigos imaginários vão-se tornando
menos interessantes até ficarem para trás. Isto não quer dizer que perante uma
dificuldade, uma desilusão, a criança não recorra esporadicamente a ele para
partilhar a tristeza, ou descarregar a raiva que está a sentir. Às vezes fazem
muita falta!
psicologia clínica
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Diálogos, monólogos e solilóquios
Às
vezes, por muito que um pai queira acabar com o sofrimento de um filho, isso
não é possível. O mais que consegue é sofrer com ele. Não, não é uma lamechice, é a puta da realidade.
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Psicoterapia
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
A tirania do espírito positivo
Ao ler um artigo no jornal Público – “Cancro:afinal, é permitido chorar”, deparei-me com a expressão: “a tirania do espírito positivo”.
Arregalei os olhos, e disse “Finalmente!”
Para bem de todos, mas principalmente para os doentes que se encontram num enorme sofrimento, desmonta-se a ideia de que o espírito positivo é uma panaceia.
É muito provável que os primeiros (naturais e compreensíveis) sentimentos após um diagnóstico de cancro, sejam de medo, de injustiça, de revolta, de raiva; “Porquê a mim?” Não muito distante destes deve andar a tristeza.
Pode ser que esteja enganado, que esteja só a falar por mim. Pode ser que eu seja um pessimista e por isso não consiga ver o sol a brilhar quando inesperadamente se abre uma janela para a escuridão.
É muito importante reconfortar alguém que está num grande sofrimento, que além do mais, também nos toca profundamente. Mas se conseguirmos resistir às frases feitas e der-mos espaço ao outro para lidar com a sua dor, marcarmos a nossa presença e disponibilidade, então, estamos a ser uma verdadeira ajuda.
Se já reconfortou alguém, usando alguma frase feita, não se preocupe, ainda não é considerado um “tirano do espírito positivo”. Para ser um verdadeiro “tirano”, precisa fazer sentir ao outro que esses sentimentos são maus, que lhe fazem mal, e se não os tivesse, provavelmente, a sua vida seria muito melhor.
“A tirania do espírito positivo”, que se tenta eliminar na oncologia está profundamente enraizada e tem ferozes defensores. Ela encontrará mais seguidores junto dos que estão impossibilitados de ser honestos com o que estão a sentir.
O nosso papel é ajudar o outro a construir uma narrativa sobre a dor, e dessa forma libertá-lo da tirania do espírito positivo.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Psicanálise e Psicoterapia Relacional - continuação
O
termo Psicanálise Relacional foi introduzido em 1983 por Stephen Mitchell e Jay
Greenberg no livro Relational Concepts in
Pshychoanalysis. Ele desenvolveu-se a partir da convergência de diversas
correntes importantes na teoria psicanalítica que se afastaram muito do modelo
pulsão/estrutura, no qual as pulsões têm papel central na vida psicológica.
As
teorias relacionais postulam que “as relações com os outros constituem os
blocos fundamentais na construção da vida mental”.
O
termo relacional, tão amplo, inclui interações entre o indivíduo e o mundo
social, relações interpessoais internas e externas, autorregulação e regulação
mútua, formando, assim, uma ponte entre os espaços interpessoal e intrapsíquico
(Lewis Aron, 1996).
O
modelo relacional vê as operações da mente como sendo diádicas e
interativas na sua natureza; a experiência surge num campo interativo entre
pessoas, e a situação analítica é compreendida na psicanálise relacional como
sendo moldada pela participação contínua do analisando e do analista, bem como
pela construção mútua do significado, da autenticidade e das novas experiências
relacionais.
Os
antigos padrões relacionais repetem-se, mas espera-se que cada dupla
analista-paciente consiga descobrir modos singulares de ir além da situação de
aprisionamento ao passado, e consigam construir e negociar novas formas de
estarem um com o outro. Busca-se menos a verdade objetiva e mais o significado
do que eles sejam capazes de construir.
O
modelo relacional reforça a ambiguidade da realidade: cada indivíduo tem seu
ponto de vista plausível; todo conhecimento tem como base uma perspectiva, mas
há outras perspectivas e outros centros de subjetividade além do nosso (Aron,
1996).
O
primeiro e mais importante desvio que levou a teoria psicanalítica a avançar do
modelo freudiano de desenvolvimento, de psicopatologia e tratamento do
paciente, que era um modelo de “uma pessoa”, para um modelo de “duas pessoas”,
ou relacional, foi feito por Ferenczi.
Desde
muito cedo, Ferenczi chamou a atenção para o analista como pessoa real,
percebida pelo paciente em matizes subtis do seu comportamento e diante das
quais o paciente reage. Deste modo, a transferência do paciente não surge
exclusivamente de dentro dele; ela é influenciada pelos comportamentos e pelas
intervenções do analista.
Segundo
Fairbairn, a motivação fundamental dos seres humanos é procurar ligações com os
outros. Cada indivíduo molda os seus relacionamentos conforme padrões de relação
que trazem internalizados desde os seus mais precoces relacionamentos significativos.
Os modelos de ligação com os primeiros objetos tornam-se as formas
preferenciais e esperados de relacionamento com novas pessoas.
Os
novos objetos amorosos são escolhidos pela sua similaridade aos objetos
satisfatórios ou insatisfatórios do passado, e as interações com os novos
parceiros desencadeiam os antigos comportamentos esperados. As novas
experiências são processadas e interpretadas conforme as antigas expectativas.
Segundo
ele, os pacientes não podem abandonar as ligações aditivas aos antigos objetos,
a menos que acreditem e confiem que é possível desenvolver novos modos de
relacionar-se que, de facto, eles podem ser ouvidos e vistos. Definiu o
progresso analítico como sendo o resultado de uma capacidade modificada de se
relacionar com os outros (Mitchell e Black, 1983).
O
desvio conceptual da abordagem de “uma pessoa” para a abordagem de campo de “duas
pessoas” tem, naturalmente, muitas consequências na situação analítica.
O
método psicanalítico clássico baseia-se na premissa de que a psicanálise
oferece ao paciente um tipo peculiar de experiência, por meio do
estabelecimento de uma situação analítica cuidadosamente controlada: o divã, a
frequência das sessões, quatro ou cinco vezes na semana, a regra fundamental da
livre associação, o analista silencioso na maior parte do tempo e encoberto
pelo anonimato são fatores técnicos que possibilitam ao paciente passar por uma
experiência que activa antigas recordações e padrões da infância.
O
elemento central desta visão é a premissa de que as experiências do paciente em
análise se originam a partir do interior do paciente e se expandem no espaço
analítico cuidadosamente planejado que a técnica clássica proporciona. Essa
premissa torna o modelo clássico essencialmente numa perspectiva de “uma pessoa”.
O encontro analítico funciona como uma máquina do tempo, na qual o paciente
retorna ao seu passado por deslocamentos temporais da transferência. A pessoa
do analista não é importante, já que o seu papel funcional é o de operador da
máquina do tempo. Se for competente, o analista vai proporcionar uma função
genérica que dá ao paciente a capacidade de experienciar, examinar e
compreender mais plenamente seu passado.
A
acção terapêutica dentro do modelo relacional depende do estabelecimento de um
ambiente seguro no qual cada elemento da dupla contribui com percepções
singulares que têm a sua própria experiência compartilhada. À medida que os
padrões relacionais do início da vida do paciente vão sendo reencenados dentro
do espaço analítico, os laços afetivos patológicos que o prendem a antigos
objetos vão ser realçados e mantidos em rigoroso contraste com os
relacionamentos novos, e espera-se, mais adaptativos e flexíveis, que paciente
e analista lutam para negociar no presente.
Por
meio do processo de contrastar, integrar e apreciar os matizes de perspectivas
e subjetividades alternativas, diferentes das nossas, é que o paciente e
analista constroem – em conjunto – uma visão compartilhada do mundo que existe,
além das paredes do self, a partir de duas perspectivas diferentes.
Referências:
Sauberman, P. R. (2009). Psicanálise relacional contemporânea da pulsão para a relação. Rev. bras. psicanál v. 43 n.1 S. Paulo
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terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Psicanálise e Psicoterapia Relacional - Uma introdução
A
Psicanálise Relacional começa a tomar a sua forma actual durante os anos
oitenta do século passado, especialmente nos EUA, quando um grupo de autores
(Mitchell, Aron, Stolorow, Benjamin Bromberg) procura integrar a tradição relacional
(Sullivan, Murray, Kohut) com a teoria britânica das relações de objeto
(Balint, Fairbairn, Winnicott).
Trata-se
de uma psicanálise anti-cartesiana porque propõe que o mundo seja entendido,
principalmente, como uma constelação de relacionamentos que permitem a
construção do ser humano individual. A mente não nasce com o indivíduo mas desenvolve-se
na interação humana com o meio ambiente. A criança não é apenas um produto do
meio ambiente, mas interage com ele, com a sua espontaneidade e inclinações.
Para
a teoria freudiana, o ser humano é motivado por impulsos sexuais e agressivos, inata
e biologicamente determinados. Para a nova abordagem, no entanto, a principal
motivação é a busca de relações com os outros.
As
relações iniciais com os cuidadores primários moldam o nosso comportamento, a auto-imagem
e a forma de satisfazer os nossos desejos e necessidades, assim, não podem ser separadas do contexto
relacional. Os padrões iniciais de relacionamento tendem a ser reproduzidos
posteriormente na interação relacional com os novos companheiros de relação.
Uma
das características marcantes da psicanálise relacional está no peso dado à
interpretação, ou seja, esta não é considerada o factor terapêutico fundamental.
A presença empática do terapeuta, o acompanhamento, o apoio (Winnicott - holding),
são factores, no mínimo, tão importantes, como aquilo que em concreto se possa interpretar/dizer
ao paciente.
Outro
importante factor é redução da assimetria entre o terapeuta e o paciente, ou
seja, o terapeuta não se situa numa cúpula de onde emite o seu oráculo, que o
paciente deve ouvir com humildade e submissão. Aqui, o paciente nem sempre está
errado quando mostra a sua discordância com algo que o terapeuta disse ou fez.
Traduzido e adaptado daqui
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Psicoterapia
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Poesia - da consciência das palavras à consciência de si
Segundo um estudo da Universidade de Liverpool,
ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula
a mente e contribui para a auto-reflexão.
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psicologia clínica
Os investigadores descobriram que a poesia, em
particular, afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as
lembranças autobiográficas e as emoções, favorecendo o re-pensar das vivências,
e assim, a compreende-las noutra perspectiva.
Philip
Davis refere que "A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição
profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao
conhecimento cognitivo que já possuímos das nossas recordações".
O estudo mostra que a literatura que reflete sobre a condição humana é mais benéfica que os livros de
auto-ajuda, ou literatura “light”, que ao invés de abrir novas vias de
pensamento, reforçam o conhecido, o previsível, e assim, acabam por não acrescentar
muito à reflexão e ao crescimento mental.
psicologia clínica
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
A descoberta do vazio e a criação do sentido
Há
um momento mais importante do que a primeira palavra ou o primeiro passo de uma
criança: a descoberta do vazio. O que fazemos diante dele é também o que nos
torna pais e mães.
" -
Os filhos dão muita alegria e tudo o mais que se costuma dizer, mas também, e
isso não se costuma dizer, dão muita pena, permanentemente, o que não creio que
mude nem quando forem maiores. Você vê a perplexidade deles diante das coisas,
e isso dá pena. Vê a boa vontade deles, quando estão a fim de ajudar e
acrescentar algo próprio mas não podem, e isso também dá pena. Dá pena a
seriedade deles e dão pena suas brincadeiras elementares e suas mentiras
transparentes, dão pena suas desilusões e também suas ilusões, suas
expectativas e suas pequenas decepções, sua ingenuidade, sua incompreensão, suas
perguntas tão lógicas e até a ocasional má intenção que possam ter. Dá pena
pensar quanto lhes falta aprender e no longuíssimo percurso que têm pela frente
e que ninguém pode fazer por eles, apesar de estarmos há séculos fazendo e não
vejamos a necessidade de que todos os que nascem devam começar outra vez desde
o início. Que sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas,
mais ou menos eternamente?" ( “Os
Enamoramentos”, Javier Marías)
Lembro-me
do momento exato em que olhei para a minha filha e senti essa dor, que era a
dor que eu achava que pudesse ser a dela ou que tinha a certeza de que um dia
seria a dela.
Minha
filha tinha uns três ou quatro anos e estava sentada no chão tentando brincar.
Eu via o seu esforço e via o seu fracasso. Ou talvez apenas estivesse
projetando nela o que sabia que seria seu embate mais ou menos eterno. Mas
creio que não, acredito que já era angústia o que havia no seu rostinho redondo,
já era perplexidade diante da aridez de alguns dias. Lembro-me de que, naquele
momento, as lágrimas pingaram dos meus olhos, como de uma torneira mal fechada.
Eu soube ali que jamais poderia tapar aquele buraco, que teria de testemunhar
para sempre aquela luta íntima na qual cada um de nós está só. Sempre só. Eu
assistia a ela desde já, tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder
ilusório, debatendo-se com a vida. E para sempre diante dela eu pingaria como
uma torneira mal fechada. Era um momento silencioso entre nós – e as cartas já
estavam dadas muito antes de nós.
É
pelo consumo – e aí possivelmente nunca antes como agora – que se tenta tapar
esse buraco aberto no peito dos nossos filhos. Um objeto seguido de outro
objeto, a ilusão de que algo foi preenchido com duração cada vez mais curta, o
desejo pelo produto seguinte cada vez mais imperativo, a frustração sempre
abissal entre um e outro. Com alguma imaginação, é possível enxergar um filme
de zumbis nas cenas de shopping, pequenos arrastando grandes por corredores
iluminados, em busca não de cabeças humanas, mas de mercadorias para triturar
com dentes que não estão na boca.
Mas
não protegemos nossos filhos deste vazio, não há como protegê-los daquilo que é
uma ausência que nos completa. Penso que este é o momento crucial da
maternidade e da paternidade. Cada um de nós, que se sabe faltante, diante da
falta que grita no filho. Quando me vi diante desse abismo, como a personagem
de “Enamoramentos”, ela num momento muito diverso e muito mais limite do que o
meu, lembro-me de me sentir envolta em melancolia. Eu soube ali, naquele
instante prosaico em que minha pequena filha procurava por algo que talvez não
pudesse ser encontrado em nenhum lugar além dela mesma, que eu haveria de
conviver com uma falência dali em diante. Minha melancolia não se devia às
dificuldades de uma maternidade precoce – mas à certeza de que proteger minha filha
era uma missão desde sempre fracassada.
Ao
olhar para minha própria filha naquele momento em que eu sabia que a máquina do
mundo se abria diante dela para mostrar seu enorme estômago vazio, lembro-me de
que, por um momento, pensei em alcançar talvez um outro brinquedo ou lhe
oferecer um chocolate (…) Mas meu pensamento não virou gesto. Eu sabia que tudo o
que eu podia fazer era me manter em silêncio. Que ser mãe, naquele momento, era
ser capaz de vê-la debater-se com o vazio, testemunhar o início de seu longo
embate vida adentro. E acho que ali, como deve acontecer com os pais e mães que
percebem esse momento exato, uma fissura nova se abriu em mim. Esta que para
sempre me faria pingar como uma torneira mal fechada.
“Que
sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos
eternamente?” (…) a resposta talvez seja a de que não exista sentido. E
exatamente por não existir, só podemos mostrar aos nossos filhos, porque isso é
algo que se mostra, não que se diz, que a tarefa de uma vida humana, desde
sempre e para sempre, é criar sentido onde não há nenhum. Inventar uma vida é a
tarefa que faz de todos nós ficcionistas. E, em geral, uma vida que faz sentido
é aquela em que os sentidos são construídos para serem perdidos mais adiante e
recriados mais uma vez e sempre outra vez. É o vazio, afinal, que nos faz
inventar uma vida humana – e não morrer antes da morte.
É
o que fazemos como pais neste momento em que um filho descobre o vazio, um
momento mais importante do que a primeira palavra ou o primeiro passo ou o
primeiro dente, que também nos torna pais. É preciso aguentar. Saber aguentar e
escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser
calado com coisa alguma, é um ato profundo de amor. Um momento sem palavras em
que nosso silêncio diz apenas que a tarefa de criar uma vida que faça sentido é
dele, pessoal e intransferível. E tudo o que poderemos fazer é estar mais ou
menos por perto, ainda que nada possamos fazer.
Excertos de: "A dor dos filhos", Eliane Brum
Revista Época 5.11.2012
psicologia clínica
sábado, 15 de dezembro de 2012
Pósteres Mentais
Uma forma
curiosa de representar sintomas de doenças mentais
Veja aqui: Mental disorder posters
psicologia clínica
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Não, duas vezes não
As
ondas provocadas pelo artigo publicado no New York Times - What brand is your therapist?, onde Lori
Gottlieb dá conta das dificuldades no
exercício da sua profissão de terapeuta, têm-se feito sentir na comunicação
social e noutros espaços ligados aos “psis”.
Psicoterapia
Após
a sua formação, Lori tinha a expectativa de poder estabelecer-se, iniciar a sua
prática clínica e colher os frutos do investimento pessoal e financeiro: satisfação no trabalho e remuneração justa. Não foi preciso muito tempo para que as suas
expectativas fossem goradas pela falta de pacientes que, concluiu, se alargava
até aos mais antigos e experientes. Isso, devia-se em parte, às seguradoras que
tinham deixado de reembolsar os gastos com as terapias.
Uma
nova realidade esperava por Lori; Branding consultants for therapists. Vários
colegas seus tinham recorrido ao auxílio de branding consultants para através de
estratégias de marketing conseguirem distinguir-se dos
concorrentes, tornando-se visíveis ao grande público.
No
meio de um conflito entre questões técnicas e éticas acabou por procurar um
destes profissionais. Segundo ele, as pessoas já não estavam interessadas nas
terapias convencionais, desejavam soluções rápidas e fáceis para os seus
problemas e, estavam susceptíveis a propostas mais atraentes. Os terapeutas
generalistas - old-school – estavam ultrapassados e o que atraía as pessoas
eram especialistas, por exemplo, em cyberbullying
e sexting.
Para
além disso, para evitar ser considerado frio e distante, era sugerido que o
terapeuta, juntamente com o anúncio da actividade profissional, expusesse a sua
vida pessoal na redes sociais, principalmente os seus problemas, para que os
pacientes se identificassem com eles e assim criassem uma proximidade.
O
artigo de Lori é extenso e merece uma leitura atenta porque foca aspectos até
aqui pouco abordados e com enormes implicações. Acredito que a escolha
de um terapeuta no Google passe pela capacidade de sedução da mensagem, seja através
da falsa intimidade ou pelo milagre prometido, e, quiçá, uma atraente foto da
terapeuta numa praia das caraíbas, mas temo que o processo nasça inquinado.
Se
o terapeuta estiver mais interessado nos seus proveitos financeiros do que no paciente,
então, aconselho uma profissão mais leve e rentável. Isto, não implica que se
ignore o drama que se está a colocar aos terapeutas, que tanto
investiram na sua formação para estarem aptos ajudar e se vêm numa situação
desesperante. No entanto, há limites, não vale tudo.
Os
terapeutas, para além de serem pessoas como as outras e terem que pagar as suas
contas, têm também a responsabilidade de impedir, no mínimo, não contribuir,
para que as psicoterapias passem a ser vistas como fórmulas/produtos de consumo,
propiciadores de bem-estar imediato e constante, negando a realidade numa atitude
delirante. Não é fácil, mas é essencial.
Desde
os tempos idos do início das psicoterapias, mérito seja dado a Freud, até hoje,
várias mudanças se verificaram. Actualmente, sabe-se que o poder “curativo”
está na relação - autêntica - com o outro. Os estudos com bebés mostram que
desde o nascimento, aquele pequeno "Ser" procura o outro – a relação –. É a
partir do outro que verdadeiramente se nasce e se faz o homem.
Mascarada
de múltiplas formas, lá está, a patologia dos nosso dias – o vazio -. A ilusão
do preenchimento para esconder a incompletude fornecida por
qualquer gadget é efémera, dura até sair o modelo seguinte. As responsabilidades não devem ser atribuídas
exclusivamente à publicidade que vende prazer imediato e a fantasia de que tudo
é possível com um cartão visa; elas são também de todos nós que fomos sendo alegremente
corrompidos pelo desenfreado consumismo como forma de alienação do que nos
rodeia.
Se
tiver que ficar para trás por não acompanhar os novos tempos, ficarei. Ficarei
com as minhas convicções, com aquilo que acredito e tenho a certeza que não
ficarei sozinho.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Diz-me quantas vezes fazes, dir-te-ei…
Diante
a liberdade sexual crescente, os Senhores do costume, acharam que tinham que
dizer qualquer coisa, pegaram na bíblia das patologias, o DSM (Manual de
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de
Psiquiatria) e fizeram de sua justiça. Em 1980, na 3ª edição do DSM-III, lá estava
a "sexual addiction". Entretanto, na 4ª edição e na 5ª, que será
publicada em 2013 a "sexual addiction" desapareceu. Quer isto dizer
que deixaram de entrar nas nossas cabecinhas perversas (vida sexual) e prescindiram
de nos dizer o que é certo e errado, normal ou patológico? Com certeza que não!
Imbuídos da sua autoridade moral juntaram-se para declarar que não passamos de
uns tarados (espero eu).
A
cada nova edição do DSM a linha que separa o normal e o patológico esbate-se, e
comportamentos e afectos num instante se transformam em patologia a necessitar
de tratamento.
Agora,
segundo se prevê, a “sexual addiction” foi rebatizada, passando a chamar-se “transtorno
hipersexual”. Dentro deste gravíssimo distúrbio psiquiátrico vamos encontrar o
EXCESSO de fantasias, impulsos e comportamentos sexuais acima da frugalidade
recomendada.
Quando
entramos nos critérios quantitativos somos levados a pensar que estes “experts”
não são desprovidos de humor. Assim, se você passar entre 30 minutos a 2 horas
por dia absorvido por fantasias ou desejos e quiçá os realiza, ora
masturbando-se, ora com um parceiro (cuidado – masturbação entre parceiros não
está incluída), entre duas a cinco vezes por semana, fique descansado, o seu
caso é de severidade média!
Tudo
isto não passaria de uma piada, se não fosse verdade.
psicologia clínica
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