Por cá a época dos festivais já começou mas ainda vamos a
tempo de procurar respostas para algumas perguntas: Why we love festivals so much, and why in particular we love dancing at them?
terça-feira, 24 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
No comboio da loucura sem bilhete de ida-e-volta
Neste magnífico trabalho de António
Araújo - O Trem de doidos -, somos confrontados com dados históricos que
possuem uma actualidade assombrosa. A experiência que David Rosenham efectuou
em 1972, podia ser replicada hoje, e os resultados seriam exactamente os mesmos.
Como se não bastasse tem ainda
uma entrevista à jornalista premiada Daniela Arbex que conta a história de vida
e morte do Hospício Colônia, o maior do Brasil e que se encontrou em
funcionamento até aos anos oitenta.
Leiam. Obrigatório!
terça-feira, 13 de maio de 2014
Catarse - Método Catártico
Método de Psicoterapia em que o
efeito terapêutico procurado é um “purgação” (catharsis), uma descarga adequada dos afectos patogénicos. O
tratamento permite ao indivíduo evocar e até reviver os acontecimentos
traumáticos a que esses afectos estão ligados, e ab-reagi-los.
Historicamente, o “método catártico”
pertence ao período (1880-1895) em que a terapêutica psicanalítica se define
progressivamente a partir de tratamentos operados em estado hipnótico.
O termo catharsis é uma palavra grega que significa purificação, purgação.
Foi utilizado por Aristóteles para designar o efeito produzido no espectador
pela tragédia: “A tragédia é a imitação de uma acção virtuosa e realizada que,
por meio do temor e da piedade, suscita
purificação de certas paixões.”
Breuer e depois Freud retomaram
este termo, que exprime para eles o efeito esperado de uma ab-reacção adequada
do traumatismo. Sabe-se efectivamente que, segundo a teoria desenvolvida nos Estudos sobre a Histeria (1895), os
afectos que não conseguiram encontrar o caminho para a descarga ficam “coarctados”,
exercendo então efeitos patogénicos. Resumindo mais tarde a teoria da catarse,
escreve Freud: “Supunha-se que o sintoma histérico tinha origem quando a
energia de um processo psíquico não podia chegar à elaboração consciente e era
dirigida para a enervação corporal (conversão) […]. A cura era obtida pela
libertação do afecto desviado, e a sua descarga por vias normais (ab-reacção).
A catarse nem por isso deixa de
ser uma das dimensões de toda a psicoterapia analítica. […] Do mesmo modo, a
perlaboração, a simbolização pela linguagem, estavam já pré-figuradas no valor
catártico que Breuer e Freud reconheciam à expressão verbal: “É na linguagem
que o homem encontra um substituto para o acto, substituto graças ao qual o
afecto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira…”
Vocabulário da Psicanálise – J.
Laplanche & J.B. Pontalis
segunda-feira, 5 de maio de 2014
(...) mãos fechadas, é assim que nascemos, pensou ele, com
os punhos cerrados, o meu filho não agarra em nada senão nele mesmo, mas aos
poucos aprenderá a abri-las, aprenderá que para ter coisas é preciso abrir as
mãos, só assim se consegue amar, não é (...)
Para onde vão os guarda-chuvas
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
domingo, 27 de abril de 2014
Liberdade
Nos meus
cadernos de escola
no banco dela e
nas árvores
e na areia e na
neve
escrevo o teu
nome
Em todas as
folhas lidas
nas folhas todas
em branco
pedra sangue
papel cinza
escrevo o teu
nome
Nas imagens
todas de ouro
e nas armas dos
guerreiros
nas coroas dos
monarcas
escrevo o teu
nome
Nas selvas e nos
desertos
nos ninhos e nas
giestas
no eco da minha
infância
escrevo o teu
nome
Nas maravilhas
das noites
no pão branco
das manhãs
nas estações
namoradas
escrevo o teu
nome
Nos meus
farrapos de azul
no charco sol
bolorento
no lago da lua
viva
escrevo o teu
nome
Nos campos e no
horizonte
nas asas dos
passarinhos
e no moinho das
sombras
escrevo o teu
nome
No bafejar das
auroras
no oceano nos
navios
e na montanha
demente
escrevo o teu
nome
Na espuma fina
das nuvens
no suor do
temporal
na chuva espessa
apagada
escrevo o teu
nome
Nas formas mais
cintilantes
nos sinos todos
das cores
na verdade do
que é físico
escrevo o teu
nome
Nos caminhos
despertados
nas estradas
desdobradas
nas praças que
se transbordam
escrevo o teu
nome
No candeeiro que
se acende
no candeeiro que
se apaga
nas minhas casas
bem juntas
escrevo o teu
nome
No fruto cortado
em dois
do meu espelho e
do meu quarto
na cama concha
vazia
escrevo o teu
nome
No meu cão
guloso e terno
nas suas orelhas
tesas
na sua pata
desastrada
escrevo o teu
nome
No trampolim
desta porta
nos objectos
familiares
na onda do lume
bento
escrevo o teu
nome
Na carne toda
rendida
na fronte dos
meus amigos
em cada mão que
se estende
escrevo o teu
nome
Na vidraça das
surpresas
nos lábios todos
atentos
muito acima do
silêncio
escrevo o teu
nome
Nos refúgios
destruídos
nos meus faróis
arruinados
nas paredes do
meu tédio
escrevo o teu
nome
Na ausência sem desejos
na desnuda
solidão
nos degraus
mesmos da morte
escrevo o teu
nome
Na saúde
rediviva
aos riscos
desaparecidos
no esperar sem
saudade
escrevo o teu
nome
Por poder de uma
palavra
recomeço a minha
vida
nasci para
conhecer-te
nomear-te
Liberdade.
Paul Éluard
trad. Jorge de Sena
quinta-feira, 3 de abril de 2014
A dor
Sei, hoje,
exactamente aquilo que falhei:
não senti a dor
até ao fim. Fugi
antes que ela se
tornasse coisa nenhuma
e fosse já nada
diferente de mim, do que sou
antes, depois,
durante as coisas sensíveis
tangíveis,
tacteadas, apalpadas na escuridão
dos anos.
Sem luz nem cor
nem beleza possível
de julgar.
E, súbito, tudo
são corpos a cair contra corpos
imaginar é o dom
que lhes foi dado.
imaginar a
beleza e a fealdade, o longe e o
perto que se
está de cada coisa.
Nenhuma vitória
me ensinará mais que um naufrágio
nenhuma vida é
mais vida por ter mais risos que palhaços
menos esperas
que encontros.
A vida eterna
não promete o sol nem o calor nem a riqueza nem
abraços. Os
livros
falam da paz. E
da paz só. A paz apenas prometem, por isso
sei, hoje, o que
sonhar para a morte.
Subo e desço das
camas, das cadeiras, dos lugares
agarro-me ao que
acaba como se o mar me fosse engolir depois
enquanto as
trevas rodam em torno da terra e
deixam
intervalos de luz,
corro contra as
horas
para não chegar
tarde, para não ser esquecido
para não me
mentir
mas o que
importa é subir e descer, manter-se
à superfície de
si mesmo, não interessa em que mar
as camas, as
cadeiras, os lugares, os corpos sem cor
continuarão
antes depois durante os intervalos de luz
e só eu poderei
responder à morte
a que preço está
a vida eterna,
em quantos anos
pagarei
os juros do
empréstimo
com que comprei
a paz.
Alexandre Borges
– Heartbreak Hotel
Psicoterapia
sábado, 29 de março de 2014
quinta-feira, 27 de março de 2014
A SÍNDROME DO BURN-OUT
“Oito em cada dez portugueses estão exaustos e querem mudar de emprego”: eis o título de uma notícia do PÚBLICO, na semana passada, onde se divulgava o resultado de um inquérito.
Esta forma de exaustão é global, é uma epidemia, e foi baptizada em língua inglesa com um nome cuja tradução ainda não foi fixada com rigor nas línguas latinas: burn-out. Diz-se que o pai do conceito é Graham Greene, que o utilizou como título de um romance, de 1960, A Burnt-out Case (a ortografia do termo inglês tinha, então, um t final).
O burn-out é uma doença da civilização, exclusivamente ligada aos aspectos que caracterizam a organização contemporânea do trabalho.
Distingue-se, pois, da depressão, que não precisa do contexto laboral para se revelar.
Esta doença do bom cidadão trabalhador, que sofre um “incêndio” metafórico (como sugere a palavra inglesa) apresenta os seguintes sintomas: fadiga até ao limite do esgotamento, ansiedade, incapacidade de controlar o stress, despersonalização e impotência.
Esta doença do “too much” é reveladora de um demónio – o demónio do trabalho – que retira o mais precioso dos nossos bens: o tempo. E a palavra “demónio” justifica-se plenamente porque os estudiosos desta doença social dizem que ela tem um equivalente na acédia medieval – esse mal de que sofriam os monges na Idade Média e que os fazia perder a fé no sistema divino. Por conseguinte, o burn-out é para as empresas o que a acédia foi para a Igreja.
Em média, o tempo de trabalho é hoje superior ao que vigorava no século XIX. Todas as utopias que prometiam uma sociedade do lazer e viam no progresso tecnológico um meio que nos libertaria do trabalho foram desmentidas. Pior do que isso: a evolução e multiplicação dos utensílios, em vez de serem factores de libertação, dilataram o tempo de trabalho e elevaram à máxima potência a lógica económica que se realiza na corrida pelo aumento da produção e do lucro.
Evidentemente, isso só foi possível pondo em prática métodos de gestão que submetem, controlam, pressionam, induzem a uma competição que quebra solidariedades e criam delatores. Veja-se, aliás, como o apelo governamental à delação – algo que outrora seria considerado abjecto – se começa a generalizar.
O burn-out consiste em ultrapassar o limiar da resistência a uma adaptação violenta, coerciva, que, no limite, exige dos empregados que eles sejam “empreendedores” e, até, que os artistas se inclinem perante os códigos e as prerrogativas das indústria culturais.
Adaptação e flexibilidade são os nomes da actual ideologia do trabalho e da produção.
A descoberta desta doença chamada burn-out deve-se muito a um médico americano (nascido na Alemanha em 1926), chamado Herbert J. Freudenberger, que a diagnosticou em si mesmo.Ao tratar de toxicómanos numa clínica de Nova Iorque, ele descobriu a certa altura que estava mais doente do que eles.
Esta situação é a regra em que vivemos: os hospitais estão cheios de médicos doentes; as escolas estão cheias de professores que temem mais as aulas e a avaliação a que estão submetidos do que os alunos que eles ensinam e avaliam; os guardas das prisões estão tão encarcerados como os detidos que eles vigiam. Não há exterior ao tempo de trabalho. E, imersos em tudo isto, aqueles que dizem combater o capitalismo, ou pelo menos as suas lógicas mais nefastas, não fazem senão exaltar o trabalho e fixar as formas de vida que ele implica. O axioma de Carl Schmitt, segundo o qual o nosso inimigo se assemelha a nós, encontra aqui uma bela confirmação.
António Guerreiro
in Ípsilon (21.03.2014)
domingo, 16 de março de 2014
Retornos
Retornos
Voltou. Não
disse nada.
Mas estava claro
que teve algum desgosto.
Deitou-se
vestido.
Cobriu a cabeça
com o cobertor.
Encolheu as
pernas.
Tem uns quarenta
anos, mas não agora.
Existe --mas só
como na barriga da mãe
na escuridão
protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma
palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica
metagaláctica.
Por ora dorme,
todo enroscado.
SZYMBORSKA,
Wisława. Poemas. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011.
Psicoterapia
terça-feira, 11 de março de 2014
Nós somos um bocadinho mais que uma reacção química?!
Recentemente
estive a conversar com um jovem sobre a sua ansiedade, que era sentida por ele
como muito intensa. Quando lhe perguntei acerca do que seria a sua ansiedade
ele disse que não sabia. Quando lhe sugeri que podíamos tentar explorar sobre o
que se tratava a ansiedade ele disse que era tão intensa que devia ser bioquímica.
Isso significava que para ele a ansiedade não podia ser entendida como sendo
psicológica, mas tinha que ser tratada como parte da sua “doença”. Eu reconheci
que a ansiedade envolve bioquímica, mas mostrei-lhe que também existem
experiências e interpretações das experiências que despoletam reacções
químicas. Por exemplo, se alguém aponta uma arma na nossa direcção,
provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a
experiência não seria “apenas bioquímica”.
Se
as pessoas procuram compreender (se) e trabalhar os seus problemas emocionais é
essencial que tenham curiosidade sobre as suas experiências/vivências e possam
reflectir sobre o que os pode ter desencadeado. Por vezes essa curiosidade ou
reflexão trás importantes informações sobre essas experiências, e pode, por
vezes, permitir a identificação do que fez despontar a ansiedade e dessa forma possibilitar
a sua resolução. Claro que situações de ansiedade e de depressão, normalmente têm
origem em experiências muito mais complexas, e implica uma maior reflexão.
Vivemos
numa sociedade que não gosta da complexidade e da reflexão profunda, de modo
que já temos um viés na direcção de pensar que as emoções perturbadoras não
fazem sentido e rapidamente concluir que se trata apenas de uma questão química.
Este viés faz-nos pensar que não devemos vivenciar estados emocionais
perturbadores, por isso temos tendência a afastá-los ou a dissociá-los o que
torna mais difícil entendermos as causas e decidir o que fazer com eles.
Aqueles
que comercializam drogas psiquiátricas aproveitam este viés cultural para
oferecer uma pseudo-explicação sedutora, de que os estados emocionais
indesejáveis e que não são facilmente resolvidos devem ser o
resultado de um "desequilíbrio bioquímico" ou algum outro problema biológico. A nossa cultura tornou-se
fortemente influenciada por esta forma de ver as coisas, ao ponto da maioria
acreditar que os problemas emocionais graves para os quais não há uma
explicação fácil devem ser causados por uma falha bioquímica, em vez de ser
algo que pode ser potencialmente compreendido e resolvido.
O
triste resultado deste esforço de marketing tem sido o drástico agravar da
tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.
Qualquer problema mental ou emocional que não pode ser resolvido rapidamente é
"bioquímico" e não vale a pena sequer tentar entender, pelo
contrário, devemos partir logo para as drogas.
Quando
as pessoas estão traumatizadas ou quando experimentam conflitos que excedem a
sua capacidade de lidar com eles dá-se uma dissociação. Quando a dissociação é
o problema, há uma necessidade de trabalhar no sentido de uma maior compreensão
e integração. No entanto, o efeito da crença no desequilíbrio bioquímico vai
aumentar a dissociação. Ao invés de se questionar acerca das origens da ansiedade
ou da depressão, por exemplo, a pessoa convencida de que é um desequilíbrio
bioquímico procura apenas livrar-se dela sem tentar compreender a sua origem
interna.
Quando
as pessoas estão convencidas que os seus problemas são bioquímicos têm menos
propensão em explorar o problema com outras pessoas ou com um terapeuta. E,
quando o terapeuta está convencido de que o problema do paciente é
"bioquímico" então, deve aconselhá-lo a procurar tratamento através
da medicação. (as teorias do “ desequilíbrio bioquímico" também são óptimas
para explicar as falhas de compreensão por parte dos terapeutas!)
O
resultado final desta desinformação provocada pelo marketing pode ser
extremamente iatrogénica, e ser uma das causas primárias, juntamente com os
efeitos secundários a longo prazo das drogas, do agravamento da saúde mental.
Adaptado e traduzido daqui
Psicoterapia - uma definição
Gostaria
que houvesse alguém que ouvisse a minha confissão.
Não um padre. Não quero que me digam os meus pecados.
Não a minha mãe. Não quero causar tristeza.
Não uma amiga. Não entenderia o bastante.
Não um amante. Seria parcial demais.
Não Deus. Ele é tão distante.
Mas alguém que fosse ao mesmo tempo
o amigo, o amante, a mãe, o padre, Deus e ainda um estranho.
Não julgaria, nem interferiria
e, quando tudo tivesse sido dito desde o inicio até o fim,
mostraria a razão das coisas, daria força para continuar
e para resolver tudo à minha própria maneira.
Poema de 1916, atribuído a uma adolescente americana de 15 anos.
domingo, 9 de março de 2014
A perda da alteridade
Este vídeo da Save the
Children anda a causar furor no mundo, no mundo «civilizado», que o outro
não tem YouTube. No YouTube, já conta com quase 20 milhões de visualizações. A
apresentação do filme está
aqui, dizendo-se que três anos de guerra civil na Síria já custaram a vida
a 11.000 crianças. Há um milhão de crianças refugiadas. Mas, por mais que a
estatística nos arrepie, este filme, que segundo me parece representa o que
seria o crescimento e o dia-a-dia de uma das «nossas» crianças se vivesse na
Síria, é o nos que causa mais incómodo e indignação. Como se, para nos
sentirmos sírios, necessitemos de ser figurados como «nós», ocidentais e
caucasianos, vivendo nas nossas cidades, nas nossas escolas, andando nas nossas
ruas e saltando por parques relvados. Talvez isto seja a prova de que perdemos
o sentido da alteridade, a capacidade de nos colocarmos por inteiro na posição
do outro – e que só através da representação dos outros como «nós» somos
capazes de nos comover e impressionar. O mundo é um lugar estranho.
A Interpretação dos Sonhos
“A interpretação dos sonhos é a
via régia que conduz ao conhecimento do inconsciente da vida psíquica.” S.
Freud
Na “Interpretação dos Sonhos”
(1900) S. Freud lança ideias inovadoras que vão permitir uma nova compreensão
dos sonhos, defendendo que se trata de uma actividade psíquica organizada e com
leis próprias. O sonho é produzido pelo próprio sonhador e não provém de uma
fonte exterior a ele. Desta forma demarca-se dos métodos tradicionais de
interpretar os sonhos recorrendo à decifração em função de chaves simbólicas
culturais associadas a uma previsão do futuro.
A melhor metáfora para explicar
de forma simplificada o facto de o sonho ter normalmente uma aparência estranha
e confusa talvez seja a da “censura”.
No seu percurso de formação o
sonho passa por uma censura (situada entre o inconsciente e o consciente) que
determina se ele pode ou não prosseguir os seus intentos. Para conseguir
enganar a censura ele necessita de mudar a sua aparência através de um
mecanismo de distorção (trabalho do
sonho: processo que transforma o conteúdo latente em conteúdo manifesto). O
sonho é composto pelo conteúdo latente
(pensamentos/desejos que estão ocultos e serão mais tarde
descodificados/interpretados recorrendo ao método da associação livre) e pelo conteúdo manifesto (corresponde aquilo que
o indivíduo sonha e se recorda de forma mais ou menos imprecisa quando acorda)
que normalmente é composto por materiais/acontecimentos recentes (restos diurnos).
O sonho manifesto, ou seja,
aquilo que a censura permitiu que viesse até à superfície da consciência, foi alcançado
devido a uma máscara de aparência inócua e de significado praticamente
impenetrável. Para transformar o sonho nessa coisa inocente/inofensiva/caótica/desconexa
foi necessário recorrer a certas ferramentas: condensação (consiste em reunir num único elemento vários elementos;
muito poderoso; torna o sonho difícil de entender); deslocamento (substitui os pensamentos mais significativos do sonho
por pensamentos acessórios, desfocando o conteúdo importante e dissimulando a
realização do desejo); representabilidade
(transforma os pensamentos do sonho em imagens); elaboração secundária (consiste em apresentar o conteúdo onírico
sob a forma de um cenário coerente e inteligível); dramatização (procedimento análogo ao do encenador que transpõe o
texto escrito para a representação).
É através desta acção conjunta
organizada que se forma o sonho, “o guardião do sono”.
terça-feira, 4 de março de 2014
Os medos
"É a medo que escrevo. A medo penso,
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo".
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo".
José Cutileiro
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Vou te ligar. Vou te ligar, com certeza!
O Indireto Afetivo na Linguagem do Carioca
No Rio de Janeiro contemporâneo há uma figura lingüístico-afetiva que pontua as relações sociais entre cariocas, ou entre um carioca e um estrangeiro. Trata-se – e todo carioca ou qualquer pessoa que já esteve no Rio o reconhecerá – do famigerado
diálogo:
— Rapaz, há quanto tempo!
— Pois é, que bom te ver!
— Poxa, a gente tinha que se falar mais!
— É mesmo, vou te ligar.
— Mas liga mesmo, pra gente se ver, botar o papo em dia.
— Não, pode deixar, vou ligar com certeza.
— Beleza, então. Adorei te ver!
— Eu também, te ligo então. Um grande abraço!
Isso ou variações.
Pois para muitos cariocas, que já estão mais do que familiarizados com o diálogo, e talvez sobretudo para os não-cariocas, que constataram perplexos o encaminhamento futuro dessas promessas, essa figura lingüística acaba por se configurar como uma situação de constrangimento. Afinal, todos sabemos que não haverá telefonema algum. Todos, literalmente, a começar pelos próprios personagens da conversa. E a fórmula do constrangimento, já se disse, é precisamente esta: todos sabem que todos sabem e entretanto ninguém o pode admitir. Curiosas sutilezas sociais. O que impede que se desencubra o não-dito do diálogo é que esse não-dito é sentido como uma mentira: não haverá telefonema, um não ligará para o outro, e vice-versa. Assim, o não-dito é mantido e desenvolvido, cria-se uma conversa sustentando a sua tensão. Está configurada a situação constrangedora.
Mas o que faz com que a situação seja por muitos experimentada como constrangedora é justamente o entendimento desse não-dito, dessa promessa que sabemos sem fundos ("te ligo, com certeza"), como sendo uma mentira. Fulano disse que ia ligar, mas não ligou: mentira, portanto. Pior: fulano assegurou que ia ligar, enfatizou, sublinhou a promessa com todas as inflexões e entonações da convicção. Mentira ainda mais grave, gravíssima.
Entretanto, tudo muda se pensarmos o recalcado do diálogo, o não-dito, não como uma mentira, mas como um modo indireto da verdade. Assim, o horizonte em que a promessa passa a ser verdadeira não é mais a sua efetivação posterior, mas o que, dentro dela, vibra afetivamente: "te ligo" passa a significar "gosto de você", "vou ligar com certeza" traduz-se por "gosto muito de você", e assim por diante, a intensidade afetiva aumentando à proporção das entonações e expressões de segurança. Fernando Pessoa dizia que "a linguagem pode mentir, mas a voz não". Ora, nesse fragmento de carioquês a verdade está na voz, no afeto que nela pulsa e se manifesta explicitamente. Mas, cabe então a pergunta: por que engajar esse afeto em uma promessa sem fundos, que se sabe não será cumprida? Por que comprometer sua verdade associando-o a uma efetivação que não ocorrerá?
A origem dessa curiosa figura sócio-lingüístico-afetiva é uma outra figura: uma sutil transformação da amizade que costuma se dar numa das curvas impostas pelo tempo a determinadas relações. Essa transformação ocorre quando uma amizade intensa passa de um estado de intimidade diariamente atualizada – conversas freqüentes, presença física constante, confissões, vidas em permanente comunicação – para um estado de amizade em que a distância se interpõe e dispersa as trajetórias dos amigos, porém algo da intimidade da outra configuração resiste a essa nova forma e se mantém intenso, incólume à distância. Esse "algo da intimidade" se transforma em um afeto constante que, adormecido e escondido pela distância, emerge efusivamente na presença do amigo. Afeto a distância. Quase-intimidade que se evidencia, para deleite dos amigos, a cada vez que o acaso propicia um encontro. Mas, em geral, os movimentos divergentes das trajetórias de vida são irreversíveis, na medida em que atingem o processo de subjetivação de cada um dos amigos: estes já não são mais os mesmos, pensam e sentem de forma diferente, são outros, não podem ter a cumplicidade que tinham antes, não da mesma forma. O que resiste, o afeto, é resultado de uma intimidade de tal modo condensada que, por excesso, atingiu como que uma existência própria, interpessoal, portanto imune às mudanças de vida dos amigos.
Perde-se a intimidade, já não se sabe tão bem da vida do outro, mas fica, incorruptível, o afeto, que vem à tona nos encontros fortuitos. Pois, justamente, é essa consciência (que pode ser apenas intuída, porém claramente) da perda irreversível da intimidade, da impossível recuperação da amizade, que virá a produzir o diálogo de que estamos tratando. O afeto é verdadeiro, é uma positividade, mas há em sua formação uma perda, uma impossibilidade: a da intimidade perdida. Isto é, telefonar seria um erro, seria apostar na improvável recuperação do estado antigo da amizade. Doravante a amizade é isso: o afeto efusivo, a alegria dos encontros fortuitos – que entretanto tenderia a perder a efusão se se tentasse um movimento restaurador. O recalcado do diálogo, o não-dito, se forma nesse ponto: é que seria duro demais trazer à tona o núcleo de perda e de impossibilidade que se encontra na formação de um afeto tão positivo, tão efusivamente manifestado. Opta-se por escondê-lo, e para tanto faz-se necessário mascará-lo com a promessa da restauração: "Vou te ligar." Quanto maior a consciência ou a intuição — da impossibilidade, e de quanta perda ela encerra, maior a necessidade de mascaramento: "Vou te ligar, com certeza."
Assim, curiosamente, quanto maior a mentira, maior a verdade. A verdade do afeto não se subordina à efetivação da promessa, mas se manifesta, de forma indireta, através do prometido: "Vou te ligar, com certeza" significa apenas "Gosto muito de você". O não cumprimento da promessa significa a consciência (mesmo que intuitiva) da impossibilidade de restauração da amizade, e o recalcado do diálogo é o mascaramento protetor de um afeto delicado. Pois a verdade nua e crua, desprotegida, poderia ser muito... constrangedora: "Rapaz, há quanto tempo! Veja, gosto de você, fomos muito íntimos, mas hoje somos bem diferentes, não acredito que possamos retomar a antiga cumplicidade, por isso vamos apenas gozar desse momento de alegria fortuita, sem fazer promessas que não poderemos cumprir." Logo o constrangimento também surge de um excesso de dizer, e não apenas de um não-dito gritante. Na verdade, nosso famigerado diálogo carioca só se torna constrangedor se sua verdade nuclear – o afeto incorruptível – não for forte o suficiente para sustentar, à base de cumplicidade, a tensão do mascaramento. Quando o mascaramento é bem-feito, o diálogo transcorre sob intensa e efêmera efusão afetiva – e somente na despedida passa por nós a brisa de uma melancolia.
BOSCO, Francisco. Banalogias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
No Rio de Janeiro contemporâneo há uma figura lingüístico-afetiva que pontua as relações sociais entre cariocas, ou entre um carioca e um estrangeiro. Trata-se – e todo carioca ou qualquer pessoa que já esteve no Rio o reconhecerá – do famigerado
diálogo:
— Rapaz, há quanto tempo!
— Pois é, que bom te ver!
— Poxa, a gente tinha que se falar mais!
— É mesmo, vou te ligar.
— Mas liga mesmo, pra gente se ver, botar o papo em dia.
— Não, pode deixar, vou ligar com certeza.
— Beleza, então. Adorei te ver!
— Eu também, te ligo então. Um grande abraço!
Isso ou variações.
Pois para muitos cariocas, que já estão mais do que familiarizados com o diálogo, e talvez sobretudo para os não-cariocas, que constataram perplexos o encaminhamento futuro dessas promessas, essa figura lingüística acaba por se configurar como uma situação de constrangimento. Afinal, todos sabemos que não haverá telefonema algum. Todos, literalmente, a começar pelos próprios personagens da conversa. E a fórmula do constrangimento, já se disse, é precisamente esta: todos sabem que todos sabem e entretanto ninguém o pode admitir. Curiosas sutilezas sociais. O que impede que se desencubra o não-dito do diálogo é que esse não-dito é sentido como uma mentira: não haverá telefonema, um não ligará para o outro, e vice-versa. Assim, o não-dito é mantido e desenvolvido, cria-se uma conversa sustentando a sua tensão. Está configurada a situação constrangedora.
Mas o que faz com que a situação seja por muitos experimentada como constrangedora é justamente o entendimento desse não-dito, dessa promessa que sabemos sem fundos ("te ligo, com certeza"), como sendo uma mentira. Fulano disse que ia ligar, mas não ligou: mentira, portanto. Pior: fulano assegurou que ia ligar, enfatizou, sublinhou a promessa com todas as inflexões e entonações da convicção. Mentira ainda mais grave, gravíssima.
Entretanto, tudo muda se pensarmos o recalcado do diálogo, o não-dito, não como uma mentira, mas como um modo indireto da verdade. Assim, o horizonte em que a promessa passa a ser verdadeira não é mais a sua efetivação posterior, mas o que, dentro dela, vibra afetivamente: "te ligo" passa a significar "gosto de você", "vou ligar com certeza" traduz-se por "gosto muito de você", e assim por diante, a intensidade afetiva aumentando à proporção das entonações e expressões de segurança. Fernando Pessoa dizia que "a linguagem pode mentir, mas a voz não". Ora, nesse fragmento de carioquês a verdade está na voz, no afeto que nela pulsa e se manifesta explicitamente. Mas, cabe então a pergunta: por que engajar esse afeto em uma promessa sem fundos, que se sabe não será cumprida? Por que comprometer sua verdade associando-o a uma efetivação que não ocorrerá?
A origem dessa curiosa figura sócio-lingüístico-afetiva é uma outra figura: uma sutil transformação da amizade que costuma se dar numa das curvas impostas pelo tempo a determinadas relações. Essa transformação ocorre quando uma amizade intensa passa de um estado de intimidade diariamente atualizada – conversas freqüentes, presença física constante, confissões, vidas em permanente comunicação – para um estado de amizade em que a distância se interpõe e dispersa as trajetórias dos amigos, porém algo da intimidade da outra configuração resiste a essa nova forma e se mantém intenso, incólume à distância. Esse "algo da intimidade" se transforma em um afeto constante que, adormecido e escondido pela distância, emerge efusivamente na presença do amigo. Afeto a distância. Quase-intimidade que se evidencia, para deleite dos amigos, a cada vez que o acaso propicia um encontro. Mas, em geral, os movimentos divergentes das trajetórias de vida são irreversíveis, na medida em que atingem o processo de subjetivação de cada um dos amigos: estes já não são mais os mesmos, pensam e sentem de forma diferente, são outros, não podem ter a cumplicidade que tinham antes, não da mesma forma. O que resiste, o afeto, é resultado de uma intimidade de tal modo condensada que, por excesso, atingiu como que uma existência própria, interpessoal, portanto imune às mudanças de vida dos amigos.
Perde-se a intimidade, já não se sabe tão bem da vida do outro, mas fica, incorruptível, o afeto, que vem à tona nos encontros fortuitos. Pois, justamente, é essa consciência (que pode ser apenas intuída, porém claramente) da perda irreversível da intimidade, da impossível recuperação da amizade, que virá a produzir o diálogo de que estamos tratando. O afeto é verdadeiro, é uma positividade, mas há em sua formação uma perda, uma impossibilidade: a da intimidade perdida. Isto é, telefonar seria um erro, seria apostar na improvável recuperação do estado antigo da amizade. Doravante a amizade é isso: o afeto efusivo, a alegria dos encontros fortuitos – que entretanto tenderia a perder a efusão se se tentasse um movimento restaurador. O recalcado do diálogo, o não-dito, se forma nesse ponto: é que seria duro demais trazer à tona o núcleo de perda e de impossibilidade que se encontra na formação de um afeto tão positivo, tão efusivamente manifestado. Opta-se por escondê-lo, e para tanto faz-se necessário mascará-lo com a promessa da restauração: "Vou te ligar." Quanto maior a consciência ou a intuição — da impossibilidade, e de quanta perda ela encerra, maior a necessidade de mascaramento: "Vou te ligar, com certeza."
Assim, curiosamente, quanto maior a mentira, maior a verdade. A verdade do afeto não se subordina à efetivação da promessa, mas se manifesta, de forma indireta, através do prometido: "Vou te ligar, com certeza" significa apenas "Gosto muito de você". O não cumprimento da promessa significa a consciência (mesmo que intuitiva) da impossibilidade de restauração da amizade, e o recalcado do diálogo é o mascaramento protetor de um afeto delicado. Pois a verdade nua e crua, desprotegida, poderia ser muito... constrangedora: "Rapaz, há quanto tempo! Veja, gosto de você, fomos muito íntimos, mas hoje somos bem diferentes, não acredito que possamos retomar a antiga cumplicidade, por isso vamos apenas gozar desse momento de alegria fortuita, sem fazer promessas que não poderemos cumprir." Logo o constrangimento também surge de um excesso de dizer, e não apenas de um não-dito gritante. Na verdade, nosso famigerado diálogo carioca só se torna constrangedor se sua verdade nuclear – o afeto incorruptível – não for forte o suficiente para sustentar, à base de cumplicidade, a tensão do mascaramento. Quando o mascaramento é bem-feito, o diálogo transcorre sob intensa e efêmera efusão afetiva – e somente na despedida passa por nós a brisa de uma melancolia.
BOSCO, Francisco. Banalogias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Portas entreabertas
Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.
Cecília Meirelles
psicologia clínica
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.
Cecília Meirelles
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Felizes os normais
Felizes os normais, esses seres estranhos,
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbedo, um filho delinquente,
Uma casa em lado nenhum, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorante,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rin-tin-tins e os seus sequazes, os que claro que sim, faça favor,
Os que ganham, os que são queridos até ao punho,
Os flautistas acompanhados por ratos,
Os vendedores e os seus compradores,
Os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.
Mas que abram alas aos que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais bêbedos
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem o seu sítio no inferno, e basta.
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbedo, um filho delinquente,
Uma casa em lado nenhum, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorante,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rin-tin-tins e os seus sequazes, os que claro que sim, faça favor,
Os que ganham, os que são queridos até ao punho,
Os flautistas acompanhados por ratos,
Os vendedores e os seus compradores,
Os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.
Mas que abram alas aos que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais bêbedos
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem o seu sítio no inferno, e basta.
- Roberto Fernández Retamar
(tradução de Vasco Gato)
(tradução de Vasco Gato)
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Serotonina e Dopamina
Nós podíamos ser apenas Serotoninas e Dopaminas mas não era
a mesma coisa!
Aqui ficam alguns links que teimosamente contrariam certas
teses
psicologia clínica
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Os textos que eu não escrevi # 4
O
Mal do Século
Tem-se
afirmado, repetidamente, que a depressão é o mal do século. No entanto,
acredito que valha a pena questionar a afirmação. Não é que se possa negar o
grande contingente dos ditos deprimidos, que vai desde a baixa de humor, a
apatia, o desânimo e o pessimismo, até os conteúdos nostálgicos e tristes, que
emprestam colorido acinzentado à vida. Nem tampouco pode-se ocultar o fato do
aumento de prevalência da doença depressiva em suas multifacetadas
apresentações. É verdade que a depressão tem sido responsável por muitos
estragos em muitas vidas e bolsos ? que o confirmem os receituários recheados
de Prozac ou as farmácias naturais que preparam as fórmulas dos famigerados
Florais de Bach. Para não falar das depressões mascaradas, constantes presenças
nas salas de espera dos médicos de todas as especialidades, e responsáveis por
tantos tratamentos e exames desnecessários e até cirurgias inúteis.
Além
disso, a depressão é parceira certa nas mesas dos bares de cada esquina ou
clube da terceira idade, onde pseudo soluções propõem um inacessível e
constante bem viver, ou nas noites insones dos freqüentadores das salas de bate
papo virtual. É inevitável que o pessimismo e a frustração não sejam respostas
aos desafios incessantes do progresso, às necessidades permanentes do mercado,
à competição profissional e social desenfreadas. A sensação de incapacidade,
incompetência para estar sempre em dia, e a percepção da impotência em
consegui-lo, tornam-se a cada dia mais insuportáveis. Em função disso,
paralisados, muitos são incapazes de reagir.
Mas,
talvez, um outro tipo de mal merecesse, quem sabe, a nossa reflexão! Um mal que
sorrateiramente se insinua e dissemina no seio das sociedades. Quase
imperceptível, sublinear e camuflado. Sim, camuflado, pois quando se fala em
perversão, atribui-se-lhe logo o conceito de maldade ou aberração. Mas apesar
do mesmo adjetivo ser usado para designar o mau (perverso) e aquele portador de
estrutura psíquica perversa (perverso), a perversão enquanto estrutura psíquica
não pode ser confundida com a crueldade ou a anormalidade.
Nos
séculos passados, a psiquiatria considerava que “neuróticos eram os indivíduos
que sofriam”, psicóticos “os que sofriam e faziam os outros sofrerem”, e
psicopatas “os que não sofriam mas, impunham sofrimento aos outros” Os tênues
limites entre os que cometem atos de crueldade e, os ditos normais, acabaram
por determinar a alteração da nomenclatura e da etiologia, originando-se assim
a denominação de sociopatas para marcar o desempenho dos fatores sociais.
A
Psiquiatria Forense descreveu, com riqueza de detalhes, os vários tipos de
perversão, dando-lhes nomes complicados e curiosos. Kraft-Ebing escreveu um
tratado clássico, em dois volumes, sobre o tema. Mas foi o Marquês de Sade quem
relacionou de forma inequívoca, a prática das perversões às sensações de prazer
e à excitação sexual. De modo despudorado e constrangedor, o Marquês que
termina os dias na prisão, escrevendo com sangue suas memórias, pois o papel
lhe foi negado, incita e desafia todo ser humano a provar que, nas condições
mais inesperadas, é possível ocorrerem aos mais probos e puros, os sentimentos
mais abjetos, as emoções mais torpes e bizarras.
São
essas mesmas emoções contraditórias e absurdas, surgidas às vezes da
experiência do sofrimento físico e dor presumíveis, que traduzem,
inexplicavelmente, um prazer quase total que intriga a lógica e confunde a
razão. Freud, ratificando Sade, declarou em Três ensaios sobre a
sexualidade infantil, que: “a neurose é o negativo da perversão”, querendo com
isso asseverar que os conflitos neuróticos calcaram-se nos mesmos íntimos
impulsos que se liberaram, incondicionalmente, e sem controle, buscaram a
realização como atos perversos.
O
que de mais incrível ocorre, é que os mesmos impulsos inconscientes que
determinam desejos tresloucados e, por vezes, cruéis, habitam o psiquismo, até
dos mais aparentemente normais. A Psicanálise contribuiu decisivamente para a
compreensão dos fenômenos perversos ao relacioná-los com a sexualidade. Os
complicados avatares da sexualidade humana, no cumprimento do seu trajeto desde
os primórdios da fase oral, passando pelas atribulações da fase anal, quando o
ser humano vai, pela primeira vez, defrontar-se com a negação e a repressão,
irá, se tudo correr bem, culminar, finalmente, na primazia genital.
Essa
primazia não exclui, porém, a permanência de traços perversos, resquícios
eternos no psiquismo humano, da evolução da sexualidade. Sua presença
evidencia-se nas preliminares dos atos amorosos introduzida por contatos dos
lábios nos beijos, carícias em diversas partes do corpo, todas elas límpidas
representantes das etapas prévias da sexualidade genital, aceitas como normais.
Não sem motivo, Freud referiu-se às crianças que, até então, eram, e por vezes,
até hoje, ainda são consideradas símbolos de pureza, como “polimorfos
perversos”.
As
descobertas freudianas foram tão rejeitadas, no seu tempo por escandalizarem o
mundo, ao mostrar o ser humano em toda a sua nudez. A loucura, evidenciou Freud
está muito mais próxima da normalidade do que se poderia supor. Aliás, muito
antes de Freud, Kaplan já teria assinalado que “a diferença entre o psicótico e
o normal, é que ‘o psicótico faz o tempo inteiro’, o que o normal só faz de vez
em quando”. Bem, assim, só se poderia falar de perversão sexual, quando o
orgasmo só fosse alcançado mediante a realização de um ato, dito perverso, como
por exemplo, a substituição do ato sexual por uma carícia prévia ou o uso de
fetiche para obter orgasmo.
O
homem, até então, dono e senhor dos seus atos e pensamentos viu-se, de repente,
assujeitado ao sabor da vontade e incoerências do inconsciente, refém de forças
desconhecidas e desconexas, que não obedecem ao tempo nem à lógica, não
conhecem limites nem contradições. Seria assim a perversão algo tão estranho ao
ser humano? Seria justo atribuir a causas externas algumas das mais condenáveis
atitudes dos seres humanos?
É
na própria Psicanálise que encontraremos, ainda, mais respostas a perguntas
como essas, quando mais tarde, Jacques Lacan retoma o estudo da perversão sob a
ótica do desejo e da castração. Lacan revê a questão, considerando a atitude da
criança, perturbada pela idéia da castração e a impossibilidade de admiti-la.
Desse modo, a criança trata de desmenti-la e, para tal, desmente a castração
materna, ocultando-a com uma espécie de véu. O objeto do desejo do perverso é,
então, um fetiche, algo que recobre o desejo, mas, ao mesmo tempo, deixa
perceber, com a tentativa de obturá-lo, a impossibilidade de recobri-lo.
Uma
das maiores características do perverso, contudo, como destaca Joel Dör, é a
sua necessidade de transgressão. Sua relação com a lei é sempre de
transgressão. Ele precisa transgredi-la, para comprovar que ela existe. Mas
para tal, precisa desvalorizá-la, desmerecê-la, e a primeira lei que transgride
é a lei do pai.
A
criança ao nascer estabelece uma relação diádica com a mãe, considerando-se
parte dela, algo que a completa, assim, a mãe é inteira, e ela (criança), seu
falo. Por isso, o bebê considera que a mãe não é castrada e nem tampouco ele o
é. Nessa relação em que os dois se completam, vai haver a interferência de um
terceiro – o pai – que rompe a relação, interpondo a lei entre o filho e a mãe.
Ao sentir que o olhar da mãe se volta para o pai, é que o bebê vai perceber que
a mãe não é completa e que ele não a completa. Essa é a primeira noção de falta
e de castração, introduzida pelo pai que também introduz a lei, interdita o
incesto, mas abre caminho para o desejo, pois permite ao filho dirigir-se a
outras mulheres nas quais buscará o objeto de desejo.
Essa
figura paterna empalidecida na sociedade atual, falha em exercer sua função,
favorecendo a transgressão da lei, ou melhor, permitindo que o sujeito se
insurja a obediência às leis. A excessiva permissividade patriarcal se incumbe
de favorecer, com a cumplicidade, às vezes omissa, o resto da oportunidade de
transgressão. Sua maneira transgressora de ser, é a marca da relação social do
perverso. Suas transgressões, além de constantes, demandam ainda um terceiro
que as confirme e referende. Esse olhar de um outro sobre a transgressão,
proporciona ao perverso uma satisfação especial e única.
Mas
o mundo tem assistido através dos séculos várias condutas bizarras e malvadas,
que só se explicariam do ponto de vista da consciência e da razão, pelo prazer
perverso do sadismo ou pela vingança mórbida. Assim, viram os romanos, as
atrocidades brutais e a desregrada atuação da sexualidade de Calígula, como
vivenciamos, nós brasileiros, muitos séculos depois, as barbáries da
escravidão, do mesmo modo que testemunharam atônitos os romanos, a sua Roma
querida arder, enquanto Nero se comprazia com o espetáculo da dança das
labaredas e os gritos desesperados da população, do mesmo modo, mais tarde, os
infelizes iraquianos sofreram e testemunharam as torturas e mutilações de Sadam
Hussein. Para não falar da cumplicidade da Igreja no holocausto, como da sua
participação ativa nos tristes episódios da Inquisição na Idade Média.
O
novo homem do século XXI que transpôs o espaço sideral e rompeu a barreira do
som, comunica-se, em segundos, com o mundo inteiro via Internet ou telefones
celulares, enviando mensagens e imagens como lhe aprouver, interage nas tvs a
cabo e acompanha guerras, ao vivo, com imagens de alta precisão. Dispõe de
veículos possantes e armas fantásticas. Consegue por meio de drogas, orgasmos
duradouros e estados de excitação crescente. Vive uma sexualidade desreprimida
e solta, cuja permissividade e promiscuidade lhe permitem quase todos os
possíveis prazeres e emoções das mais esdrúxulas.
Casas
noturnas para sexo grupal são anunciadas escancaradamente e as trocas de casais
encaradas com naturalidade. As relações sexuais são realizadas alternadamente,
ou até concomitantemente, com parceiros de sexos diferentes, alegando-se o
direito inequívoco do gozo da bissexualidade, que nada mais é, que a tentativa
de não submeter-se à lei da sexuação, ou seja, não ter de optar por nenhum dos
sexos e valer-se do uso dos dois.
O
que seria interditado a esse homem? O que lhe falta? Que precisa procurar,
ainda, para ser feliz e completo? É o desmentido da sua condição de ser
faltante e incompleto que obstrui a possibilidade do desejo enquanto
determinante da condição humana, razão de ser do sujeito, mola propulsora que o
mantém singular na comunidade dos humanos. Esse ser que não se indaga mais, não
tem por que lutar, não precisa desejar e não se frustra nunca, é um arremedo de
sujeito. E porque não sofre, não tem como buscar solução. Porque não conhece a falta,
não tem porque questionar o desejo. Não precisa de buscar sua individualidade
porque a massificação é suficiente.
O
homem moderno sente-se dono e senhor do mundo e desafia as leis. É assim nos
atos terroristas da Palestina ou nos ataques alegados, como vingança, de
Israel. Os atentados de 11 de setembro ou as guerras do Afeganistão ou do
Iraque, desrespeitando as leis do Conselho da ONU e os apelos de todo o mundo
contra a batalha, ou mais perto de nós, os traficantes que metralham escolas e
ruas, hotéis e até palácios de governo após avisos por telefone dos atos que
iriam perpetrar. Ou ainda, as atitudes dos corruptos que indiferentes às leis,
quando se trata de dinheiro público, manipulam-no a seu bel prazer em proveito
próprio. Ou, então, as escusas ações que visam fraudar provas ou documentos
para ingressar em faculdades, disputar vagas para empregos, e nomeações de
parentes e amigos para ocupar cargos bem remunerados do governo.
O
Brasil de hoje é o paraíso da perversão que descontrolado e sem rumo, arrasta a
nação para um caos social inimaginável. Crianças e adolescentes envolvem-se em
brigas violentas e, às vezes até, se tornam homicidas. Alunos ameaçam e matam
diretores e professores. Jovens de classe média alta queimam vivos mendigos e
índios para se divertir em tediosa noitada de fim de semana. Ao mesmo tempo, no
resto do mundo, jovens armados invadem escolas para assassinar colegas.
Metralham-se pessoas desconhecidas em supermercados e restaurantes e chega-se
ao extremo de adaptar um automóvel para permitir atirar de dentro dele, sem ser
visto, com a finalidade de matar a esmo com esconderijo garantido. É o
inconsciente sem peias e sem pudores (o que não tem governo nem nunca terá)
numa liberação geral.
A
perversão é essa terra de ninguém, espaço controverso, fronteira da psicose e
limite da estrutura neurótica. Estreita passagem que marca em cada ser humano,
seus traços na fantasia, seus rasgos na criação. A perversão é uma “père
version”, disse Lacan certa vez, versão que introduz algo novo, o fetiche que
privilegia, o olhar que configura o desmentido e que incita à transgressão.
Versão que vem de verso, do que está por trás e não é visto, mas é, como se
pudesse sê-lo, porque suposto. Que é também verso-frase-poema, criação, e como
tal, possibilidade de transgressão licença poética.
O
poeta é um eterno transgressor por ser capaz de ver aquém e além, de escandir
palavras, desmentindo-as no que têem de mais fixo, a forma. Perverter é Ver
para TER? No momento em que, a versão patriarcal não mais se sustenta, porém, a
perversão surge como via de saída, mas ao mesmo tempo, encurrala o homem em sua
própria angústia. A angústia de se saber dono e senhor absoluto do nada que
pretende alcançar e controlar, mas que lhe escapa, impreterivelmente, sem lhe
deixar a sensação de novas possibilidades.
Marli
Piva Monteiro
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















