psicologia clínica
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Falar sobre a morte com as crianças
Não existem fórmulas para falar
de assuntos complicados com as crianças. Na maior parte das vezes os nossos
medos contaminam a nossa capacidade de os abordar. Como sempre acontece, a
honestidade é o que funciona melhor quando se fala sobre a morte. E porque
não dizer que a honestidade é sempre o melhor quando se fala com as crianças
sobre qualquer assunto!
Sejam honestos convosco e com as crianças
World can be a very scary place and bad things happen….
Sejam honestos convosco e com as crianças
World can be a very scary place and bad things happen….
psicologia clínica
Não quero acordar
Como já é hábito aqui no blog,
Eliane Brum com mais uma das suas excelentes crónicas: Acordei doente mental
"Descobri que sou doente
mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido
apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de
Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de
objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma
enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos
90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo
apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que
consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está
agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à
menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A
pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até
duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza
que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos
fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite
condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um
livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade
absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite
condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste
parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não
ocupem o texto inteiro."
domingo, 9 de junho de 2013
A realidade adora humilhar a ficção
E se um dia o médico dissesse:
- Vamos parar com a medicação do seu filho, ele não está doente, o transtorno do défice de atenção com hiperactividade não existe, é uma doença inventada.
INVENTOR OF ADHD'S DEATHBED CONFESSION: "ADHD IS A FICTITIOUS DISEASE"
Fique tranquilo, isso não vai acontecer, felizmente, o seu filho contínua doente!
O seu médico pode ser considerado tão vítima quanto você, mas situa-se numa escala de responsabilidade diferente. A um médico exige-se muito mais conhecimento e capacidade de questionar um diagnóstico do que se exige a um pai. Apesar disso, existem muitos pais que consideram que os diagnósticos feitos aos seus filhos não se justificam.
Um conhecimento mais aprofundado e rigoroso do funcionamento mental das crianças e até algum senso comum, levaria os técnicos a questionar, por exemplo, o que se passa na família. Está tudo bem com os pais? Estão a divorciar-se? Os pais estão a sofrer com o desemprego? Nasceu um irmão? Morreu um avô? A criança perdeu os amigos porque mudou de escola? Etc. etc. … Imagino que tudo isto esteja a parecer óbvio. Enganem-se, isto não é relevante. O importante é: “nunca está quieto, anda sempre nas nuvens, está sempre desatento, os resultados na escola estão piores….” Qual é o interesse em saber se a criança mudou de escola? Não há nada a fazer, não podemos voltar para a escola antiga, logo a criança sofre de TDAH.
Tudo aquilo que os pais descrevem aos médicos é real, está efectivamente a passar-se com os seus filhos, não é uma invenção, somente, não é uma doença mental.
Echolilia: Sometimes I Wonder
O fotógrafo norte-americano Timonthy
Archibal através de uma série de imagens retrata com enorme sensibilidade o
autismo. “Echolilia: Sometimes I Wonder”, é o nome do ensaio onde Timonthy apresenta
o seu próprio filho em situações quotidianas.
De acordo com Archibald, a ideia para a sessão surgiu pela
necessidade de fazer algo de concreto por seu filho Eli, que completou 8 anos
recentemente. Ao contrário de muitos pais que fotografam os seus fazem
filhos sorridentes ou em situações graciosas, optou por um registo intimo
tentando captar a essência.
Aqui
Aqui
psicologia clínica
quinta-feira, 9 de maio de 2013
domingo, 5 de maio de 2013
Mãe
As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos.
Herberto Hélder
na combustão dos filhos.
Herberto Hélder
sábado, 4 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Vivemos tempos estranhos
A forma como a loucura e o
louco são vistos mudou muito. Ainda não há muito tempo eram encarcerados,
escondidos da sociedade como possuidores de uma doença altamente contagiosa,
sendo sujeitos a maus tratos difíceis de imaginar. A dignidade humana não
existia para o louco.
Esse importante avanço civilizacional permitiu
reconhecer ao louco direitos que até aí eram negados (em parte continuam a ser).
Os avanços continuam em velocidade cruzeiro e ninguém pode, com alguma certeza,
dizer até onde nos levarão.
O louco evoluiu para doente
mental e rapidamente começou a banalizar-se a loucura vulgarizando e o que ela
tem de mais presente, o sofrimento. Do rótulo incómodo passou-se ao alívio
através do rótulo. Os loucos não sofrem, dizem-nos. Os loucos não precisam sofrer,
vendem-nos. Os loucos não existem, mentem-nos.
Louco estou eu, cada vez mais
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Compulsão à repetição
Ao nível da psicopatologia
concreta, processo incoercível e de origem inconsciente, pelo qual o indivíduo
se coloca activamente em situações penosas, repetindo assim experiências
antigas sem se recordar do protótipo e tendo pelo contrário a impressão muito
viva de que se trata de algo de plenamente motivado na actualidade.
psicologia clínica
É de toda a evidência que a
psicanálise viu-se confrontada desde a origem com fenómenos de repetição. Se
encararmos nomeadamente os sintomas, por um lado alguns deles são
manifestamente repetitivos (rituais obsessivos, por exemplo), e, por outro, o
que define o sintoma em psicanálise é precisamente o facto de reproduzir, de
maneira mais ou menos disfarçada, certos elementos de um conflito passado. De
um modo geral, o recalcado procurar “retornar” ao presente, sobre a forma de
sonhos, de sintomas, do agir: “o que permaneceu incompreendido retorna; como
uma alma penada, não tem repouso até encontrar resolução e libertação”
Vocabulário da Psicanálise – J. Laplanche & J.B. Pontalis
terça-feira, 23 de abril de 2013
No colo aprendi a amar
Num
post anterior dei conta de um estudo da FPCE-UC onde se concluía que: “Brincar
10 minutos diários com os filhos em idade pré-escolar, sem direito a fazer mais
nada em simultâneo, e de forma cooperativa, contribui para reduzir os
distúrbios de comportamento, como p. ex., hiperatividade, défice de atenção,
oposição (a criança opõe-se a qualquer ordem do adulto) e desafio e
agressividade.”
psicologia clínica
Agora surge um estudo desenvolvido no Japão pelo Dr. Kumi Kuroda (Riken Brain Science Institute) com resultados, passe a ironia, absolutamente inesperados: os bebés acalmam quando
são colocados no colo.
Durante
décadas os pais foram bombardeados com dezenas de teorias estapafúrdias que ensinavam a cuidar dos filhos. Os especialistas na matéria, pediatras e psicólogos,
venderam milhares de livros “revolucionando” a forma de educar. Técnicas para
lidar com choros, birras etc., foram desenvolvidas com base em preconceitos (e
muita ciência, sempre muita ciência) e, invariavelmente, descentrando-se do
principal: “A criança”.
Resultado:
os pais perderam a espontaneidade, a sua capacidade instintiva de cuidar (que
passa de pais para filhos). Em vez de se desenvolver um vínculo seguro através do
estabelecimento de uma boa relação - objectivo primeiro -, instrumentalizou-se
a relação humana precoce. É um exagero dizer que os inúmeros diagnósticos de
hiperactividade estão relacionados com este tipo de relação, até porque muitos
desses diagnósticos estão errados, mas como a sabedoria popular nos ensina: “quem
semeia ventos colhe tempestades”.
Nunca
imaginei poder dizer que estes estudos são muito bem-vindos, nem imaginei sequer,
que fossem desenvolvidos e que tivessem esta divulgação. Mas eles aí estão,
para nos dizerem o que todos sabíamos.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Autorização para sofrer
Para
quê sofrer se posso evitar?! Nem todas as pessoas que procuram a todo o custo
não sofrer o fazem para evitar o sofrimento propriamente dito, a dor. Existem
muitas pessoas para as quais o sofrimento está interdito. Essas são as que
precisam de autorização para sofrer. Quando conseguimos fazer entender, por
exemplo, que perante a perda/luto de alguém que se gostava muito é normal estar
triste, perder o apetite ou não conseguir dormir e, estranho seria sair de um
funeral directamente para o cinema ou para uma festa com um sorriso na cara,
isso não cria nenhum tipo de estupefacção, todos compreendem facilmente que é
normal estar em sofrimento, só faltava a permissão! O conhecimento latente de que
sofrer é próprio à vida foi-se tornando cada vez mais uma realidade
desajustada. O sofrimento e as suas causas não são muito diferentes do que
sempre foram, mas a atitude, essa, parece cada vez menos humana. Os robots dos
filmes de ficção científica sonham em ser humanos, nós, em ser robots.
Psicoterapia
terça-feira, 16 de abril de 2013
Abstinência, neutralidade ou insensibilidade?
Entre
os inúmeros exemplos sobre aspectos técnicos subjacentes à prática clínica, a
escolha do primeiro parágrafo do Diário
Clínico de Sándor Ferenczi (7 de Janeiro de 1932) prende-se com o facto de
se tratar de um dos primeiros testemunhos sobre a “obrigatoriedade” de dar ao
espaço terapêutico autenticidade. Como refere Kupermann “A noção de sensibilidade, oriunda do campo da estética, é empregue por
Ferenczi no seu sentido rigoroso como a capacidade de afetar e de ser
afetado pelo outro, e não no sentido coloquial, que poderia remeter-nos às
ideias de plácida benevolência ou de compreensão ilimitada e passiva etc., que
foram apressadamente associadas a sua figura. A insensibilidade ou a hipocrisia
é, assim, a principal figura do álibi passível de ser empregue pelos analistas
para escapar das duras consequências do acto analítico.”
Voltarei
a este tema…. Sem dúvida!
Chover no molhado ou, nem por isso….
Numa
fase em que parece que tudo tem que ser estudado, tem que ser comprovado para
que as pessoas prestem alguma atenção e, quem sabe, as ponham em prática, acho
bem que saiam estas notícias. Mas também devemos colocar a questão: Isto é
realmente uma conclusão nova? Não sabíamos todos isto? Então desculpem que diga,
se não sabiam deviam saber!
psicologia clínica
“Brincar
10 minutos diários com os filhos em idade pré-escolar, sem direito a fazer mais
nada em simultâneo, e de forma cooperativa, contribui para reduzir os
distúrbios de comportamento, como p. ex., hiperatividade, défice de atenção,
oposição (a criança opõe-se a qualquer ordem do adulto) e desafio e
agressividade, comprova um estudo da Faculdade de Psicologia e Ciências da
Educação da Universidade de Coimbra.”
O
estudo foi efectuado com crianças com problemas de comportamento diagnosticados
e, segundo os resultados, com sucesso, pois verificou-se uma redução de
sintomatologias de hiperatividade, défice de atenção e oposição e desafio,
agressividade e impulsividade.
Embora
o estudo se tenha focado na intervenção em famílias de crianças com diagnóstico
clínico, a investigadora defende que o programa é também essencial para atuar
«ao nível da prevenção de futuros comportamentos desviantes. Todos os pais
deveriam ter acesso gratuito ao programa nos centros de saúde, tal como têm
acesso a vacinas, ou nos jardins-de-infância».
A
investigadora Maria Filomena Gaspar defende que o programa é também essencial
para actuar «ao nível da prevenção de futuros comportamentos desviantes”.
Desculpem colocar outra questão: Se os pais brincassem mais com os filhos,
colocassem regras e limites não se evitariam muitos diagnósticos clínicos?
Se
forem precisos estudos para nos dizer que temos que brincar com os nossos
filhos, estamos mal, estamos muito mal!
sexta-feira, 12 de abril de 2013
A Alma Humana
Ao
contrário de Amour, de Michael Haneke, que parece ter-nos roubado a capacidade
de transformar em palavras o que sentíamos pelo esmagamento da intensidade
afectiva a que somos sujeitos, Jagten (A Caça) de Thomas Vinterberg (Dogma 95),
obriga-nos a procurar palavras para verbalizar o insuportável desconforto de
nos vermos espelhados na escuridão da alma humana. Não querendo entrar em
grandes comparações, digo apenas que a Palma de Ouro ficaria MUITO melhor
entregue ao filme de Vinterberg, que teve em Mads Mikkelsen o prémio de melhor
actor.
Não me vou perder em
elogios aos brilhantes actores que contracenam com o magistral Mikkelsen.
Somente dizer que Annika
Wedderkopp (Klara-criança) com o seu olhar doce e perdido faz-nos sentir que a
sua fragilidade e desamparo só pode ser real.
Apesar
da liberdade de cada um pensar que o filme trata desta ou daquela questão
(também vou exercer a minha), o tema principal do filme, como o próprio
Vinterberg referiu numa entrevista, não é a pedofilia, como seria fácil supor.
Segundo o realizador a ideia para o filme foi-lhe apresentada por um psicólogo,
e nela estavam as fantasias de abuso sexual criadas pelas crianças. Uma década
depois, quando procurou fazer terapia, Vinterberg decidiu ligar ao mesmo
psicólogo dizendo-lhe: “Para ser educado, decidi ler aquele material e fiquei
chocado” com o elevado número de falsas acusações de pedofilia.
Para
os que estão familiarizados com a Psicanálise o tema das fantasias de abuso
sexual não são novas. Freud, nos seus trabalhos iniciais, desenvolveu a “Teoria
da Sedução” onde, com base nas descrições dos seus pacientes e da sua
auto-análise terá considerado que as crianças teriam sido sujeitas a seduções
de cariz sexual por parte dos adultos, principalmente familiares. Perante
alguns factos Freud viu-se forçado a abandonar as suas formulações acerca da
cena de sedução e a substituir a crença na realidade desta cena pela suposição
de que a sedução seria uma construção, em termos de fantasia, do próprio
sujeito. Assim, a cena de sedução não possui correspondência na realidade
externa – apesar de recorrer a alguns indícios dessa realidade – mas, trata-se
de uma construção, uma “realidade psíquica”. Em 1897 numa carta a Fliess, Freud
expressou a sua insatisfação com a teoria da sedução, afirmando ter deixado de
acreditar na “neurótica”. (Para os interessados no tema, é importante referir
que há nesta questão muitas nuances, que permitem várias leituras sobre o
abandono da teoria de sedução).
Agora
o filme
A
Caça é um filme absolutamente claustrofóbico onde o espaço e o tempo (bomba
relógio) se encolhem de forma pautada até ao intolerável. Como num terrível
pesadelo, queremos gritar mas da nossa boca não sai nenhum som, ninguém nos
pode ouvir, ou melhor, ninguém nos quer ouvir. Queremos fugir mas não podemos.
Estamos destinados, como Lucas, a viver sem esbracejar. Estamos a ver tudo,
sabemos tudo, e sofremos porque nós somos Lucas. Presos num magnetismo
inexplicável assistimos colados na cadeira, com suores frios à mistura, a um
filme pungente, devastador.
Este
é um filme sobre o ser humano, um objecto de estudo, onde da pureza, da
inocência e do horror na infância se passa para tormentos da adolescência e se
termina numa despedaçada vida adulta. Todos estes tempos se cruzam e são
interpretados por personagens diferentes. Vinterberg põe a nu a agressividade existente
em todos nós e a forma fácil dela se fazer presente. Espicaçado na capacidade
destruidora, o grupo (caçadores) encontra na presa (caça - Lucas) a satisfação
do instinto destrutivo. Dirigido com uma crueza arrepiante, Vinterberg, põe a
nu os aspectos sombrios da alma humana, seja criança, adolescente ou adulto.
Sendo, neste caso, uma criança (as crianças gozam de um olhar particularmente
distorcido por parte dos adultos), o sentimento é ainda mais aterrador.
Este filme deveria passar em todas as faculdades de Psicologia. Não faria mal nenhum a magistrados, e a todas a áreas do saber ligadas a esta problemática.
Mais
que imperdível, indispensável
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Benefício primário e secundário da doença
Benefício da doença designa de um modo geral qualquer satisfação directa ou indirecta que um individuo retira da sua doença.
O benefício primário é o que entra em consideração na própria motivação de uma neurose: satisfação encontrada no sintoma, fuga para a doença, modificação vantajosa das relações com o meio.
O benefício secundário poderia distinguir-se do precedente do seguinte modo:
– pela sua aparição posterior, como vantagem suplementar ou utilização pelo indivíduo de uma doença já constituída;
– pelo seu carácter extrínseco em relação ao determinismo inicial da doença e ao sentido dos sintomas;
– pelo faco de se tratar de satisfações narcísicas ou ligadas à auto-conservação, em vez de satisfações directamente libidinais.
O “benefício primário” está ligado ao próprio determinismo dos sintomas.
Podemos distinguir duas partes:
– A “parte interna do benefício primário” consiste na redução de tensão proporcionada pelo sintoma; este, por doloroso que seja, tem por fim evitar ao indivíduo conflitos às vezes mais penosos: é o chamado mecanismo de “fuga para a doença”.
– A “parte externa do benefício primário” estaria ligada às modificações introduzidas pelo sintoma nas relações interpessoais do indivíduo.
Assim, uma mulher oprimida pelo marido pode obter, graças à neurose, mais ternura e atenção, vingando-se ao mesmo tempo dos maus tratos sofridos. Mas se Freud designa este último aspecto de benefício pelos termos “externo ou acidental”, é exactamente porque a fronteira que o separa do benefício secundário é difícil de traçar.
Para descrever este, Freud refere-se ao caso da neurose traumática, e mesmo ao de uma invalidez física resultante de um acidente. O benefício secundário materializa-se aqui pela pensão paga ao inválido, poderoso motivo que se opõe a uma readaptação: “ Ao contrário da sua enfermidade, começaríamos por lhe retirar os seus meios de subsistência, uma vez que, ele não seria capaz de retomar o seu antigo trabalho”.
Vocabulário da Psicanálise – J. Laplanche & J.B. Pontalis
terça-feira, 9 de abril de 2013
Os textos que eu não escrevi
Você tem cabeça aberta?
Você tem cabeça aberta? Acusar
alguém de ter cabeça fechada hoje em dia é uma ofensa pior do que xingar a mãe.
Hoje todos querem ter cabeça aberta. Um tema top para cabeças
abertas é preconceito x práticas sexuais, e um lugar certo para deixar claro
que você tem cabeça aberta é jantares inteligentes. Se você quer fazer sucesso
num jantar desses, chame todo mundo que discorda de você de
"ridícula".
Nesses jantares, as pessoas têm as opiniões certas sobre tudo; por
exemplo, ninguém tem preconceito contra nada. Acho muito fofo gente que não tem
nenhum preconceito contra nada.
No tema "práticas sexuais", o que percebemos, se formos
um pouquinho além do senso comum, é que o "normal x patológico" ou
"moral x imoral" é bastante relativo no tempo e no espaço. Isso
significa que o que se acha imoral hoje amanhã pode não ser, e vice-versa. O
mesmo para o que se acha patológico.
Quem busca um critério absoluto, sem variação histórica ou
geográfica (a tal variação no tempo e no espaço de que falei acima), hoje em
dia, se vê em maus lençóis. Além, claro, de dar atestado de ter preconceitos
numa época em que ter preconceitos é pior do que matar a mãe.
Aliás, se não disse ainda, digo: acho fofo gente que não tem
preconceito contra nada.
Um modo de se posicionar acerca dessa fronteira entre sexo normal
x patológico ou moral x imoral é defender a ideia de que entre dois adultos
tudo é permitido, se a prática for fruto de livre escolha (eis uma versão para
mortais da tal autonomia kantiana).
Esse argumento até é válido, já que não sabemos mais nada sobre
coisa nenhuma em moral (só mentirosos dizem que têm "princípios
éticos"). Mas ele é problemático, já na definição de "adulto",
porque ela também é relativa no tempo e no espaço. Um cara de 40 ficar com uma
mina de 14 nem sempre foi visto como crime contra a infância.
Outra coisa problemática é a própria ideia de "livre
escolha". Por exemplo, se você gosta de apanhar, talvez só goste mesmo
quando seu parceiro ou parceira vai além do que você "permite", senão
você não goza de verdade. Mas devo confessar que há algo de pueril em achar que
"livre escolha" resolva o problema. Acreditar na ideia de
"autonomia kantiana" (a tal da "livre escolha"), às vezes,
também, é superfofo.
Vamos, porém, deixar de barato esses pequeníssimos detalhes e
vamos a algo mais "significativo".
Faço uma proposta para seu próximo jantar inteligente. Claro, se
você for um pobre engenheiro, nem pense em querer ir, a menos que sua mulher
seja psicóloga --aí os donos da casa inteligente podem aceitá-lo. Se você for
um cara e sua "mulher psi" for um cara também, aí a entrada é
garantida.
Vamos testar as cabecinhas abertas? Atenção, respire fundo: você
já viu o vídeo "2 girls 1 cup"? Mas, antes de descrevê-lo (não em
detalhes, porque seria demais para uma segunda-feira), vou dizer uma coisa.
Acho que, se você é o tipo de pessoa que quer provar que tem
cabeça aberta, você deve discutir apenas o que lhe parece absurdo (ou
"nojento", na linguagem de gente que tem preconceito). Mas não é isso
o que acontece normalmente.
A moçadinha que tem cabeça aberta só gosta de discutir coisa que
não põe em risco sua imagem de gente bacana. Falar mal de machista, racista,
sexista, católico e evangélico é coisa de iniciante no ramo de discussões de
verdade.
E o vídeo? Neste, duas mulheres começam com sexo lésbico normal e
acabam fazendo sexo a três: elas duas + as fezes de uma delas (se é apenas
efeito especial, pouco importa). Isso é chamado no mundo careta de
"coprofilia". Quem gosta de xixi é urofílico.
Então: gente que gosta disso é doente, imoral, ou apenas gente de
cabeça aberta explorando seus limites do gozo? Lembre: o que hoje é doença ou
imoralidade amanhã pode não ser.
Na verdade, imagino que em breve esses caras terão suas ONGs e
defenderão também "safe sex". Como fazê-lo? Ensinando nas escolas a
identificar fezes infectadas pela aparência e cheiro?
O que a gente fofa diria disso? Ainda sem preconceito? Perdeu o
apetite? As ciências sexuais têm muito o que aprender.
Luiz
Filipe Pondé – Folha de S. Paulo
segunda-feira, 8 de abril de 2013
quinta-feira, 4 de abril de 2013
O que está a mudar?!
Como terapeuta sou procurado por pessoas que se encontram num
sofrimento agudo, mas também sou contactado por muitas que não estão satisfeitas
com a forma como vivem. Pessoas que aparentando ter condições para ter uma vida
mais preenchida não conseguem usufruir das relações afectivas, do estatuto profissional
conquistado ou da situação financeira desafogada. Essas pessoas procuram na
terapia ajuda para compreender o seu mal-estar, o que está “errado” com elas.
Outros procuram na terapia uma forma rápida de livrar-se do
mal-estar. Numa versão fast therapy, não
há nada para interrogar nem nada para compreender. Desejam apenas libertar-se
com a maior rapidez e de preferência, sem esforço, daquilo que as faz sofrer.
Bastam cinco minutos para enumerarmos várias contrariedades,
receios e angústias que ultrapassámos. Coisas que precisaram de tempo. Coisas que
fazem da vida, aquilo que ela é, e, de nós, aquilo que somos.
O meu pai guardava com algum zelo uma bola de futebol que
trazia da sua adolescência, até que um dia, muito menos zeloso, entre chutos e
cabeçadas, cheguei a casa sem ela. Não me disse grande coisa, mas a tristeza
nos olhos dele perdurou em mim uma eternidade. A culpa desmesurada que sentia
ultrapassava a dimensão que uma criança deve sentir numa situação daquelas. As
crianças perdem muitas coisas porque o seu pensamento não se foca facilmente
numa única actividade. Provavelmente, a culpa não vinha só da perda da bola,
mas era a parte mais visível.
Quando pensamos a culpa ela dá lugar à tristeza, e essa, mais
facilmente ultrapassada. Em vez de objectos cheios de arestas pontiagudas a
habitarem o nosso interior é preferível objectos arredondados e macios, mas
também consistentes, a moldar o nosso Eu. Quando deixamos de nos interrogar
estamos a paralisar o processo contínuo de transformações, a perder a
oportunidade de retocar aspectos da nossa ininterrupta construção.
A ideia da solução rápida e fácil que tomou conta do nosso
tempo só consegue ser superada por uma ainda pior: “tudo tem solução”. Não, não
é verdade, há coisas que não têm solução. Aquela bola não volta mais, mas poder
olhar para o meu pai sem me sentir culpado, poder jogar com ele com outra bola,
que não substitui a antiga, mas que está investida do mesmo afecto, mostra que
é desnecessário procurar alterar a realidade mas é fundamental deixar que a
realidade nos mude na nossa subjectividadade.
terça-feira, 26 de março de 2013
domingo, 24 de março de 2013
Circuito fechado - Tu não compreendes e eu não consigo explicar
- Tu não compreendes e eu não
consigo explicar. Neste circuito fechado, não há saída possível. No entanto,
deve dizer-se, que este percurso não nasceu assim, ele foi-se fechando à medida
que a compreensão foi diminuindo. É exactamente a compreensão, a tradução do
sentimento do outro, que permite um aumento da capacidade de explicar e de
compreender aquilo que se sente. Um pai ao dar um nome (traduzir) a um
sentimento de um filho aumenta-lhe o vocabulário afectivo, permitindo dessa forma
que ele possa comunicar – ter uma relação -. Quando isso não
acontece, cria-se lentamente um circuito fechado, entupido de sentimentos à
procura de um nome. A energia, então despendida para alcançar o outro, é agora
usada na protecção dos conteúdos/sentimentos sem nome que precisam ser mantidos
a uma certa distância para não contaminarem todo o aparelho psíquico. A solidificação resultante do descrédito pelo semelhante
(pai, mãe, terapeuta, ...), acrescida pelo passar do
tempo, faz com que um enorme muro seja erguido e só a muito custo demolido. Na maioria dos casos, não estamos a
falar de dar uma segunda ou terceira oportunidade ao outro, mas de tentativas sucessivas,
e por vezes desesperadas, de ser compreendido que falharam. É preciso aceitar
a legitimidade da desesperança, da frustração e principalmente da raiva daquele
que se sente incompreendido. A partir daí abre-se uma nova oportunidade (talvez a última) para encontrar a compreensão junto do outro. Trabalho árduo,
meticuloso e de enorme responsabilidade. Dessa responsabilidade, devem estar
bem cientes, os terapeutas que com dedicação se entregam a tão nobre papel.
Psicoterapia
Contra a corrente
“Neste caminhar tumultuoso para
a massificação e uniformidade dos seres e do estilo de vida, em que o fenómeno
religioso cimenta a unidade pela obediência ao dogma ou verdade absoluta – que é
um contra-senso filosófico e científico, lógico e experimental – levantar o véu
do disfarce e da pseudo-adaptação, com sinceridade, sem medo, e com o interesse
único de investigar o que está por trás das máscara do aparente, como o faz o
psicanalista (e todo o autêntico homem de ciência), é uma ousadia que custa
cara pelo abalo que necessariamente provoca no sistema fechado da ideologia
envolvente, a qual – como em todos os momentos históricos de crise – tende a
organizar-se em código supremo de “harmonia entre os homens” e da “felicidade
na Terra” – utopia de sempre, ópio de todas as sociedades.”
terça-feira, 19 de março de 2013
“Crónico” quer dizer para a vida toda?
O artigo Why ADHD is Not Just a Problem for Kids,
publicado na revista Time começa com
uma frase bastante enigmática, que ainda não consegui descodificar “The effects
of attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD) can extend well beyond
childhood, according to the latest research”.
Os
efeitos? Poderia ficar aqui às voltas com os “efeitos” o resto do dia, mas
provavelmente a jornalista não estava muito ciente do que estava a escrever,
na verdade, até é desculpável, uma vez que as citações de um dos autores do
estudo são bastante ambíguas para não dizer, tendencialmente erróneas.
Num estudo realizado por
pesquisadores do Hospital infantil de Boston e da Mayo Clinic, concluiu-se que
29,3% das crianças às quais foi diagnosticado distúrbio da hiperactividade com
défice de atenção (TDAH), ainda o apresenta em adulto, juntamente com o aumento
da taxa de outros problemas psiquiátricos.
Só 29,3%? Tendo em conta que o
intervalo considerado anteriormente ia dos 6% aos 66%, o valor até não é muito mau.
W. Barbaresi, um dos autores do
estudo, refere com aparente pesar que se banalizou a questão e que temos que
reconhecer que a TDAH é uma doença crónica. E assim, num abrir e fechar de
olhos, condenou milhares de crianças para o resto da vida ao simpático rótulo
de “doentes mentais”.
Barbaresi, com a sua autoridade
científica refere: “temos que parar de banalizar a TDAH como sendo apenas um
problema de comportamento na infância”. Mas então, é um problema de
comportamento ou uma doença? Se é apenas um problema de comportamento porque se
estão a drogar crianças como se fosse uma punição? - Se não te portas bem
ponho-te a tomar Ritalina!
O Sr. Barbaresi sabe muito bem
que não há qualquer tipo de banalização, muito pelo contrário, a cada esquina
está uma criança com TDAH. Milhões no mundo inteiro. A banalização está
exactamente na forma como se atribui um diagnóstico que condena uma criança
para a vida toda.
O que realmente preocupa muito
o Sr. Barbaresi - a tal banalização - é o receio que os pais, quando os filhos crescerem,
decidam deixar de os medicar, ou eles, por iniciativa própria, deixem a
medicação. Mas pode dormir descansado, a malha é tão apertada que só alguns
conseguiram escapar.
Como provam os dados, dos adultos
que tinham TDAH 81% apresentava pelo menos mais um transtorno psiquiátrico
adicional. Dos que não apresentavam sinais da doença, 47% tinha pelo menos mais
um diagnóstico psiquiátrico.
Para terminar o Sr. Barbaresi
escancara as portas do inferno: “Temos que parar de banalizar o TDAH como sendo
apenas um problema comportamento da infância. A natureza e duração deste
estudo mostram que temos de reconhecê-lo como um problema de saúde crónico
grave que merece muito mais atenção do que tem recebido (…) o legado e as
implicações a longo prazo de um diagnóstico de TDAH não foram realmente
consideradas e estudadas de forma adequada, uma vez que a maioria dos médicos
tendem a pensar a condição como afectando principalmente crianças, que
tendem a superar uma vez que atingem a idade adulta.”
O que nos deve preocupar muito
são os Srs. Barbaresis, que de ânimo leve e com uma preocupação perversa, distorcem
a ordem das coisas. O que o Sr. Barbaresi não conclui, nem nunca irá concluir,
mas que os resultados comprovam é que quando a criança cai nas malhas da TDAH
arrisca-se com alta probabilidade a ser um doente mental crónico.
Desculpem o sublinhado: “crónicos”
quer dizer, para a vida toda. TODA.
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psicologia clínica
sábado, 16 de março de 2013
O Alienista
Neste brilhante conto de
Machado de Assis, publicado em 1882, o conceituado médico Simão Bacamarte
resolve dedicar-se à psiquiatria dando início a um estudo sobre a loucura na Vila
de Itaguaí. Simão Bacamarte, em nome da ciência, dedica-se a classificar os
moradores da vila através da observação cuidada dos seus comportamentos, medindo
a loucura nas suas variações e graus. À medida que ia diagnosticando os
residentes de Itaguaí, Bacamarte resolvia interná-los na Casa Verde, fundada,
exactamente, com esse fim. Imbuído pelos rigores da ciência acaba por internar
a maioria dos habitantes da vila, inclusive, sua mulher, D. Evarista. Quando
Simão Bacamarte constata que o único sadio era ele, é atormentado por uma
questão ética, e como era o que se desviava do padrão, decide libertar
todos o loucos e internar-se na Casa Verde, onde passados dezassete meses,
morre solitário.
psicologia clínica
Infelizmente, aqueles (American Psychiatric Association) que se encontram com
a divertida tarefa de criar classificações, não têm – nem podiam ter, porque
são demasiados perturbados para olhar para si mesmos – o sentido ético de Simão
Bacamarte, para procurar internamento. Tal como Bacamarte, imbuídos por um
distorcido rigor científico, continuam a classificar os comportamentos humanos,
com a lupa da moralidade, do desrespeito pela singularidade do ser humano e,
como é óbvio, a servir, sem nenhum pudor, a indústria farmacêutica.
O Alienista, publicado há mais de 120 anos tem um
inquestionável carácter profético. Não deixa de ser curioso que é exactamente
na era das “liberdades individuais” que se assiste a um ataque a tudo o que sai
fora de uma certa normalidade (cada vez mais apertada), ao sujectivo, e dessa
forma, impedindo que se revele e se manifeste a alteridade.
quinta-feira, 7 de março de 2013
E se parasse de fazer perguntas parvas!?
Se a
psiquiatria clássica, de forma geral, esteve às voltas com fenômenos psíquicos
não codificáveis em termos do funcionamento orgânico, guardando espaço à
dimensão enigmática da subjetividade, a psiquiatria contemporânea promove uma
naturalização do fenômeno humano e uma subordinação do sujeito à bioquímica
cerebral, somente regulável por uso de remédios. Há aí uma inversão não pouco
assustadora, pois na lógica atual de construção diagnóstica, o remédio
participa da nomeação do transtorno. Visto que não há mais uma etiologia
(estudo das causas da doença) e uma historicidade a serem consideradas, pois a
verdade do sintoma/transtorno está no funcionamento bioquímico, e os efeitos da
medicação dão validade a um ou outro diagnóstico.
Renata Guarido
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terça-feira, 5 de março de 2013
Não basta querer, ver e saber
O amor e o ódio, a relação ou a
sua ruptura não dependem apenas do querer, do ver e do saber e não são mera consequência
linear da transição existencial, do acidente ou do trauma, nem o simples
resultado do desenrolar do programa genético ou da expressão e reacção do
corpo.
São também, e essencialmente,
produto do conflito interior: dos movimentos do desejo egoísta e omnipotente e
da pulsão bruta em busca do prazer cerceados pelo medo, a culpa e a vergonha
que a percepção subjectiva da realidade social fabricam. O aparelho psíquico é
um laboratório de elaboração da experiência, previsão dos acontecimentos e
construção do projecto que funciona a maior parte do tempo abaixo do limiar de
consciência, e cujo funcionamento os sonhos, o devaneio, a associação livre, os
actos falhados e outras emergências do inconsciente nos informam.
Luz e trevas, razão e afecto,
realidade e fantasia enquadram, movem e orientam a pessoa em situação. E se o pensamento
lógico e operante (…) permite adaptação ao real, é o livre fantasiar que,
abafando por momentos o ruído do saber acumulado, gera, no silêncio feito, novo
conhecimento.
A. Coimbra de Matos
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