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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Modernices

Não tenho em boa conta os Experts em crianças. Eles que me desculpem, não se trata de nada pessoal, mas os estragos que têm produzido são consideráveis e proporcionais às “teorias” que desenvolvem. A forma como surgem, se disseminam e se fixam certas crenças culturais de como cuidar das crianças, quase sem questionamento, também é uma questão interessante.

A parentalidade é uma das tarefas mais difíceis e intensas que é colocada ao ser humano, não só pelas exigências, principalmente, emocionais, mas também porque remexe com as nossas próprias experiências de termos sido cuidados pelos nossos pais.

Entre as formas de lidar com medos, inseguranças e até algum desespero, inerentes à parentalidade, está o aferrar a certas crenças colhidas aqui e acolá. Naturalmente, os pais fazem aquilo que consideram ser melhor para os filhos, e fazem-no na convicção de que está “correcto”. Gostam dos filhos e procuram dar-lhes o melhor que podem e sabem.

O instinto natural de cuidar quando bloqueado pelas dúvidas abre espaço para a crença e não faltará quem, com a maior das generosidades, venha dizer como se faz. Então, a mãe, a verdadeira especialista, deixa uma via aberta para a crença e a expertise de que alguns se fazem donos.

Como refere Darcia Narvaez, em “Modern parenting may hinder braindevelopment, research shows”, certas práticas tornaram-se comuns na nossa cultura. Entre as mais habituais estão o fechar as crianças nos quartos e o retardar a resposta a um bebé agitado, inquieto que reclama por cuidados, para que não fique estragado com mimos.

A amamentação, a resposta pronta ao choro, o contacto corporal constante são, segundo Narvaez, práticas parentais ancestrais que, como se conclui das investigações, contribuem para o desenvolvimento cerebral, para a formação da personalidade e a saúde em geral, mas que fruto de “práticas modernas” foram esquecidas, caíram em desuso e como corolário disso surgiu uma epidemia de doenças mentais nas crianças: distúrbio hiperactivo com défice de atenção, depressão, ansiedade, etc.

As crianças são diferentes umas das outras, e o que funciona para uma pode não ser o melhor para outra. O “segredo” está na capacidade de a cada momento procurar compreender o que a criança nos quer dizer com um choro, com uma birra ou com ataque de fúria. Pais e filhos criam o seu próprio dialeto e é nessa aprendizagem sem dicionário que se inscreve, com rasuras e erros de interpretação, o texto, que lido e relido e tantas vezes reescrito, que vulgarmente chamamos vida.



psicologia clínica

domingo, 9 de junho de 2013

Echolilia: Sometimes I Wonder



O fotógrafo norte-americano Timonthy Archibal através de uma série de imagens retrata com enorme sensibilidade o autismo. “Echolilia: Sometimes I Wonder”, é o nome do ensaio onde Timonthy apresenta o seu próprio filho em situações quotidianas.

De acordo com Archibald, a ideia para a sessão surgiu pela necessidade de fazer algo de concreto por seu filho Eli, que completou 8 anos recentemente. Ao contrário de muitos pais que fotografam os seus fazem filhos sorridentes ou em situações graciosas, optou por um registo intimo tentando captar a essência.

Aqui





psicologia clínica

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Implodir ou explodir?


Implodir ou explodir? A resposta não é fácil e, normalmente, a decisão está dependente dos (supostos) efeitos colaterais da explosão, ou seja, como recuperar dos danos resultantes – reais ou imaginados.
Embora provoque grandes estragos, a implosão (explosão interna) tem a “vantagem” de ser controlada pelo próprio.
Já na explosão (externa), o maior receio é a imprevisibilidade quanto aos (supostos) estragos. Temem-se os efeitos no outro e o reflexo no próprio.
É complicado abordar esta questão sem sabermos o que está por trás, mas tomemos o exemplo:
Imaginemos que a Filipa diminui e amesquinha constantemente a Inês através de observações desagradáveis, comentários depreciativos e a responsabiliza por tudo o que corre mal. Um dos efeitos nefastos da Inês não reagir traduz-se no desenvolvimento de sentimentos de desvalorização e de inculpação – absorção da maldade do outro transformando-a sua-; algo que se pode enraizar profundamente no Eu a ponto de se constituir como parte integrante deste.
Neste caso seria de supor que a “explosão” seria a resposta adequada, mas há um senão. O que representa a Filipa para a Inês? Se pensarmos que se trata de uma figura afectivamente muito importante é natural que o vontade da Inês reagir possa ser bloqueada devido ao receio (normalmente fantasiado) de vir a perder a relação com a Filipa. Quando o receio é muito grande dá-se a implosão.
Uma das conclusões que se podem tirar é que certas dinâmicas relacionais implicam custos muito altos.
As coisas não são tão simples como tentei demonstrar, são, até, muito mais complexas. Cada caso é um caso, mas implodir não é a solução, mas antes, uma forma de perpetuar certos padrões relacionais.


Psicoterapia

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Liberdade de escolha


O governo Sueco (provavelmente, com a melhor das intenções) ávido de resultados e impelido por questões financeiras decidiu que iria apoiar um modelo de psicoterapia em detrimento de todos os outros. Quando chegou altura de analisar os resultados, os responsáveis suecos concluíram que se tinham equivocado, não só os resultados não foram os esperados como superaram as piores expectativas. Apostou tudo no vermelho e saiu preto. Acontece.

Como já é hábito, as pessoas que não tiveram oportunidade de escolha, que se sujeitaram a algo que não era bom para elas e que, acredito, perderam muito com isso, não são consideradas. Adiante.

Independentemente das qualidades subjacentes a cada modelo psicoterapêutico, aqui estamos a falar de liberdade de escolha. As pessoas não são todas iguais, felizmente são até bastantes diferentes, por isso devem ser elas que, informadas, devem escolher aquilo que julgam ser melhor e caso concluam que não é o indicado, devem poder mudar livremente.

Esta tendência de uniformização e catalogação das pessoas em patologias (o deprimido, o psicótico, o hiperactivo) e por conseguinte, abordagens terapêuticas especificas para certos diagnósticos, não se mostra eficiente. Mas Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha, e continua-se a insistir. Todos os deprimidos do mundo são iguais, todas as depressões são iguais, todos os terapeutas são iguais. Há coisas que nem parecem difíceis de entender.




Psicoterapia

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ó tempo volta pra trás. Já!




“Foi-se o tempo em que … bastava “apenas um olhar do pai” para que as crianças se reposicionassem no seu lugar de filho.“Nesse outro tempo” tínhamos a impressão que tudo tinha o seu “lugar”.

Nessa época não se ouvia falar em hieractividade. As crianças eram definidas como seres mal-educados que precisavam de uma educação rígida e rigorosa para se tronarem adultos civilizados.

…a religião e a tradição asseguravam o lugar do pai na família. … a autoridade do pai era sustentada não apenas pela mãe dentro de casa, mas, na esfera pública e politica, através da religião e dos costumes. Nesse mesmo lastro residia a autoridade do professor e dos adultos em geral.

Esse cenário começou a mudar a partir de um longo processo de transformações históricas e sociais que solapou a tradição e a religião enquanto organizadores da família e da sociedade.

A valorização da criança produzida pelo capitalismo, em que a mesma passou a sustentar a promessa de fabricação do adulto de futuro, produziu não apenas a valorização da mulher como mãe, mas, instituiu uma preocupação do estado em limitar e regular cada vez mais os poderes do pai, visando proteger a mulher e os filhos da sua arbitrariedade.

O filho tornou-se propriedade privada da mulher-mãe. Ao pai, restou um colchão ao lado da cama do casal, agora ocupado pela mãe e pelo filho. Quando ele intervém, é logo interpelado pela sua mulher com um “cala a boca, você não sabe nada”. O homem-pai viu-se reduzido a uma criança que não sabe nada, nem sobre a vida doméstica nem sobre os filhos. Ela briga com ele como briga com uma criança: “não faça isso! Faça aquilo. Você não sabe de nada!” Diante dessa mãe omnipotente, o homem viu-se reduzido a uma criança impotente.

Pois bem, se na família patriarcal a autoridade era atribuída ao pai, na família moderna a mãe passou a ocupar esse lugar.

 Diante da crise de referências instituída a partir da queda da tradição, o pai, não sabendo qual seu lugar, viu-se reduzido a uma condição infantil, ora toma a mãe como modelo de relação com os filhos, funcionando como uma “segunda mãe”, ora se identifica com a criança, demandando à mãe mais cuidados do que deveria.

Como consequência dessa crise de referências, temos encontrado um cenário muito assustador: crianças que dormem com os pais, ainda usam fraldas apesar da idade, têm dentes mas ainda tomam mamadeira. São grandes em peso e altura, mas vivem no colo dos pais.

As crianças não conhecem a frustração. Privadas da intervenção educativa, pouco a pouco vão-se tornando pequenos monstros assustadores e demandantes: querem “tudo” e ao mesmo tempo “nada”. As crianças tornaram-se pequenos tiranos e os pais escravos da tirania dos filhos.

Quando essas crianças chegam à escola … não conseguem concentrar-se e não aprendem.

Ao não reconhecer a desorganização da criança como proveniente da sua própria renúncia, os pais recorrem a um “outro-especialista” buscando uma resposta sobre o que se passa com o seu filho. Este por sua vez, capturado numa formação organicista pautada no modelo biomédico – modelo que reduz todo e qualquer problemática humana a um defeito no funcionamento biológico – vê-se obrigado a diagnosticar a má educação da criança como hiperactividade.

Impotentes face à demanda dos pais e das escolas, os médicos medicam. Aliás, o que poderiam fazer além de medicar? … Talvez os médicos pudessem dizer: ”Seu filho precisa limites!!!”. Mas certamente seriam considerados maus médicos. Pois, ao denunciar a necessidade de limites, denunciariam as renúncias educativas dos pais!

Não sabendo o que fazer com os pequenos tiranos, solicitam à ciência e à medicina algum limite, mesmo que seja químico!

Como sabemos, um adulto precisa aprender a viver e a ter horários para dormir, assim como o adolescente precisa aprender modos de relacionamento com o outro para transar. Por isso fica a pergunta: Será que uma criança poderia prescindir dos adultos para se tornar civilizada? Ou de facto acreditam que uma dose diária da “droga” seria suficiente para educá-la? Depois não me venham com campanhas “Crack nem pensar!!!”


Transcrição parcial (adaptada) do artigo: A fabricação da loucura na infância, Michele Kamers




psicologia clínica

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Stand-up Psychology


Um pouco por todo o lado proliferam “terapias” que vão ao encontro das necessidades dos dias de hoje: soluções rápidas - fast -, de preferência imediatas. Soluções milagrosas, heregemente apoiadas por uma pseudociência, que se resume a estatísticas, cujo método se equipara aos estudos de mercado. Não é nada de novo, inovador, trata-se de velhas fórmulas adaptadas aos nossos dias; fruta em garrafinhas em vez de uma peça de fruta para descascar ou comer com casca.

Em substituição de fórmulas ultrapassadas aparece em forma de Stand-up Psychology (direccionada para as massas), acompanhada de bestsellers com títulos a condizer – Lições de sedução; Não quero crescer; Benvinda dor; Histórias de divã e encontros (O lado B do amor) – um ramo da já conhecida Psicologia Positiva.

E resulta? Se resulta!!!

A felicidade, a sempre desejada, seja através de iogurtes ou cremes faciais continua a vender como se não houvesse amanhã. Mas a forma mais tentadora de ser apresentada é: Faça você mesmoestá nas suas mãos -. Só mesmo os muito preguiçosos desperdiçarão a oportunidade de mudarem a vida com as suas próprias mãos e retirarem os louros desse passo grandioso.

Nada se consegue sem trabalho, por isso também deve ser dado mérito aos empreendedores da Stand-up Psychology. 1º - Humanos como todos os outros falam dos seus problemas, que são iguais aos de toda a gente. 2º - Como os resolvem ou resolveram. 3º Vejam como nós, simples humanos como vocês, estamos de bem com a vida.

Os méritos não terminam aqui. O mérito principal – a razão do sucesso - é o de apresentar uma resposta, uma direcção. Certa ou errada, parece que tanto faz. As pessoas precisam de respostas. Não as encontram sozinhas e esperam que as ajudem a encontrar. Isto deve levar os psicólogos a reflectir.

Roma e Pavia não se fizeram num dia.

É preciso ter em conta, que muitas vezes não há resposta imediata, e, tão importante como não ter resposta é considerar porque não se consegue encontrá-la. Todos deveríamos ser capazes de ter solução para tudo? Não, infelizmente ou felizmente, não há solução para tudo. Mas se a falta de resposta significa ficar paralisado então é preciso ajudar a desbloquear.

Numa altura em que os relacionamentos têm um carácter faceboquiano, vulgo, superficial, muitas das possibilidades de resposta perderam-se algures. A procura afectiva da resposta é sempre a melhor e sem dúvida a que obtém melhores resultados. É no entrelaçado afectivo que se gera a confiança interna, indutora e catalisadora do pensamento criativo perante as dificuldades.

Mas não será tudo isso demasiado superficial? Sim, mas não é obrigatório que todas as pessoas estejam interessadas em grandes aprofundamentos. A escolha deve ser livre mas informada. O facto de ser superficial não significa que não seja suficiente para alguns. Perante uma casa que necessita ser recuperada há pelo menos duas possibilidades. Uma reabilitação profunda (reconstrução) ou uns retoques superficiais na pintura. É uma opção que vai depender de dinheiro, tempo e disponibilidade mental. Quem optar pelos retoques não pode esperar o mesmo que aquele que se decidiu pela reconstrução; as pinturas não duram muito tempo mas deixam as casas mais bonitas e em alguns casos habitáveis, e isso não é de somenos importância.

Jamais deve confundir-se uma mudança superficial com uma aparente mudança. E nestes casos parece tratar-se de algo simplesmente aparente. Temas como: porque as mulheres têm o passatempo uterino de arranjar homens idiotas, podem ser divertidos e provocar grandes gargalhadas mas jamais levará alguém a compreender as suas escolhas afectivas.

 As pessoas estão cheias de “nadas”, proposta ilusória do tudo. Tudo é possível. Não. Não é tudo possível, alcançável e concretizável. É preciso dizê-lo.




Psicoterapia

terça-feira, 10 de julho de 2012

365 razões para ficar apreensivo



O DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, surgiu nos Estados Unidos em 1952 (DSM-I) pelas mãos da APA- American Psychiatric Association e resultou da necessidade de criar um sistema de classificação que unificasse os 5 sistemas de classificação existentes.

O propósito do DSM-I era criar uma nomenclatura comum, baseada num consenso do conhecimento contemporâneo sobre os transtornos psiquiátricos. Baseado em listas de sintomas o DSM-I incluía 3 categorias de psicopatologia: síndromes cerebrais orgânicos, distúrbios funcionais e deficiência mental. Essas categorias continham 106 diagnósticos. Apenas o diagnóstico de reacção de ajustamento na infância/adolescência podia ser aplicada a crianças.

O DSM-II foi publicado em 1968 e continha 185 diagnósticos que se distribuíam por 11 grandes categorias de diagnóstico. Uma maior atenção foi dada aos problemas da criança e da adolescência com a adição dos transtornos do comportamento da infância e da adolescência.

As publicações do DSM-I e do DSM-II foram amplamente criticadas por falta de validade e confiabilidade. As descrições dos diagnósticos não eram detalhadas, deixando muito espaço para o erro. Além disso, as descrições foram feitas por um pequeno número de académicos, em vez de se apoiarem em estudos empíricos. Muitos psiquiatras criticaram o modelo implícito médico, afirmando que era inadequado, porque a causa da maioria das doenças era desconhecida. Um dos maiores críticos foi Thomas Szasz, que se tornou o líder da anti-psiquiatria. No seu livro “O Mito da Doença Mental” (1961) afirmou que os transtornos mentais são na realidade "problemas da vida" e acusava os psiquiatras de serem "polícias da moral".

Em 1980 surge o DSM-III com critérios explícitos para 15 categorias e 265 diagnósticos, ou seja, mais 80 do que a sua antecessora DSM-II. Passou de 92 páginas para 482. A DSM-III foi tão popular e obteve tantas receitas que levou à criação da imprensa psiquiátrica americana.

Devido a novas pesquisas, ensaios de campo e problemas com a codificação, a APA publicou o DSM-III-R em 1987. O DSM-III-R destinava-se a ser uma curta actualização, no entanto, as diferenças entre o III e o III-R são grandes. O DSM-III-R viu serem renomeadas, eliminadas e incluídas novas categorias. Diagnósticos controversos como a Síndrome Pré-Menstrual, Transtorno da Personalidade Masoquista, entre outros, foram descartados devido às suas implicações sociais. Ao todo o DSM-III-R continha 297 diagnósticos. Apesar de amplamente aceite, o DSM-III e o DSM-III-R foram também amplamente criticados e a evidência científica questionada.

O DSM-IV foi publicado em 1994, para reflectir a investigação realizada desde 1987, data da publicação do DSM-III-R. O DSM-IV viu serem reestruturadas várias categorias, de onde surgiram 365 diagnósticos em 886 páginas (7 vezes maior do que o DSM-II). Tal como os seus predecessores, o DSM-IV foi criticado por levantar, entre outras, questões de comorbidade e sobreposição de sintomas. Não resolveu o problema da TPM e os outros transtornos controversos foram simplesmente adicionados entre os distúrbios que requerem um estudo mais aprofundado.

O DSM-IV-TR (2000) foi lançado para corrigir quaisquer erros factuais e fazer alterações que reflectissem as pesquisas recentes. Não tinha a intenção de resolver qualquer um dos problemas de DSM-IV. Pelo contrário, as alterações eram limitadas ao texto; expressões como "esquizofrénico" foram removidas e substituídas por "um indivíduo com esquizofrenia".

Esta é a história do DSM, mas é também a história que reflecte uma certa visão da doença mental. Em 40 anos foram acrescentados 250 diagnósticos a uma lista que já continha 106. Quem ler o DSM vai encontrar muitas razões, algumas sérias, para procurar tratamento psiquiátrico. A visão distorcida do ser humano encontra-se bem espelhada nas descrições estéreis e descontextualizadas das 886 páginas do DSM-IV-R. O desejo de uniformizar e padronizar através do registo de sintomas observáveis acaba por retirar a subjectividade inerente à vida psíquica, catalogando e empacotando pessoas em categorias estatísticas. As fronteiras entre a chamada normalidade e a psicopatologia parecem não existir, entrelaçando a vivência do sofrimento com a patologia. A vida do paciente, as suas vivências, actuais ou passadas, o seja, a tentativa de compreender a relação doente/doença são desprezadas. Nesta desenfreada proliferação de diagnósticos, com perigosas incursões à infância, que se traduzem numa patologisação e medicalização da vida mental, caminha-se a passos largos para uma profunda desumanização. A DSM-V está na forja, e de bom, nada podemos esperar.

posts relacionados: Diz-me quantas vezes fazes, dir-te-ei... ; O Alienista

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Furto Infantil


O furto infantil consiste na apropriação de objectos por parte da criança que simbolicamente representam uma compensação, na sua essência inconsciente, de uma frustração afectiva.
O objecto que a criança furta, independentemente do valor material, tem valor simbólico e não utilitário, na medida em que ele não é usado para resolver nenhum problema prático.
Muitas vezes, o produto do furto é distribuído pelo grupo de amigos, ganhando dessa forma a sua admiração, na procura de preencher uma lacuna afectiva.
Quando a criança possui uma maior consciência do valor material dos objectos o furto de uma coisa valiosa não lhe retira valor simbólico, pois a criança sente que tem algo valioso e desejado pelo outro, sentindo-se assim, especial.
Em alguns casos, a criança procura “repor a justiça”: “Se eles têm tantos brinquedos porque eu não posso ficar com um?”
É importante que a atitude dos pais perante a situação não corresponda a um interrogatório policial transformando um acto simbólico num traço patológico.
As apropriações de pequenos objectos não têm nas crianças um carácter patológico significativo, mas à medida que a criança cresce a continuação destes actos merece uma certa atenção. Estamos, provavelmente,  perante uma criança em sofrimento que pode andar triste ou deprimida.







segunda-feira, 30 de abril de 2012

Distúrbio da Hiperactividade com Défice de Atenção

Nos últimos 30 anos, o PHDA (distúrbio da hiperactividade com défice de atenção) parece ter-se tornado numa epidemia na nossa sociedade, com uma em cada 10 de todas as crianças de dez anos de idade medicada para estes sintomas. Os pais cujos filhos apresentam estes sintomas têm que decidir, se o filho deve ou não ser medicado, na maioria das vezes, sem terem informação suficiente. Para além do mais, há um problema identificado; os pais estão pressionados para agir. Com o intuito de poder ajudar os pais a decidir, Aqui fica um artigo recentemente publicado no New York Times: "Ritalin Gone Wrong" de L. Alan Sroufe.



psicologia clínica

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sobre o narcisismo # 1


A prótese narcísica é uma forma de compensação por sentimentos (principalmente) de inferioridade.
Através desta estratégia de compensação procura-se obter uma nova imagem de si através da correcção da falha (narcísica).
Uma vez que a falha se situa ao nível interno, este processo está condenado ao fracasso. Por muitos pincéis e tintas que se use para retocar a imagem , por baixo ela mantém-se inalterada. Esta tentativa de engrandecimento não passa de uma luta inglória, porque, apesar de um esforço continuado, é remar contra a maré.
Os recursos em vez de serem colocados ao serviço do próprio são desperdiçados em manobras, muitas vezes desesperadas, de esconder – desse ser que se pretende grandioso – todas as imperfeições.
Por não compreender mais profundamente os sentimentos de inferioridade e assim procurar a ultrapassá-los, vive-se confinado entre a imagem negativa e distorcida de si (porque só consegue ver-se parcialmente) e a imagem desejada de grandeza. Flutuando, sem ser uma coisa nem outra, dará à costa trazido pela maré.
psicologia clínica

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Anorexia Mental # 2


A caracterização da anorexia nervosa

A anorexia nervosa é caracterizada por uma atitude rígida, obsessiva e distorcida face ao peso, alimentação e gordura corporal. Normalmente tem início na puberdade e na adolescência e é causa de morbilidade e mortalidade.
A tríade sintomática associada à anorexia mental é o emagrecimento, a anorexia e a amenorreia.
Os primeiros sinais da doença podem resultar de uma experiência de separação física ou psicológica da mãe, como por exemplo uma escola mais distante, umas férias longe dos pais, ou começar a namorar/interessar-se por alguém e ser rejeitada.
O percurso da anoréxica na doença começa por norma com uma dieta auto-imposta (só 25% das anoréxicas que começam a fazer dieta tem excesso de peso) muito pobre onde se excluem os alimentos mais gordurosos e calóricos com o objectivo de perder 3/4 kg para diminuir certas partes do corpo e pode terminar numa mais radical ou mesmo total.
A perda inicial de peso é sentida como uma vitória, que vai trazer uma força adicional para a perseguição de um corpo cada vez mais magro. À medida que emagrece aumenta o medo do ganho ponderal ao ponto de não admitir que o peso fique estacionário, pois tem muito medo de ficar obesa em poucos dias. Engordar é visto como um fracasso.
De forma inversa perder peso é sentido como um sinal de auto-controlo e de disciplina. A anoréxica faz uma verificação diária da perda progressiva do peso. Cada vez que o peso diminui, mesmo que apenas alguns gramas, é sentido como uma vitória na caminhada para o peso ideal.
Quando aumenta alguns gramas fica muito angustiada e em pânico. A contagem obsessiva das calorias ingeridas e dos alimentos está sempre presente e parece contrastar com apetência para cozinhar para os familiares. O exercício físico diário é quase obrigatório, em último caso pode resumir-se a caminhar a pé.
Os transtornos das condutas alimentares ocupam uma posição de cruzamento entre a infância e a idade adulta como ilustra a sua ocorrência electiva na adolescência, entre o psíquico e o somático, entre o individual e o social. Este cruzamento ilustra a provável ligação entre esta patologia e os processos de mudança como por exemplo a puberdade e a autonomia.
Há uma impossibilidade de expressão através da representação psíquica que vai obrigar a recorrer a uma expressão actuada no corpo. As questões da adolescência – identidade, dependência, imagem corporal, o ideal – são as mesmas que se encontram na anorexia nervosa, a diferença está na forma como são elaboradas.
A anorexia nervosa pode ser considerada a expressão do bloqueio do desenvolvimento feminino, com fixação a uma imagem idealizada do corpo infantil, recusa do corpo sexuado, alicerçada numa relação simbiótica com a mãe e negação da feminilidade.
Se por um lado é a expressão de dificuldades e sofrimento psíquico, por outro, também representa uma tentativa de reorganização, re-adaptação e por isso, uma forma de auto-terapia. O corpo magro é fácil de alcançar por qualquer rapariga, criando-se assim uma organização defensiva compensatória perante uma insatisfação interna.
As adolescentes com anorexia nervosa procuram uma nova oportunidade de serem compreendidas e que algumas coisas possam agora ser elaboradas, mas que ao mesmo tempo pode trazer desfechos fatais.
Não se pode anular uma situação existencial sem pôr em perigo a própria existência. A partir do momento em que na anoréxica os processos defensivos do Eu forçam ao retraimento extremo, não muda mais nada e o sujeito agarra-se deuma forma quase delirante à ideia de imortalidade, que em casos extremos pode mesmo levar à morte.
Como manifestações fisiológicas da doença as anoréxicas apresentam amenorreia, enfraquecimento e queda do cabelo, lanugo, cianose das extremidades, magreza, caquexia ou emaciação, desidratação com possíveis sinais de choque, atraso no início ou interrupção do desenvolvimento pubertário, pele seca e descamativa, perda de pêlo axilar e púbico, cabelo seco e quebradiço, hipotermia, bradipneia, bradicardia, hipotensão, edemas periféricos e osteoporose.
In : “CONTRIBUTO À COMPREENSÃO DA ANOREXIA MENTAL FEMININA A PARTIR DO PROCESSO DE SEPARAÇÃO-INDIVIDUAÇÃO”
Pedro Martins


psicologia clínica

terça-feira, 10 de abril de 2012

Anorexia Mental # 1


  História

O conhecimento da anorexia mental remonta às referências encontradas em Hipócrates, Galeno, e sobre Teresa de Ávila e as suas práticas com a rama de oliveira para induzir o vómito.
A história da Anorexia Nervosa começa na Europa Medieval com os casos de Anorexia Mística, sendo paradigmático, o de Santa Catarina de Siena.
As opiniões dividem-se entre os que pensam que a anorexia mística não é a mesma doença que actualmente é designada por anorexia mental (Caroline Bynum) e aqueles que encontram muitas semelhanças entre ambas (Rudolph Bell).
Apesar das reconhecidas diferenças a anorexia antiga pode ser melhor compreendida à luz da anorexia moderna.
A partir do Sec. XVII e XVIII a curiosidade científica de alguns médicos no estudo das “Mulheres Santas” que nada ingeriam, fizeram com que dessem ao fenómeno o nome de “Inedia Prodigiosa” e “Anorexia Mirabilis”.
Mas os primeiros olhares verdadeiramente científicos ocorrem em 1668 por Thomas Hobbes, ao observar uma jovem que não comia há 6 meses e à qual não atribuiu nenhum milagre mas considerou tratar-se de uma doença. No seguimento, aparecem os nomes de Cotton Mathes (1633-1728), Erasmus Darwin (1731-1802) e Allrecht Von Halla (1708-1777).
Na história da anorexia nervosa há 2 descrições científicas que servem de marco. Uma é a de Morton no Sec. XVII e a outra a de Lasègue e Gull no final do Sec. XIX. Já no Sec. XX a doença era atribuída ao mau funcionamento da hipófise fazendo com que fosse estabelecida uma confusão com a “doença de Sheehan” ou “doença de Simmonds”, e foi desta forma compreendida até à definição actual.
No entanto, aquela que é considerada a 1ª descrição de carácter científico duma situação idêntica à Anorexia Nervosa foi feita em 1698 num tratado de Tisiologia pelo médico Inglês Morton.
Mas é a Gull e a Lasègue (1868), que são atribuídas as definições modernas de Anorexia Mental. Gull, em 1873 apresenta 3 casos clínicos de uma doença que intitulou de “Anorexia Histérica”.
Mais tarde publicou os três casos num artigo intitulado “Anorexia Nervosa”. A sua correcção no nome da doença deveu-se a facto de ter encontrado a mesma patologia num homem. Nesse mesmo ano Lasègue, (fica-lhe a honra de ser considerado o primeiro) pertencente ao círculo de Charcot, publica um artigo sobre a “Anorexia Histérica”.
Louis-Victor Marcé (1859), descreveu pela primeira vez a anorexia mental. Foi no entanto em 1873 por Lasègue e em 1874 por Gull que fica definida como um síndroma. Gull o criador do termo anorexia nervosa que é utilizado nos países de língua inglesa, Alemanha e Rússia. Laségue designou a patologia como sendo inicialmente anorexia histérica e depois anorexia mental, termo usado em França e Itália.
In : “CONTRIBUTO À COMPREENSÃO DA ANOREXIA MENTAL FEMININA A PARTIR DO PROCESSO DE SEPARAÇÃO-INDIVIDUAÇÃO”
Pedro Martins


psicologia clínica