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segunda-feira, 2 de junho de 2014

No comboio da loucura sem bilhete de ida-e-volta


Neste magnífico trabalho de António Araújo - O Trem de doidos -, somos confrontados com dados históricos que possuem uma actualidade assombrosa. A experiência que David Rosenham efectuou em 1972, podia ser replicada hoje, e os resultados seriam exactamente os mesmos.

Como se não bastasse tem ainda uma entrevista à jornalista premiada Daniela Arbex que conta a história de vida e morte do Hospício Colônia, o maior do Brasil e que se encontrou em funcionamento até aos anos oitenta.


Leiam. Obrigatório!



Psicoterapia

sábado, 16 de março de 2013

O Alienista

Neste brilhante conto de Machado de Assis, publicado em 1882, o conceituado médico Simão Bacamarte resolve dedicar-se à psiquiatria dando início a um estudo sobre a loucura na Vila de Itaguaí. Simão Bacamarte, em nome da ciência, dedica-se a classificar os moradores da vila através da observação cuidada dos seus comportamentos, medindo a loucura nas suas variações e graus. À medida que ia diagnosticando os residentes de Itaguaí, Bacamarte resolvia interná-los na Casa Verde, fundada, exactamente, com esse fim. Imbuído pelos rigores da ciência acaba por internar a maioria dos habitantes da vila, inclusive, sua mulher, D. Evarista. Quando Simão Bacamarte constata que o único sadio era ele, é atormentado por uma questão ética, e como era o que se desviava do padrão, decide libertar todos o loucos e internar-se na Casa Verde, onde passados dezassete meses, morre solitário.

Infelizmente, aqueles (American Psychiatric Association) que se encontram com a divertida tarefa de criar classificações, não têm – nem podiam ter, porque são demasiados perturbados para olhar para si mesmos – o sentido ético de Simão Bacamarte, para procurar internamento. Tal como Bacamarte, imbuídos por um distorcido rigor científico, continuam a classificar os comportamentos humanos, com a lupa da moralidade, do desrespeito pela singularidade do ser humano e, como é óbvio, a servir, sem nenhum pudor, a indústria farmacêutica.

O Alienista, publicado há mais de 120 anos tem um inquestionável carácter profético. Não deixa de ser curioso que é exactamente na era das “liberdades individuais” que se assiste a um ataque a tudo o que sai fora de uma certa normalidade (cada vez mais apertada), ao sujectivo, e dessa forma, impedindo que se revele e se manifeste a alteridade.

psicologia clínica

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Poesia - da consciência das palavras à consciência de si

Segundo um estudo da Universidade de Liverpool, ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e contribui para a auto-reflexão.

Os investigadores descobriram que a poesia, em particular, afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas e as emoções, favorecendo o re-pensar das vivências, e assim, a compreende-las noutra perspectiva.

Philip Davis refere que "A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos das nossas recordações".

O estudo mostra que a literatura que reflete sobre a condição humana é mais benéfica que os livros de auto-ajuda, ou literatura “light”, que ao invés de abrir novas vias de pensamento, reforçam o conhecido, o previsível, e assim, acabam por não acrescentar muito à reflexão e ao crescimento mental.

Posts relacionados: Fortalecer a auto-estima - nunca foi tão fácil , - Se eu quisesse, enloquecia

psicologia clínica

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não é Loucura, Senhor; é Pobreza

"Le contaron al gobernante de un país que todas las mañanas un hombre, al parecer loco, llegaba arrastrando sus andrajos hasta el borde de un basural en las afueras de la ciudad, instalaba ahí un fogón de piedras y se ponía a preparar sus alimentos en una olla; que en realidad la olla siempre estaba vacía y que después el hombre fingía verter parte de los imaginarios alimentos en un plato y simulaba comer. El gobernante, transpirando de sospechas, decidió ver al hombre.

A la mañana siguiente, luego de observar oculto y a cierta distancia lo que hacía el hombre hasta el instante en que se llevaba la primera cucharada a la boca, el gobernante salió de su escondrijo y se acercó, seguido por el silencio de su numerosa comitiva.

-Soy el que gobierna este país- le dijo al hombre.

Sentado al pie del humilde fogón, el hombre levantó la mirada y observó al gobernante, pero no dijo nada. En seguida cogió la olla y otro plato, simuló verter en éste un poco del supuesto contenido de la olla y añadió una cuchara.

-Sírvase, señor- le ofreció el plato al gobernante.

Convencido de que el hombre estaba loco, el gobernante hizo una mueca de enojo y resueltamente comentó:

-Esto es una locura- y se alejó de prisa.

Y no pudo oír que el hombre decía, con voz fatigada y triste:

-No es locura, señor; es pobreza."


Antonio Gálvez Ronceros , "Mirage"
Histórias de trazer os homens, Extramuros Editorial, Lima, 1988.




Posts relacionados:  - Se eu quisesse, enlouquecia



psicologia clínica

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pensar é o melhor remédio

"O estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal depravado." Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.

Há anos, a filósofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a partir de suas próprias convicções e motivações.

Com isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da psiquiatria contemporânea. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de valores e normas.

Essa é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida bem-sucedida.

A fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil, parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".

Décadas atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.

Tal filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou, décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.

Por "uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por visar conservar performances sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos de crise aguda.

Tal uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que nos adoece, é ela também que nos cura.



O pensar como doença
Vladimir Safatle
Folha de S. Paulo, 27/11/2012




psicologia clínica

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Negação

A negação é um termo teórico, que passou a ser usado na vida cotidiana, na maioria das vezes, distorcendo o seu significado.

Segundo o Vocabulário da Psicanálise – Laplanche & Pontalis, a negação ou (de) negação é o “processo pelo qual o indivíduo, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos, até aí recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença”; “recusa da percepção de um facto que se impõe no mundo exterior.”

A negação é um mecanismo de defesa inconsciente em que o conflito emocional e a ansiedade são evitados por recusa em reconhecer pensamentos, sentimentos, desejos, impulsos, ou factos que são conscientemente intoleráveis.

Em alguns casos, a negação por um certo período de tempo pode ser considerada um mecanismo saudável de mitigar o “intolerável”, dando à mente a oportunidade de elaborar e se adaptar.

Perante emoções demasiado intensas, a negação representa uma forma de preservar a coesão mental, ainda que a negação, em última análise, possa ser nociva. Uma vez que negação também requer um investimento substancial de energia, implica que outras defesas sejam também utilizadas para manter os sentimentos inaceitáveis ​​afastados da consciência.

A perpetuação do uso das defesas e a sua falência acaba por ser uma das circunstâncias que levam algumas pessoas a procurar ajuda. Gradualmente as “defesas” tornarem-se cada fez mais inadequadas e ineficazes, deixando a dor emocional oculta (no seu estado original), ascender à superfície.

Os mecanismos de defesa podem ser encontrados em indivíduos saudáveis, mas a sua presença excessiva é, via de regra, indicação de possíveis sintomas neuróticos.


posts relacionados: Repressão


Psicoterapia

sábado, 3 de novembro de 2012

Fortalecer a auto-estima - nunca foi tão fácil

Nas redes sociais é comum encontrarmos imagens como esta, onde são dadas sugestões, como neste caso, para fortalecer a auto-estima. Ao lermos, ficamos com duas impressões: 1ª. – as sugestões são boas; 2ª. – é fácil. Sendo assim, poderíamos ser levados a concluir que as pessoas que tem baixa auto-estima ou não têm acesso a esta informação ou não fazem nada para mudar, e portanto, são responsáveis pelos seus sentimentos negativos.


A parte negativa deste tipo de auto-ajuda de pacotilha prende-se essencialmente como efeito que pode ter, ou seja, contribuir para que as pessoas não pensem/não possam pensar, as razões que as impedem de ser de outra forma.


Tomemos como exemplo a primeira sugestão: “aprender a dizer não”. Como todos sabemos, dizer “não” é algo que se aprende muito cedo, todas as crianças com dois anos de idade já aprenderam a dizer “não”, o seu significado e até as implicações. Será que desaprenderam? Não creio. Quais são, estão, as razões para tal impossibilidade? Não interessa, o importante é conseguir dizer não porque dizer não é bom e faz bem.


Penso que estas receitas, ainda que aplicadas com sucesso, não passam de um artefacto e não produzem uma verdadeira mudança. Mas são más, fazem mal? A questão não é essa; as pessoas farão aquilo que julgam ser melhor e na maioria das vezes, farão o que conseguirem, e devem ser respeitadas por isso. O pior, é a ilusão criada em torno de daquilo que é o ser humano, as suas idiossincrasias e a mudança. Esta superficialidade leva o homem a aceitar passivamente um tipo de servidão mental, versão, faça você mesmo, que anestesia a sensibilidade, estupidifica a mente e prejudica a alma.


psicologia clínica

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Baby Blues


Do ponto de vista fisiológico é uma reacção legítima, e acrescente-se, desejável. Segundo as estatísticas o baby blues é bastante frequente, oscilando entre os 70 a 90%. Não é, portanto, razão para alarme.

O baby blues correspondendo a um ciclo humano natural que aparece por volta do 3º ou 4º após o nascimento. Da parte do bebé inicia-se um tipo de comunicação diferente com a mãe, agora, ele dirige-se a ela esboçando um de diálogo (com o outro). A mãe, por sua vez, constata que o seu filho não é parte dela, estão separados, são dois e não um, como até então. Assim, esta realidade vivida no corpo, nas suas percepções e nos seus pensamentos, deprimi-a.

A depressão pós-parto, ao contrário do baby blues, que se esbate sozinho, é mais grave e habitualmente, surge mais tarde. Em alguns casos essa depressão corresponde a um baby blues que se perpétua.

Neste período (raramente) também pode surgir uma psicose puerperal, ou uma depressão melancólica. Nesta caso, estamos a falar de sujeitos com fragilidades conhecidas, que se agudizam com o nascimento de um filho. Portanto, pode dizer-se, que o nascimento faz despoletar um desequilíbrio latente.

Ao contrário do que habitualmente se refere, o baby blues não resulta exclusivamente de uma questão hormonal. Situações em que a criança foi afastada da mãe, por exemplo, para a neonatologia, as mães não fizeram o baby blues no período habitual (3º, 4º dia), mas mais tarde, quando reencontram o filho. Estas mulheres também estavam deprimidas mas não usavam as expressões das “mães baby blues”: “Não sei porque estou a chorar, tenho tudo o que preciso para estar feliz”.


Psicoterapia

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Psicofármacos – É uma questão de custos e benefícios


Quando no âmbito do meu trabalho é solicitada a minha opinião sobre a medicação, a resposta que dou, e suponho, continue a dar, é a mesma: é tudo uma questão de custos/benefícios.
O ser contra ou a favor parece-me uma forma redutora de abordar a questão.
Pode, e deve-se discutir a representação que tem nos dias de hoje a medicação como forma de viver os problemas. Dado que o crescimento desenfreado do consumo não parece abrandar, é  urgente fazê-lo.
Isto vem a propósito de mais um estudo sobre psicofármacos – Benzodiazepinas: diazepam (Valium), alprazolam (Xanax) – publicado no British Medical Journal.
Na generalidade, os estudos que não são feitos pela indústria farmacêutica, apresentam resultados que devem deixar qualquer um apreensivo, não só quanto à sua eficácia, como, no que diz respeito aos efeitos secundários. Isto, por si só, já daria uma interessante discussão.
A outra questão é saber se há indicação para tratamento psicofarmacológico. Em grande parte dos casos sabemos que não. Como resultado, portugal apresenta taxas muito altas (e crescentes) deste tipo de fármacos. Uma vez que esta medicação tem muitos efeitos secundários, é necessário que seja prescrita com muito rigor.
Segundo o que me é dado a entender, aos pacientes não é colocada a questão do custo/benefício para poder escolher livremente. Nem tão pouco, se existem alternativas. Assim, sem o esclarecimento que lhe é devido, acaba por tacitamente aceitar o lhe é proposto.
As boas práticas sobre o consumo de Benzodiazepinas, como refere a agência europeia do medicamento, não deve ultrapassar algumas semanas, mas como é sabido elas ultrapassam muitas vezes um ano e em alguns casos há um consumo crónico.
É fundamental informar os pacientes do custo/benefício e das alternativas existentes.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Masturbação?


Recentemente, em casa de uns amigos, passou-se o seguinte:
O filho deles andava aos saltos de um lado para o outro, mas a mão, raramente se desprendia dos calções.
Não estará com vontade de fazer chichi, alguém perguntou. Descontraidamente, o pai respondeu, “está entretido…”
A manipulação dos órgãos genitais está associada à masturbação, mas para ser considerada masturbação falta o essencial, a fantasia.
A masturbação com um verdadeiro significado sexual é praticada em segredo, às escondidas e não no meio da sala para todas as pessoas verem.
Os pais apercebem-se do que está acontecer e, felizmente, a maioria faz vista grossa à exploração que a criança faz do corpo. Naturalmente, descobre que há partes mais agradáveis que outras. Provavelmente, passa mais despercebido, mas é habitual encontrar-se crianças entretidas com o lóbulo da orelha ou a fazer caracóis com o cabelo.
Destituir de qualquer tipo de significado a manipulação dos genitais é cair no oposto. Esta exploração passageira do corpo liga-se com emoções e fantasias vagas que prepara a sexualidade adulta.
Nos adultos a vida sexual infantil está reprimida, esquecida, sendo que muitos ficam angustiados com esta fase dos seus filhos, e são excessivamente severos em relação a este comportamento.
É importante que os pais/educadores possam entender e aceitar esta fase como fazendo parte do desenvolvimento, e preparação para uma vida sexual adulta e satisfatória.



psicologia clínica

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Implodir ou explodir?


Implodir ou explodir? A resposta não é fácil e, normalmente, a decisão está dependente dos (supostos) efeitos colaterais da explosão, ou seja, como recuperar dos danos resultantes – reais ou imaginados.
Embora provoque grandes estragos, a implosão (explosão interna) tem a “vantagem” de ser controlada pelo próprio.
Já na explosão (externa), o maior receio é a imprevisibilidade quanto aos (supostos) estragos. Temem-se os efeitos no outro e o reflexo no próprio.
É complicado abordar esta questão sem sabermos o que está por trás, mas tomemos o exemplo:
Imaginemos que a Filipa diminui e amesquinha constantemente a Inês através de observações desagradáveis, comentários depreciativos e a responsabiliza por tudo o que corre mal. Um dos efeitos nefastos da Inês não reagir traduz-se no desenvolvimento de sentimentos de desvalorização e de inculpação – absorção da maldade do outro transformando-a sua-; algo que se pode enraizar profundamente no Eu a ponto de se constituir como parte integrante deste.
Neste caso seria de supor que a “explosão” seria a resposta adequada, mas há um senão. O que representa a Filipa para a Inês? Se pensarmos que se trata de uma figura afectivamente muito importante é natural que o vontade da Inês reagir possa ser bloqueada devido ao receio (normalmente fantasiado) de vir a perder a relação com a Filipa. Quando o receio é muito grande dá-se a implosão.
Uma das conclusões que se podem tirar é que certas dinâmicas relacionais implicam custos muito altos.
As coisas não são tão simples como tentei demonstrar, são, até, muito mais complexas. Cada caso é um caso, mas implodir não é a solução, mas antes, uma forma de perpetuar certos padrões relacionais.


Psicoterapia

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Trauma - uma introdução


No Vocabulário de Psicanálise, Laplanche e Pontalis descrevem trauma ou traumatismo (psíquico) como:
“Acontecimento da vida do indivíduo que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se acha o indivíduo de lhe responder de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogénicos duradouros que provoca na organização psíquica.”
No entanto, nem toda a experiência de trauma é um acontecimento específico; ele pode ser cumulativo. Neste caso, uma vez que as causas são menos claras, torna-se mais difícil de lidar.
Conceito importante associado ao de trauma, é o de sinal de angústia.
Laplanche e Pontalis referem:” O sinal de angústia reproduz de forma atenuada a reacção de angústia vivida primitivamente numa situação traumática, o que permite desencadear operações de defesa.”
Segundo P. Casement, quando se considera a revivência do trauma é importante pensar em conjuntos inconscientes.
“Isso dá-nos uma lógica em termos da qual podemos entender como a mente regista inconscientemente elementos particulares como sendo da mesma natureza – porque foram anteriormente vivenciados juntos. Assim eles passam a ser estabelecidos como relacionados, de forma atemporal e sem excepção. Para o inconsciente a parte pode representar o todo, logo, qualquer coisa associada a uma situação traumática pode representar o trauma como um todo e pode deflagrar o sinal de ansiedade, alertando a mente inconsciente como se aquela situação traumática estivesse na eminência de se repetir.”
P. Casement dá-nos um exemplo através de uma vinheta clínica:
Uma menina de dois anos de idade foi levada pela mãe para ser vacinada antes de viajar para o estrangeiro. Para poder aplicar a vacina na coxa da criança, o médico pediu à mãe para levantar o vestido da filha. Até aí nada de anormal, à excepção, talvez, da presença desse relativamente estranho – o médico de família. Mas depois de ficar chocada com a súbita dor da injecção, foram necessários alguns meses para que a criança fosse capaz de recuperar da experiência que parecia estar sempre iminente. Mais especificamente, ela demonstrava um claro sinal de ansiedade sempre que a mãe tentava trocar-lhe as roupas.
Qualquer tentativa da mãe de levantar o vestido da criança era recebida com gritos. Uma reacção semelhante era evidente quando se tirava qualquer outra peça de roupa; quanto mais perto da parte inferior do corpo mais intensa era a reacção. Outras pessoas tinham mais sucesso do que a mãe nessa operação, mas ninguém podia levantar-lhe o vestido.
Podemos ver neste exemplo como várias associações relacionadas com a situação de perigo foram estabelecidas em torno do trauma original.
As mais específicas eram as seguintes: a mãe com a criança ao colo levantando o vestido.
Associações menores também podiam ser identificadas: roupas perto da coxa e pessoas como a mãe.
Era perceptível que a criança tinha mais confiança no pai do que na mãe quando estava no colo. Mas quando a criança estava no colo de outra pessoa, o pai tornava-se a fonte de ansiedade caso estendesse as mãos para ajudar a tirar a roupa.
Por isso, dava a sensação de existirem diferentes níveis de associação a funcionar: uma pessoa-colo do sexo feminino era mais temida do que uma pessoa-colo do sexo masculino, particularmente quando associada à tentativa de tirar a roupa. Também um homem de braços estendidos para ajudar, quando associado à tentativa de tirar roupas, era mais temido do que uma mulher na mesma posição.
Neste exemplo podemos ver que o trauma passou a ser associado a um conjunto de elementos principais: estar no colo de uma mulher; roupas removidas ou levantadas; um homem a estender as mãos para fazer algo.
Reconhecendo intuitivamente as associações às quais sua filha reagia, a mãe encontrou uma maneira de lidar com o problema.
Ao colocar a criança na banheira e molhando as roupas, ao invés de tentar despi-la ao colo distanciou-se da situação traumática. Conseguiu então tirar roupas que estavam molhadas em vez de secas. Roupas molhadas não tinham participado no trauma original, de modo que essa diferença permitiu à criança aceitar uma nova maneira de se despir, apesar de que remover roupas ainda era parte daquilo que a mãe fazia.
Ela não estava, portanto, evitando completamente a experiência, mas encontrando uma maneira de fazer face a ela – na medida em que a criança estava em condições de a tolerar.
Gradualmente os vínculos associativos tornaram-se mais fracos e as roupas secas também puderam ser removidas: primeiro, removidas quando ela estava sentada numa banheira vazia e, depois, sentada ao colo da mãe.


psicologia clínica

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quem não chora não mama


                                                             

 - Ninguém sabe como me sinto, ninguém se interessa…
 - Você já disse a alguém como se sente?

A expectativa de que os outros saibam como nos sentimos sem necessidade de o manifestar, na maioria das vezes, não se concretiza.

Naturalmente, o próprio, coloca a questão em relação ao outro: Ele não se interessa, não gosta de mim, é um ingrato…….

O ângulo que me parece mais importante observar é o do próprio. O desejo de ser entendido sem necessidade do expressar encontra paralelo na infância precoce onde a mãe consegue antecipar os desejos/necessidades da criança e os satisfaz. Mas excluindo este “fenómeno” que resulta de uma profunda ligação (fusão) mãe-bebé, e, que para o bem de todos se desfaz gradualmente, a criança vai desde o início manifestando as suas necessidades e procura pelos meios de dispõe que elas sejam satisfeitas. Com o crescimento a criança vai adquirindo capacidades e uma das mais importantes é a linguagem. A partir desse momento dispõe de um valioso e complexo meio de expressão.


“Quem não chora não mama”

Se não é fácil pedir ajuda, para algumas pessoas isso é quase impossível. Pedir representa uma falha, uma fragilidade que é necessário ocultar. Quando pedem ajuda fazem-no de uma forma atabalhoada e encoberta que mais parece que não precisam de nada. O receio de pedir e não receber não só expõe a falha como a amplia. Então, numa satisfação perversa, aguentam estoicamente em silêncio, alimentando sentimentos hostis em relação ao outro, que geram distância em vez de proximidade.


Está na altura de começar a falar                                                                                  


   psicologia clínica

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Liberdade de escolha


O governo Sueco (provavelmente, com a melhor das intenções) ávido de resultados e impelido por questões financeiras decidiu que iria apoiar um modelo de psicoterapia em detrimento de todos os outros. Quando chegou altura de analisar os resultados, os responsáveis suecos concluíram que se tinham equivocado, não só os resultados não foram os esperados como superaram as piores expectativas. Apostou tudo no vermelho e saiu preto. Acontece.

Como já é hábito, as pessoas que não tiveram oportunidade de escolha, que se sujeitaram a algo que não era bom para elas e que, acredito, perderam muito com isso, não são consideradas. Adiante.

Independentemente das qualidades subjacentes a cada modelo psicoterapêutico, aqui estamos a falar de liberdade de escolha. As pessoas não são todas iguais, felizmente são até bastantes diferentes, por isso devem ser elas que, informadas, devem escolher aquilo que julgam ser melhor e caso concluam que não é o indicado, devem poder mudar livremente.

Esta tendência de uniformização e catalogação das pessoas em patologias (o deprimido, o psicótico, o hiperactivo) e por conseguinte, abordagens terapêuticas especificas para certos diagnósticos, não se mostra eficiente. Mas Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha, e continua-se a insistir. Todos os deprimidos do mundo são iguais, todas as depressões são iguais, todos os terapeutas são iguais. Há coisas que nem parecem difíceis de entender.




Psicoterapia

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ó tempo volta pra trás. Já!




“Foi-se o tempo em que … bastava “apenas um olhar do pai” para que as crianças se reposicionassem no seu lugar de filho.“Nesse outro tempo” tínhamos a impressão que tudo tinha o seu “lugar”.

Nessa época não se ouvia falar em hieractividade. As crianças eram definidas como seres mal-educados que precisavam de uma educação rígida e rigorosa para se tronarem adultos civilizados.

…a religião e a tradição asseguravam o lugar do pai na família. … a autoridade do pai era sustentada não apenas pela mãe dentro de casa, mas, na esfera pública e politica, através da religião e dos costumes. Nesse mesmo lastro residia a autoridade do professor e dos adultos em geral.

Esse cenário começou a mudar a partir de um longo processo de transformações históricas e sociais que solapou a tradição e a religião enquanto organizadores da família e da sociedade.

A valorização da criança produzida pelo capitalismo, em que a mesma passou a sustentar a promessa de fabricação do adulto de futuro, produziu não apenas a valorização da mulher como mãe, mas, instituiu uma preocupação do estado em limitar e regular cada vez mais os poderes do pai, visando proteger a mulher e os filhos da sua arbitrariedade.

O filho tornou-se propriedade privada da mulher-mãe. Ao pai, restou um colchão ao lado da cama do casal, agora ocupado pela mãe e pelo filho. Quando ele intervém, é logo interpelado pela sua mulher com um “cala a boca, você não sabe nada”. O homem-pai viu-se reduzido a uma criança que não sabe nada, nem sobre a vida doméstica nem sobre os filhos. Ela briga com ele como briga com uma criança: “não faça isso! Faça aquilo. Você não sabe de nada!” Diante dessa mãe omnipotente, o homem viu-se reduzido a uma criança impotente.

Pois bem, se na família patriarcal a autoridade era atribuída ao pai, na família moderna a mãe passou a ocupar esse lugar.

 Diante da crise de referências instituída a partir da queda da tradição, o pai, não sabendo qual seu lugar, viu-se reduzido a uma condição infantil, ora toma a mãe como modelo de relação com os filhos, funcionando como uma “segunda mãe”, ora se identifica com a criança, demandando à mãe mais cuidados do que deveria.

Como consequência dessa crise de referências, temos encontrado um cenário muito assustador: crianças que dormem com os pais, ainda usam fraldas apesar da idade, têm dentes mas ainda tomam mamadeira. São grandes em peso e altura, mas vivem no colo dos pais.

As crianças não conhecem a frustração. Privadas da intervenção educativa, pouco a pouco vão-se tornando pequenos monstros assustadores e demandantes: querem “tudo” e ao mesmo tempo “nada”. As crianças tornaram-se pequenos tiranos e os pais escravos da tirania dos filhos.

Quando essas crianças chegam à escola … não conseguem concentrar-se e não aprendem.

Ao não reconhecer a desorganização da criança como proveniente da sua própria renúncia, os pais recorrem a um “outro-especialista” buscando uma resposta sobre o que se passa com o seu filho. Este por sua vez, capturado numa formação organicista pautada no modelo biomédico – modelo que reduz todo e qualquer problemática humana a um defeito no funcionamento biológico – vê-se obrigado a diagnosticar a má educação da criança como hiperactividade.

Impotentes face à demanda dos pais e das escolas, os médicos medicam. Aliás, o que poderiam fazer além de medicar? … Talvez os médicos pudessem dizer: ”Seu filho precisa limites!!!”. Mas certamente seriam considerados maus médicos. Pois, ao denunciar a necessidade de limites, denunciariam as renúncias educativas dos pais!

Não sabendo o que fazer com os pequenos tiranos, solicitam à ciência e à medicina algum limite, mesmo que seja químico!

Como sabemos, um adulto precisa aprender a viver e a ter horários para dormir, assim como o adolescente precisa aprender modos de relacionamento com o outro para transar. Por isso fica a pergunta: Será que uma criança poderia prescindir dos adultos para se tornar civilizada? Ou de facto acreditam que uma dose diária da “droga” seria suficiente para educá-la? Depois não me venham com campanhas “Crack nem pensar!!!”


Transcrição parcial (adaptada) do artigo: A fabricação da loucura na infância, Michele Kamers




psicologia clínica

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Stand-up Psychology


Um pouco por todo o lado proliferam “terapias” que vão ao encontro das necessidades dos dias de hoje: soluções rápidas - fast -, de preferência imediatas. Soluções milagrosas, heregemente apoiadas por uma pseudociência, que se resume a estatísticas, cujo método se equipara aos estudos de mercado. Não é nada de novo, inovador, trata-se de velhas fórmulas adaptadas aos nossos dias; fruta em garrafinhas em vez de uma peça de fruta para descascar ou comer com casca.

Em substituição de fórmulas ultrapassadas aparece em forma de Stand-up Psychology (direccionada para as massas), acompanhada de bestsellers com títulos a condizer – Lições de sedução; Não quero crescer; Benvinda dor; Histórias de divã e encontros (O lado B do amor) – um ramo da já conhecida Psicologia Positiva.

E resulta? Se resulta!!!

A felicidade, a sempre desejada, seja através de iogurtes ou cremes faciais continua a vender como se não houvesse amanhã. Mas a forma mais tentadora de ser apresentada é: Faça você mesmo – está nas suas mãos -. Só mesmo os muito preguiçosos desperdiçarão a oportunidade de mudarem a vida com as suas próprias mãos e retirarem os louros desse passo grandioso.

Nada se consegue sem trabalho, por isso também deve ser dado mérito aos empreendedores da Stand-up Psychology. 1º - Humanos como todos os outros falam dos seus problemas, que são iguais aos de toda a gente. 2º - Como os resolvem ou resolveram. 3º Vejam como nós, simples humanos como vocês, estamos de bem com a vida.

Os méritos não terminam aqui. O mérito principal – a razão do sucesso - é o de apresentar uma resposta, uma direcção. Certa ou errada, parece que tanto faz. As pessoas precisam de respostas. Não as encontram sozinhas e esperam que as ajudem a encontrar. Isto deve levar os psicólogos a reflectir.

Roma e Pavia não se fizeram num dia.

É preciso ter em conta, que muitas vezes não há resposta imediata, e, tão importante como não ter resposta é considerar porque não se consegue encontrá-la. Todos deveríamos ser capazes de ter solução para tudo? Não, infelizmente ou felizmente, não há solução para tudo. Mas se a falta de resposta significa ficar paralisado então é preciso ajudar a desbloquear.

Numa altura em que os relacionamentos têm um carácter faceboquiano, vulgo, superficial, muitas das possibilidades de resposta perderam-se algures. A procura afectiva da resposta é sempre a melhor e sem dúvida a que obtém melhores resultados. É no entrelaçado afectivo que se gera a confiança interna, indutora e catalisadora do pensamento criativo perante as dificuldades.

Mas não será tudo isso demasiado superficial? Sim, mas não é obrigatório que todas as pessoas estejam interessadas em grandes aprofundamentos. A escolha deve ser livre mas informada. O facto de ser superficial não significa que não seja suficiente para alguns. Perante uma casa que necessita ser recuperada há pelo menos duas possibilidades. Uma reabilitação profunda (reconstrução) ou uns retoques superficiais na pintura. É uma opção que vai depender de dinheiro, tempo e disponibilidade mental. Quem optar pelos retoques não pode esperar o mesmo que aquele que se decidiu pela reconstrução; as pinturas não duram muito tempo mas deixam as casas mais bonitas e em alguns casos habitáveis, e isso não é de somenos importância.

Jamais deve confundir-se uma mudança superficial com uma aparente mudança. E nestes casos parece tratar-se de algo simplesmente aparente. Temas como: porque as mulheres têm o passatempo uterino de arranjar homens idiotas, podem ser divertidos e provocar grandes gargalhadas mas jamais levará alguém a compreender as suas escolhas afectivas.

 As pessoas estão cheias de “nadas”, proposta ilusória do tudo. Tudo é possível. Não. Não é tudo possível, alcançável e concretizável. É preciso dizê-lo.




Psicoterapia

O Elogio da estupidez






Psicólogo Clínico

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um entristecido adeus à infância


Crescer é abdicar dos sonhos de infância e aceitar o nosso passado com todas as imperfeições que possa ter tido. É viver entre um entristecido adeus à infância – ou seja, a si mesmo e aos objectos do passado – e à superação gradual, ansiosa e esperançada, de muitas barreiras até à entrada no desconhecido mundo da vida adulta.
Na adolescência – onde se vivenciam estados afectivos de luto e paixão – dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais. O jovem estabelece novos vínculos e adquire capacidade para novas experiências afectivas e sexuais. Desidealiza as figuras parentais e procura novos modelos exteriores. Para além da mudança de objecto de amor, há também mudança de objectivos. Os interesses deixam de ser quase exclusivamente narcísicos (característicos da infância) para passarem a ser sociais.
O desejo de parar o tempo, a mudança, pode ser considerada uma excepção, que se deve, essencialmente, a uma incapacidade de enfrentar o novo. No desenvolvimento normal, em contraposição à tendência de manutenção do estado original de fusão, há um impulso à diferenciação e individuação que visa a aquisição e estabelecimento da identidade.
Impossibilitado da fazer a “passagem”, o jovem em desenvolvimento fica amarrado às coisas conhecidas e controláveis (próprias do universo infantil) que produzem um sentimento de segurança. Aqueles que não podem desfrutar das coisas transitórias da vida (como acontece na evolução), perder umas para se ganhar outras, são os que na sua história pessoal sentiram as mudanças de forma catastrófica, ao ponto de predominarem os sentimentos de angústia e vivências de perda.
Perante o choque entre forças progressivas e regressivas prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer ao abrigo de uma genitalidade crescente e desejante como impulso para a independência e liberdade. O desejo que a criança tem de ocupar o lugar do adulto (o lugar entre os adultos) pode finalmente ser realizado, elaborando os sentimentos de perda e deixando-se capturar e fascinar pelos encantos do novo.
psicologia clínica

sábado, 4 de agosto de 2012

Quanto se pouparia em sofrimento?


Segundo um estudo publicado esta semana na revista Biological Psychiatry muito dinheiro poderia ser poupado se perante os primeiros sintomas de patologia mental fosse feita uma intervenção. Sabe-se há muito que a prevenção e a intervenção precoce limitam a progressão de quadros psicopatológicos que se podem tornar mais complexos e morosos de ser tratados. Naturalmente, o impacto socioeconómico resultante do retardar da intervenção também se fará sentir. O ângulo pelo qual se olha para a questão desvia-se do essencial, ao centrar a sua preocupação no dinheiro que se pode poupar ao invés do sofrimento que se poderia poupar.  Se tivermos que chegar ao local certo pelo caminho errado, que seja, mas nunca esquecendo que invertendo as prioridades, ou seja, pôr o dinheiro à frente, terá custos incalculáveis. 


"Não fazer prevenção da doença mental em idade escolar ou tratar crianças e jovens quando apresentam os primeiros sintomas de doenças psiquiátricas como depressão, ansiedade ou fobias pode significar a longo prazo, para um país como Portugal, uma redução de 1,4% no rendimento disponível bruto das famílias. Parece uma variação pequena, mas tendo em conta os dados de 2012 para este indicador, trata-se de uma perda anual de 1,6 mil milhões de euros." Continuar a ler aqui


Psicoterapia