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segunda-feira, 5 de maio de 2014



(...) mãos fechadas, é assim que nascemos, pensou ele, com os punhos cerrados, o meu filho não agarra em nada senão nele mesmo, mas aos poucos aprenderá a abri-las, aprenderá que para ter coisas é preciso abrir as mãos, só assim se consegue amar, não é (...)

Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz

domingo, 9 de março de 2014

A perda da alteridade



Este vídeo da Save the Children anda a causar furor no mundo, no mundo «civilizado», que o outro não tem YouTube. No YouTube, já conta com quase 20 milhões de visualizações. A apresentação do filme está aqui, dizendo-se que três anos de guerra civil na Síria já custaram a vida a 11.000 crianças. Há um milhão de crianças refugiadas. Mas, por mais que a estatística nos arrepie, este filme, que segundo me parece representa o que seria o crescimento e o dia-a-dia de uma das «nossas» crianças se vivesse na Síria, é o nos que causa mais incómodo e indignação. Como se, para nos sentirmos sírios, necessitemos de ser figurados como «nós», ocidentais e caucasianos, vivendo nas nossas cidades, nas nossas escolas, andando nas nossas ruas e saltando por parques relvados. Talvez isto seja a prova de que perdemos o sentido da alteridade, a capacidade de nos colocarmos por inteiro na posição do outro – e que só através da representação dos outros como «nós» somos capazes de nos comover e impressionar. O mundo é um lugar estranho.



psicologia clínica

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O drama da intergeracionalidade


“A sua mãe ama-o com uma ternura até aí desconhecida. A princípio tem dificuldades em voltar a deitá-lo depois de o alimentar, especialmente porque, nessas alturas, ele se põe a chorar tão desesperadamente. MAS ELA ESTÁ CONVENCIDA DE TER QUE O FAZER PORQUE A SUA MÃE LHE DISSE (E ELA DEVE MESMO SABÊ-LO) que o filho seria mimado e daria problemas mais tarde se ela fosse condescendente agora… Ela hesita. O seu coração sente-se atraído pelo filho, mas ela resiste e continua afastar-se. Ainda agora mudou-lhe as fraldas e deu-lhe de comer. Por isso tem a certeza de que, na realidade, NADA lhe falta; e deixa-o a chorar até se cansar”

Jean Liedloff

The Continnum Concept

psicologia clínica

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Modernices

Não tenho em boa conta os Experts em crianças. Eles que me desculpem, não se trata de nada pessoal, mas os estragos que têm produzido são consideráveis e proporcionais às “teorias” que desenvolvem. A forma como surgem, se disseminam e se fixam certas crenças culturais de como cuidar das crianças, quase sem questionamento, também é uma questão interessante.

A parentalidade é uma das tarefas mais difíceis e intensas que é colocada ao ser humano, não só pelas exigências, principalmente, emocionais, mas também porque remexe com as nossas próprias experiências de termos sido cuidados pelos nossos pais.

Entre as formas de lidar com medos, inseguranças e até algum desespero, inerentes à parentalidade, está o aferrar a certas crenças colhidas aqui e acolá. Naturalmente, os pais fazem aquilo que consideram ser melhor para os filhos, e fazem-no na convicção de que está “correcto”. Gostam dos filhos e procuram dar-lhes o melhor que podem e sabem.

O instinto natural de cuidar quando bloqueado pelas dúvidas abre espaço para a crença e não faltará quem, com a maior das generosidades, venha dizer como se faz. Então, a mãe, a verdadeira especialista, deixa uma via aberta para a crença e a expertise de que alguns se fazem donos.

Como refere Darcia Narvaez, em “Modern parenting may hinder braindevelopment, research shows”, certas práticas tornaram-se comuns na nossa cultura. Entre as mais habituais estão o fechar as crianças nos quartos e o retardar a resposta a um bebé agitado, inquieto que reclama por cuidados, para que não fique estragado com mimos.

A amamentação, a resposta pronta ao choro, o contacto corporal constante são, segundo Narvaez, práticas parentais ancestrais que, como se conclui das investigações, contribuem para o desenvolvimento cerebral, para a formação da personalidade e a saúde em geral, mas que fruto de “práticas modernas” foram esquecidas, caíram em desuso e como corolário disso surgiu uma epidemia de doenças mentais nas crianças: distúrbio hiperactivo com défice de atenção, depressão, ansiedade, etc.

As crianças são diferentes umas das outras, e o que funciona para uma pode não ser o melhor para outra. O “segredo” está na capacidade de a cada momento procurar compreender o que a criança nos quer dizer com um choro, com uma birra ou com ataque de fúria. Pais e filhos criam o seu próprio dialeto e é nessa aprendizagem sem dicionário que se inscreve, com rasuras e erros de interpretação, o texto, que lido e relido e tantas vezes reescrito, que vulgarmente chamamos vida.



psicologia clínica

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Está um monstro debaixo da cama… só não vê quem não quer




Para as crianças é muito difícil expressar os seus sonhos maus/pesadelos e uma das razões, directa ou indirectamente, são os pais. Quem mais? Pobres pais…

Indirectamente porque o sonho pode ter como personagem os próprios pais: “A mãe enlouquecida que fecha o filho dentro de um armário escuro”; O pai transformado em monstro persegue a filha com uma faca da cozinha”; A mãe/bruxa com os olhos vermelho incandescente incendeia a cama onde o filho dorme”. Como conseguirá a criança contar estes sonhos aos pais onde eles aparecem como criaturas terríveis? De uma maneira geral as crianças sentem que estes sonhos não serão bem aceites pelos pais. E, quantos pais conseguiriam lidar com sonhos desta natureza? Não é fácil, à que dizê-lo.

Por outro lado, temos os pais que acordados a meio da noite, se confrontam com: “há um monstro debaixo da cama”; está alguém atrás do armário”, e a resposta é: “isso não é nada, é um pesadelo, dorme que isso já passou”.

Se a criança viu o monstro, então ele existe. E se ele existe, melhor será perguntar: “como era esse monstro?”; “o que é que ele estava a fazer?”; “ainda está aqui?”; “vamos correr com ele daqui”.

Se os pais não se disponibilizam a entrar no sonho, no espaço assustador, as crianças podem concluir que ninguém acredita nelas ou que os pais também estão assustados e por isso incapazes de as proteger. “Só me tenho a mim para me proteger”. Assim pode iniciar-se um afastamento dos pais, um isolamento em relação ao mundo que a rodeia, pois há coisas sobre as quais não se pode falar, coisas indizíveis, impossíveis de serem partilhadas. O mundo começa a fechar-se e nesse mundo, muitas vezes a criança precisa criar – um outro – dentro dela própria que a proteja.

Quando o terror não pode ser compartilhado a solidão ganha espaço. Estas experiências vividas sem testemunhas, levarão a criança a questionar até que ponto poderá partilhar a raiva, a mágoa e o sentimento de abandono. Impossibilitada de se fazer ouvir, gritará alto com maus resultados escolares, violência com os colegas, isolamento, alergias e mais alergias.

A criança gritará porque é a única forma que tem de se fazer ouvir, mas dramaticamente, não é porque grita que será ouvida. Será tratada, porque está doente e doente permanecerá até ser ouvida.



psicologia clínica

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Dependência do Terapeuta

É frequente ouvir-se falar do receio de ficar dependente do terapeuta. A questão é mais complexa do que à partida se pode supor e, para além do mais, está intimamente relacionada com a história de cada um. No entanto, costumo dizer, que uma boa dependência é essencial para obter a independência. É exactamente a boa dependência (matriz de uma boa relação afectiva pais/filhos), ao invés da dependência tóxica (má relação/incapacitante) que permite rumar à autonomia. O ser humano é frágil, e é-o, ainda mais, quando nasce e está completamente dependente dos pais/cuidadores. É exactamente a partir daqui, desta dependência inicial, que se começa a traçar o caminho para a autonomia. Mas, infelizmente, nem sempre tudo corre bem. Muitas vezes, mesmo correndo mal inicialmente, a capacidade de resiliência da criança associada à maior disponibilidade emocional dos pais permite superar falhas iniciais. Noutros casos assiste-se a tentativas desesperadas/dramáticas de procura de autonomia por todas as formas possíveis e imaginárias que, infelizmente estão destinadas ao fracasso, pois nenhuma destas tentativas dá um significado emocional/suprime/corrige/transforma a vivência de uma má relação de dependência.



Psicoterapia

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Falar sobre a morte com as crianças

Não existem fórmulas para falar de assuntos complicados com as crianças. Na maior parte das vezes os nossos medos contaminam a nossa capacidade de os abordar. Como sempre acontece, a honestidade é o que funciona melhor quando se fala sobre a morte. E porque não dizer que a honestidade é sempre o melhor quando se fala com as crianças sobre qualquer assunto!

Sejam honestos convosco e com as crianças

World can be a very scary place and bad things happen….



 
  psicologia clínica

domingo, 9 de junho de 2013

A realidade adora humilhar a ficção


E se um dia o médico dissesse:

- Vamos parar com a medicação do seu filho, ele não está doente, o transtorno do défice de atenção com hiperactividade não existe, é uma doença inventada.

INVENTOR OF ADHD'S DEATHBED CONFESSION: "ADHD IS A FICTITIOUS DISEASE"

Fique tranquilo, isso não vai acontecer, felizmente, o seu filho contínua doente!

O seu médico pode ser considerado tão vítima quanto você, mas situa-se numa escala de responsabilidade diferente. A um médico exige-se muito mais conhecimento e capacidade de questionar um diagnóstico do que se exige a um pai. Apesar disso, existem muitos pais que consideram que os diagnósticos feitos aos seus filhos não se justificam.


Um conhecimento mais aprofundado e rigoroso do funcionamento mental das crianças e até algum senso comum, levaria os técnicos a questionar, por exemplo, o que se passa na família. Está tudo bem com os pais? Estão a divorciar-se? Os pais estão a sofrer com o desemprego? Nasceu um irmão? Morreu um avô? A criança perdeu os amigos porque mudou de escola? Etc. etc. … Imagino que tudo isto esteja a parecer óbvio. Enganem-se, isto não é relevante. O importante é: “nunca está quieto, anda sempre nas nuvens, está sempre desatento, os resultados na escola estão piores….” Qual é o interesse em saber se a criança mudou de escola? Não há nada a fazer, não podemos voltar para a escola antiga, logo a criança sofre de TDAH.


Tudo aquilo que os pais descrevem aos médicos é real, está efectivamente a passar-se com os seus filhos, não é uma invenção, somente, não é uma doença mental.



Psicoterapia

Echolilia: Sometimes I Wonder



O fotógrafo norte-americano Timonthy Archibal através de uma série de imagens retrata com enorme sensibilidade o autismo. “Echolilia: Sometimes I Wonder”, é o nome do ensaio onde Timonthy apresenta o seu próprio filho em situações quotidianas.

De acordo com Archibald, a ideia para a sessão surgiu pela necessidade de fazer algo de concreto por seu filho Eli, que completou 8 anos recentemente. Ao contrário de muitos pais que fotografam os seus fazem filhos sorridentes ou em situações graciosas, optou por um registo intimo tentando captar a essência.

Aqui





psicologia clínica

terça-feira, 23 de abril de 2013

No colo aprendi a amar

Num post anterior dei conta de um estudo da FPCE-UC onde se concluía que: “Brincar 10 minutos diários com os filhos em idade pré-escolar, sem direito a fazer mais nada em simultâneo, e de forma cooperativa, contribui para reduzir os distúrbios de comportamento, como p. ex., hiperatividade, défice de atenção, oposição (a criança opõe-se a qualquer ordem do adulto) e desafio e agressividade.”

Agora surge um estudo desenvolvido no Japão pelo Dr. Kumi Kuroda (Riken Brain Science Institute) com resultados, passe a ironia, absolutamente inesperados: os bebés acalmam quando são colocados no colo.

Durante décadas os pais foram bombardeados com dezenas de teorias estapafúrdias que ensinavam a cuidar dos filhos. Os especialistas na matéria, pediatras e psicólogos, venderam milhares de livros “revolucionando” a forma de educar. Técnicas para lidar com choros, birras etc., foram desenvolvidas com base em preconceitos (e muita ciência, sempre muita ciência) e, invariavelmente, descentrando-se do principal: “A criança”.

Resultado: os pais perderam a espontaneidade, a sua capacidade instintiva de cuidar (que passa de pais para filhos). Em vez de se desenvolver um vínculo seguro através do estabelecimento de uma boa relação - objectivo primeiro -, instrumentalizou-se a relação humana precoce. É um exagero dizer que os inúmeros diagnósticos de hiperactividade estão relacionados com este tipo de relação, até porque muitos desses diagnósticos estão errados, mas como a sabedoria popular nos ensina: “quem semeia ventos colhe tempestades”.

Nunca imaginei poder dizer que estes estudos são muito bem-vindos, nem imaginei sequer, que fossem desenvolvidos e que tivessem esta divulgação. Mas eles aí estão, para nos dizerem o que todos sabíamos.


psicologia clínica

terça-feira, 16 de abril de 2013

Chover no molhado ou, nem por isso….

Numa fase em que parece que tudo tem que ser estudado, tem que ser comprovado para que as pessoas prestem alguma atenção e, quem sabe, as ponham em prática, acho bem que saiam estas notícias. Mas também devemos colocar a questão: Isto é realmente uma conclusão nova? Não sabíamos todos isto? Então desculpem que diga, se não sabiam deviam saber!

“Brincar 10 minutos diários com os filhos em idade pré-escolar, sem direito a fazer mais nada em simultâneo, e de forma cooperativa, contribui para reduzir os distúrbios de comportamento, como p. ex., hiperatividade, défice de atenção, oposição (a criança opõe-se a qualquer ordem do adulto) e desafio e agressividade, comprova um estudo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.”

O estudo foi efectuado com crianças com problemas de comportamento diagnosticados e, segundo os resultados, com sucesso, pois verificou-se uma redução de sintomatologias de hiperatividade, défice de atenção e oposição e desafio, agressividade e impulsividade.

Embora o estudo se tenha focado na intervenção em famílias de crianças com diagnóstico clínico, a investigadora defende que o programa é também essencial para atuar «ao nível da prevenção de futuros comportamentos desviantes. Todos os pais deveriam ter acesso gratuito ao programa nos centros de saúde, tal como têm acesso a vacinas, ou nos jardins-de-infância».

A investigadora Maria Filomena Gaspar defende que o programa é também essencial para actuar «ao nível da prevenção de futuros comportamentos desviantes”. Desculpem colocar outra questão: Se os pais brincassem mais com os filhos, colocassem regras e limites não se evitariam muitos diagnósticos clínicos?

Se forem precisos estudos para nos dizer que temos que brincar com os nossos filhos, estamos mal, estamos muito mal!


psicologia clínica

terça-feira, 19 de março de 2013

“Crónico” quer dizer para a vida toda?


O artigo Why ADHD is Not Just a Problem for Kids, publicado na revista Time começa com uma frase bastante enigmática, que ainda não consegui descodificar “The effects of attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD) can extend well beyond childhood, according to the latest research”.

 Os efeitos? Poderia ficar aqui às voltas com os “efeitos” o resto do dia, mas provavelmente a jornalista não estava muito ciente do que estava a escrever, na verdade, até é desculpável, uma vez que as citações de um dos autores do estudo são bastante ambíguas para não dizer, tendencialmente erróneas.

Num estudo realizado por pesquisadores do Hospital infantil de Boston e da Mayo Clinic, concluiu-se que 29,3% das crianças às quais foi diagnosticado distúrbio da hiperactividade com défice de atenção (TDAH), ainda o apresenta em adulto, juntamente com o aumento da taxa de outros problemas psiquiátricos.

Só 29,3%? Tendo em conta que o intervalo considerado anteriormente ia dos 6% aos 66%, o valor até não é muito mau.

W. Barbaresi, um dos autores do estudo, refere com aparente pesar que se banalizou a questão e que temos que reconhecer que a TDAH é uma doença crónica. E assim, num abrir e fechar de olhos, condenou milhares de crianças para o resto da vida ao simpático rótulo de “doentes mentais”.

Barbaresi, com a sua autoridade científica refere: “temos que parar de banalizar a TDAH como sendo apenas um problema de comportamento na infância”. Mas então, é um problema de comportamento ou uma doença? Se é apenas um problema de comportamento porque se estão a drogar crianças como se fosse uma punição? - Se não te portas bem ponho-te a tomar Ritalina!

O Sr. Barbaresi sabe muito bem que não há qualquer tipo de banalização, muito pelo contrário, a cada esquina está uma criança com TDAH. Milhões no mundo inteiro. A banalização está exactamente na forma como se atribui um diagnóstico que condena uma criança para a vida toda.

O que realmente preocupa muito o Sr. Barbaresi - a tal banalização - é o receio que os pais, quando os filhos crescerem, decidam deixar de os medicar, ou eles, por iniciativa própria, deixem a medicação. Mas pode dormir descansado, a malha é tão apertada que só alguns conseguiram escapar.

Como provam os dados, dos adultos que tinham TDAH 81% apresentava pelo menos mais um transtorno psiquiátrico adicional. Dos que não apresentavam sinais da doença, 47% tinha pelo menos mais um diagnóstico psiquiátrico.

Para terminar o Sr. Barbaresi escancara as portas do inferno: “Temos que parar de banalizar o TDAH como sendo apenas um problema comportamento da infância. A natureza e duração deste estudo mostram que temos de reconhecê-lo como um problema de saúde crónico grave que merece muito mais atenção do que tem recebido (…) o legado e as implicações a longo prazo de um diagnóstico de TDAH não foram realmente consideradas e estudadas de forma adequada, uma vez que a maioria dos médicos tendem a pensar a condição como afectando principalmente crianças, que tendem a superar uma vez que atingem a idade adulta.”

O que nos deve preocupar muito são os Srs. Barbaresis, que de ânimo leve e com uma preocupação perversa, distorcem a ordem das coisas. O que o Sr. Barbaresi não conclui, nem nunca irá concluir, mas que os resultados comprovam é que quando a criança cai nas malhas da TDAH arrisca-se com alta probabilidade a ser um doente mental crónico.

Desculpem o sublinhado: “crónicos” quer dizer, para a vida toda. TODA.


psicologia clínica

segunda-feira, 4 de março de 2013

Elogios – melhor que receber só mesmo merecer


Há coisas onde as crianças não diferem muito dos adultos: a satisfação de receber um elogio. Em ambos os casos o elogio pode não ser merecido, mas no que diz respeito aos filhos, os pais têm sempre um elogio “gratuito” para um poema horrível, para uma performance musical de arrepiar ou para um golo a 20 metros da baliza.
– Confiança -, dizem. – É preciso que ganhem auto-confiança para triunfarem na vida. Será que o elogio incondicional gera confiança ou dependência?
As crianças e os jovens gostam de sonhar com conquistas mirabolantes e aplausos intermináveis. No entanto, fazem-no muito mais pelo prazer do devaneio do que pelo desejo real de concretização. Por seu lado, os pais, investem (por vezes na pior acepção da palavra) de corpo e alma nos sonhos dos filhos (ou seus) exponenciando os seus dotes de forma desmesurada.
Os pais estão convencidos que para os filhos triunfarem precisam confiar cegamente nas suas qualidades, esquecendo que sem esforço nada se consegue. Assim, mesmo sem se justificarem, os pais desfazem-se em aplausos.
O problema é que os elogios incondicionais em vez de produzirem auto-confiança provocam dependência: os filhos ficam dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. Escravos desta situação, invertem as prioridades: em vez de se esforçarem na concretização dos seus desejos, buscam os elogios.
Hoje, os filhos são o centro da vida de muitos pais e, ainda que encontremos aí um enorme altruísmo, na verdade, está também um grande vazio, que os pais procuram preencher através dos filhos. Isto acaba por gerar uma  dependência desigual: os filhos tornam-se importantes para os pais e os pais indispensáveis para os filhos. Cada passo que o filho dá tem que ser antecedido de um sms de autorização/aprovação.
A visão actual sobre as crianças é muito diferente e, como normalmente acontece, para as compensar de todo o mal que lhes provocámos, passa-se para o outro extremo: endeusamento. Talvez as coisas não sejam assim tão simples e esse endeusamento tenha um preço elevado e, já lhes esteja a ser cobrado.
As crianças são o futuro, é incontestável. Não quererá isso também dizer que lhes colocamos a responsabilidade de compensarem as nossas falhas e fracassos? Não andaremos à procura de um orgulho retroactivo?

psicologia clínica

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Amigos imaginários

Os amigos imaginários não se constituem como alucinações que a criança vê fora de si, embora, em alguns casos, isso possa acontecer. As crianças acreditam na sua existência real, procuram a sua companhia e conversam com eles. Estes amigos imaginários ao auxiliarem a criança na elaboração de angústias e ansiedades têm um papel importante na constituição do Eu. Estes também podem surgir quando a criança experimenta uma perda real ou fantasiada. O amigo imaginário pode desdobrar-se em múltiplas personagens que actuam num teatro interno. À medida que o Eu da criança se estrutura e vai sendo capaz de fazer frente a conflitos e aspectos contraditórios eles tendem a desaparecer. Em alguns casos (raros), quando as condições para o seu desaparecimento não se verificaram eles permanecem, tornando-se aspectos cindidos da personalidade.

Numa fase em que as crianças têm poucos amigos reais, os imaginários desempenham um papel importante na ampliação do mundo social da criança. Através dos vários papeis que os amigos imaginários vão desempenhando a criança vai experimentando sobre vários pontos de vista as relações humanas no mundo dos adultos. À medida que se ampliam o número de amizades, os amigos imaginários vão-se tornando menos interessantes até ficarem para trás. Isto não quer dizer que perante uma dificuldade, uma desilusão, a criança não recorra esporadicamente a ele para partilhar a tristeza, ou descarregar a raiva que está a sentir. Às vezes fazem muita falta!


psicologia clínica