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terça-feira, 22 de julho de 2014



"Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu génio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é."

Fernando Pessoa.



Psicoterapia

domingo, 27 de abril de 2014

Liberdade


Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

No bafejar das auroras
no oceano nos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome

Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Por poder de uma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te

Liberdade.



Paul Éluard

trad. Jorge de Sena

domingo, 16 de março de 2014

Retornos



Retornos

Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.


SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.



Psicoterapia

terça-feira, 4 de março de 2014

Os medos


"É a medo que escrevo. A medo penso,
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo".



José Cutileiro



Psicoterapia

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Portas entreabertas



Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.


Cecília Meirelles









psicologia clínica

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Felizes os normais


Felizes os normais, esses seres estranhos,
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbedo, um filho delinquente,
Uma casa em lado nenhum, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorante,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rin-tin-tins e os seus sequazes, os que claro que sim, faça favor,
Os que ganham, os que são queridos até ao punho,
Os flautistas acompanhados por ratos,
Os vendedores e os seus compradores,
Os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.

Mas que abram alas aos que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais bêbedos
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem o seu sítio no inferno, e basta.
 


- Roberto Fernández Retamar
(tradução de Vasco Gato)



psicologia clínica

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Silêncio, a arte de conversar



     arte do chá

        ainda ontem
     convidei um amigo
         para ficar em silêncio
     comigo


        ele veio
     meio a esmo
         praticamente não disse  nada
     e ficou por isso mesmo



      Paulo Leminski

     (Poema publicado em Distraídos venceremos, em 1987)


Psicoterapia

sábado, 2 de novembro de 2013

Transbordo













"Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca, corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.
Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber.
Pra caber mais, derramo por nada, derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei (...)
Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso."


Viviane Mose

terça-feira, 16 de julho de 2013

Aquele que quer morrer


"Aquele Que Quer Morrer"

"Aquele que quer morrer
é aquele que quer conservar a vida,
só o que infinitamente pára se move, fugindo,
o que regressa nunca saiu do mesmo sítio, e só esse regressa

ao mesmo sítio, no limiar da sua Morte,
encontrando todas as coisas no mesmo sítio
e parando no princípio de tudo.
Para aqui chegar tive que percorrer tudo.

A falta das palavras e do
silêncio e da falta de isso
é o que encontra o seu começo e a sua memória
e fala finalmente sobre todas as coisas."

Manuel António Pina

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Poesia - da consciência das palavras à consciência de si

Segundo um estudo da Universidade de Liverpool, ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e contribui para a auto-reflexão.

Os investigadores descobriram que a poesia, em particular, afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas e as emoções, favorecendo o re-pensar das vivências, e assim, a compreende-las noutra perspectiva.

Philip Davis refere que "A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos das nossas recordações".

O estudo mostra que a literatura que reflete sobre a condição humana é mais benéfica que os livros de auto-ajuda, ou literatura “light”, que ao invés de abrir novas vias de pensamento, reforçam o conhecido, o previsível, e assim, acabam por não acrescentar muito à reflexão e ao crescimento mental.

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