sábado, 16 de março de 2013

O Alienista

Neste brilhante conto de Machado de Assis, publicado em 1882, o conceituado médico Simão Bacamarte resolve dedicar-se à psiquiatria dando início a um estudo sobre a loucura na Vila de Itaguaí. Simão Bacamarte, em nome da ciência, dedica-se a classificar os moradores da vila através da observação cuidada dos seus comportamentos, medindo a loucura nas suas variações e graus. À medida que ia diagnosticando os residentes de Itaguaí, Bacamarte resolvia interná-los na Casa Verde, fundada, exactamente, com esse fim. Imbuído pelos rigores da ciência acaba por internar a maioria dos habitantes da vila, inclusive, sua mulher, D. Evarista. Quando Simão Bacamarte constata que o único sadio era ele, é atormentado por uma questão ética, e como era o que se desviava do padrão, decide libertar todos o loucos e internar-se na Casa Verde, onde passados dezassete meses, morre solitário.

Infelizmente, aqueles (American Psychiatric Association) que se encontram com a divertida tarefa de criar classificações, não têm – nem podiam ter, porque são demasiados perturbados para olhar para si mesmos – o sentido ético de Simão Bacamarte, para procurar internamento. Tal como Bacamarte, imbuídos por um distorcido rigor científico, continuam a classificar os comportamentos humanos, com a lupa da moralidade, do desrespeito pela singularidade do ser humano e, como é óbvio, a servir, sem nenhum pudor, a indústria farmacêutica.

O Alienista, publicado há mais de 120 anos tem um inquestionável carácter profético. Não deixa de ser curioso que é exactamente na era das “liberdades individuais” que se assiste a um ataque a tudo o que sai fora de uma certa normalidade (cada vez mais apertada), ao sujectivo, e dessa forma, impedindo que se revele e se manifeste a alteridade.

psicologia clínica

quinta-feira, 7 de março de 2013

E se parasse de fazer perguntas parvas!?


Se a psiquiatria clássica, de forma geral, esteve às voltas com fenômenos psíquicos não codificáveis em termos do funcionamento orgânico, guardando espaço à dimensão enigmática da subjetividade, a psiquiatria contemporânea promove uma naturalização do fenômeno humano e uma subordinação do sujeito à bioquímica cerebral, somente regulável por uso de remédios. Há aí uma inversão não pouco assustadora, pois na lógica atual de construção diagnóstica, o remédio participa da nomeação do transtorno. Visto que não há mais uma etiologia (estudo das causas da doença) e uma historicidade a serem consideradas, pois a verdade do sintoma/transtorno está no funcionamento bioquímico, e os efeitos da medicação dão validade a um ou outro diagnóstico. 
psicologia clínica

terça-feira, 5 de março de 2013

Não basta querer, ver e saber


O amor e o ódio, a relação ou a sua ruptura não dependem apenas do querer, do ver e do saber e não são mera consequência linear da transição existencial, do acidente ou do trauma, nem o simples resultado do desenrolar do programa genético ou da expressão e reacção do corpo.

São também, e essencialmente, produto do conflito interior: dos movimentos do desejo egoísta e omnipotente e da pulsão bruta em busca do prazer cerceados pelo medo, a culpa e a vergonha que a percepção subjectiva da realidade social fabricam. O aparelho psíquico é um laboratório de elaboração da experiência, previsão dos acontecimentos e construção do projecto que funciona a maior parte do tempo abaixo do limiar de consciência, e cujo funcionamento os sonhos, o devaneio, a associação livre, os actos falhados e outras emergências do inconsciente nos informam.

Luz e trevas, razão e afecto, realidade e fantasia enquadram, movem e orientam a pessoa em situação. E se o pensamento lógico e operante (…) permite adaptação ao real, é o livre fantasiar que, abafando por momentos o ruído do saber acumulado, gera, no silêncio feito, novo conhecimento.

A. Coimbra de Matos

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Psicoterapia

segunda-feira, 4 de março de 2013

Elogios – melhor que receber só mesmo merecer


Há coisas onde as crianças não diferem muito dos adultos: a satisfação de receber um elogio. Em ambos os casos o elogio pode não ser merecido, mas no que diz respeito aos filhos, os pais têm sempre um elogio “gratuito” para um poema horrível, para uma performance musical de arrepiar ou para um golo a 20 metros da baliza.
– Confiança -, dizem. – É preciso que ganhem auto-confiança para triunfarem na vida. Será que o elogio incondicional gera confiança ou dependência?
As crianças e os jovens gostam de sonhar com conquistas mirabolantes e aplausos intermináveis. No entanto, fazem-no muito mais pelo prazer do devaneio do que pelo desejo real de concretização. Por seu lado, os pais, investem (por vezes na pior acepção da palavra) de corpo e alma nos sonhos dos filhos (ou seus) exponenciando os seus dotes de forma desmesurada.
Os pais estão convencidos que para os filhos triunfarem precisam confiar cegamente nas suas qualidades, esquecendo que sem esforço nada se consegue. Assim, mesmo sem se justificarem, os pais desfazem-se em aplausos.
O problema é que os elogios incondicionais em vez de produzirem auto-confiança provocam dependência: os filhos ficam dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. Escravos desta situação, invertem as prioridades: em vez de se esforçarem na concretização dos seus desejos, buscam os elogios.
Hoje, os filhos são o centro da vida de muitos pais e, ainda que encontremos aí um enorme altruísmo, na verdade, está também um grande vazio, que os pais procuram preencher através dos filhos. Isto acaba por gerar uma  dependência desigual: os filhos tornam-se importantes para os pais e os pais indispensáveis para os filhos. Cada passo que o filho dá tem que ser antecedido de um sms de autorização/aprovação.
A visão actual sobre as crianças é muito diferente e, como normalmente acontece, para as compensar de todo o mal que lhes provocámos, passa-se para o outro extremo: endeusamento. Talvez as coisas não sejam assim tão simples e esse endeusamento tenha um preço elevado e, já lhes esteja a ser cobrado.
As crianças são o futuro, é incontestável. Não quererá isso também dizer que lhes colocamos a responsabilidade de compensarem as nossas falhas e fracassos? Não andaremos à procura de um orgulho retroactivo?

psicologia clínica

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Normopatia - a doença da normalidade



As doenças mentais não são nem doenças, no sentido de um processo mórbido natural, que se infiltra no cérebro dos indivíduos seguindo um curso inexorável e previsível; nem mentais, no sentido de uma deformação da personalidade. As doenças mentais, ou melhor, seus sintomas, realizam possibilidades universais do sujeito, que se tornam coercitivamente particulares ou privativamente necessárias. Em outras palavras, um sintoma é um fragmento de liberdade perdida, imposto a si ou aos outros. Por isso há algo que concerne a todos, universalmente, em cada uma das formas particulares de sofrimento. Assim, a normalidade é apenas normopatia, ou seja, excesso de adaptação ao mundo tal como ele se apresenta e, no fundo, um sintoma cuja tolerância ao sofrimento se mostra elevada.



Christian Ingo Lenz Dunker – O real e a verdade do sofrimento 

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Psicoterapia

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma certa anormalidade



“Personne ne se rend compte que certaines personnes dépensent beaucoup d'énergie simplement pour Camus être normale.” - Albert Camus

"Ninguém percebe que algumas pessoas gastam uma enorme energia, simplesmente, para serem normais." - Albert Camus

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psicologia clínica

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Inato ou adquirido?




psicologia clínica

Repressão

A Repressão e o Reprimido
Num sentido lato, a repressão é designada como a operação psíquica tendente a fazer desaparecer da consciência um conteúdo (ideia, afecto, etc.) desagradável ou inoportuno. Nesse sentido o recalcamento seria uma modalidade especial de repressão.
No sentido mais frequente, a repressão, opõe-se, sobretudo, do ponto de vista tópico ao recalcamento, quer pelo carácter consciente da operação, quer pelo facto do conteúdo reprimido se tornar simplesmente pré-consciente e não inconsciente.
Segundo Laplanche & Pontalis, a repressão seria um mecanismo consciente actuando ao nível da “segunda censura”, que Freud situa entre o consciente e o pré-consciente; tratar-se-ia de uma exclusão para fora da consciência actual, e não da passagem de um sistema (pré-consciente-consciente) para outro (inconsciente).

Do ponto de vista dinâmico, as motivações morais desempenham um papel determinante na repressão.
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psicologia clínica

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A casa


Esta é uma impressionante foto de Teresa, uma menina polaca, sobrevivente de um campo de concentração. No quadro está desenhado aquilo que ela descreveu como sendo a sua casa. A casa, que simboliza o lugar onde são procurados o afecto e a segurança, aparece aqui representada de forma completamente caótica. Não há paredes, portas, janelas ou telhado. É provavelmente, um dos desenhos que melhor descreve a loucura que é a existência de um campo de concentração.

O desenho infantil é uma técnica usada na psicoterapia de crianças. É um instrumento de auxílio à barreira da linguagem. O desenho permite a emergência de subtilezas que estão para além da capacidade verbal. Através dos desenhos e sua interpretação subjectiva, procura-se chegar aos significados, às representações da realidade vivida pela criança.


Photo by David Seymour, 1948


psicologia clínica

Amigos imaginários

Os amigos imaginários não se constituem como alucinações que a criança vê fora de si, embora, em alguns casos, isso possa acontecer. As crianças acreditam na sua existência real, procuram a sua companhia e conversam com eles. Estes amigos imaginários ao auxiliarem a criança na elaboração de angústias e ansiedades têm um papel importante na constituição do Eu. Estes também podem surgir quando a criança experimenta uma perda real ou fantasiada. O amigo imaginário pode desdobrar-se em múltiplas personagens que actuam num teatro interno. À medida que o Eu da criança se estrutura e vai sendo capaz de fazer frente a conflitos e aspectos contraditórios eles tendem a desaparecer. Em alguns casos (raros), quando as condições para o seu desaparecimento não se verificaram eles permanecem, tornando-se aspectos cindidos da personalidade.

Numa fase em que as crianças têm poucos amigos reais, os imaginários desempenham um papel importante na ampliação do mundo social da criança. Através dos vários papeis que os amigos imaginários vão desempenhando a criança vai experimentando sobre vários pontos de vista as relações humanas no mundo dos adultos. À medida que se ampliam o número de amizades, os amigos imaginários vão-se tornando menos interessantes até ficarem para trás. Isto não quer dizer que perante uma dificuldade, uma desilusão, a criança não recorra esporadicamente a ele para partilhar a tristeza, ou descarregar a raiva que está a sentir. Às vezes fazem muita falta!


psicologia clínica

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Diálogos, monólogos e solilóquios


Às vezes, por muito que um pai queira acabar com o sofrimento de um filho, isso não é possível. O mais que consegue é sofrer com ele. Não, não é uma lamechice, é a puta da realidade.


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Psicoterapia

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A tirania do espírito positivo


Ao ler um artigo no jornal Público – “Cancro:afinal, é permitido chorar”, deparei-me com a expressão: “a tirania do espírito positivo”.
Arregalei os olhos, e disse “Finalmente!”
Para bem de todos, mas principalmente para os doentes que se encontram num enorme sofrimento, desmonta-se a ideia de que o espírito positivo é uma panaceia.
É muito provável que os primeiros (naturais e compreensíveis) sentimentos após um diagnóstico de cancro, sejam de medo, de injustiça, de revolta, de raiva; “Porquê a mim?” Não muito distante destes deve andar a tristeza.
Pode ser que esteja enganado, que esteja só a falar por mim. Pode ser que eu seja um pessimista e por isso não consiga ver o sol a brilhar quando inesperadamente se abre uma janela para a escuridão.
É muito importante reconfortar alguém que está num grande sofrimento, que além do mais, também nos toca profundamente. Mas se conseguirmos resistir às frases feitas e der-mos espaço ao outro para lidar com a sua dor, marcarmos a nossa presença e disponibilidade, então, estamos a ser uma verdadeira ajuda.
Se já reconfortou alguém, usando alguma frase feita, não se preocupe, ainda não é considerado um “tirano do espírito positivo”. Para ser um verdadeiro “tirano”, precisa fazer sentir ao outro que esses sentimentos são maus, que lhe fazem mal, e se não os tivesse, provavelmente, a sua vida seria muito melhor.
“A tirania do espírito positivo”, que se tenta eliminar na oncologia está profundamente enraizada e tem ferozes defensores. Ela encontrará mais seguidores junto dos que estão impossibilitados de ser honestos com o que estão a sentir.
O nosso papel é ajudar o outro a construir uma narrativa sobre a dor, e dessa forma libertá-lo da tirania do espírito positivo.
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psicologia clínica

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Psicanálise e Psicoterapia Relacional - continuação


O termo Psicanálise Relacional foi introduzido em 1983 por Stephen Mitchell e Jay Greenberg no livro Relational Concepts in Pshychoanalysis. Ele desenvolveu-se a partir da convergência de diversas correntes importantes na teoria psicanalítica que se afastaram muito do modelo pulsão/estrutura, no qual as pulsões têm papel central na vida psicológica.

As teorias relacionais postulam que “as relações com os outros constituem os blocos fundamentais na construção da vida mental”.

O termo relacional, tão amplo, inclui interações entre o indivíduo e o mundo social, relações interpessoais internas e externas, autorregulação e regulação mútua, formando, assim, uma ponte entre os espaços interpessoal e intrapsíquico (Lewis Aron, 1996).

O modelo relacional vê as operações da mente como sendo diádicas e interativas na sua natureza; a experiência surge num campo interativo entre pessoas, e a situação analítica é compreendida na psicanálise relacional como sendo moldada pela participação contínua do analisando e do analista, bem como pela construção mútua do significado, da autenticidade e das novas experiências relacionais.

Os antigos padrões relacionais repetem-se, mas espera-se que cada dupla analista-paciente consiga descobrir modos singulares de ir além da situação de aprisionamento ao passado, e consigam construir e negociar novas formas de estarem um com o outro. Busca-se menos a verdade objetiva e mais o significado do que eles sejam capazes de construir.

O modelo relacional reforça a ambiguidade da realidade: cada indivíduo tem seu ponto de vista plausível; todo conhecimento tem como base uma perspectiva, mas há outras perspectivas e outros centros de subjetividade além do nosso (Aron, 1996).

O primeiro e mais importante desvio que levou a teoria psicanalítica a avançar do modelo freudiano de desenvolvimento, de psicopatologia e tratamento do paciente, que era um modelo de “uma pessoa”, para um modelo de “duas pessoas”, ou relacional, foi feito por Ferenczi.

Desde muito cedo, Ferenczi chamou a atenção para o analista como pessoa real, percebida pelo paciente em matizes subtis do seu comportamento e diante das quais o paciente reage. Deste modo, a transferência do paciente não surge exclusivamente de dentro dele; ela é influenciada pelos comportamentos e pelas intervenções do analista.

Segundo Fairbairn, a motivação fundamental dos seres humanos é procurar ligações com os outros. Cada indivíduo molda os seus relacionamentos conforme padrões de relação que trazem internalizados desde os seus mais precoces relacionamentos significativos. Os modelos de ligação com os primeiros objetos tornam-se as formas preferenciais e esperados de relacionamento com novas pessoas.

Os novos objetos amorosos são escolhidos pela sua similaridade aos objetos satisfatórios ou insatisfatórios do passado, e as interações com os novos parceiros desencadeiam os antigos comportamentos esperados. As novas experiências são processadas e interpretadas conforme as antigas expectativas.

Segundo ele, os pacientes não podem abandonar as ligações aditivas aos antigos objetos, a menos que acreditem e confiem que é possível desenvolver novos modos de relacionar-se que, de facto, eles podem ser ouvidos e vistos. Definiu o progresso analítico como sendo o resultado de uma capacidade modificada de se relacionar com os outros (Mitchell e Black, 1983).

O desvio conceptual da abordagem de “uma pessoa” para a abordagem de campo de “duas pessoas” tem, naturalmente, muitas consequências na situação analítica.

O método psicanalítico clássico baseia-se na premissa de que a psicanálise oferece ao paciente um tipo peculiar de experiência, por meio do estabelecimento de uma situação analítica cuidadosamente controlada: o divã, a frequência das sessões, quatro ou cinco vezes na semana, a regra fundamental da livre associação, o analista silencioso na maior parte do tempo e encoberto pelo anonimato são fatores técnicos que possibilitam ao paciente passar por uma experiência que activa antigas recordações e padrões da infância.

O elemento central desta visão é a premissa de que as experiências do paciente em análise se originam a partir do interior do paciente e se expandem no espaço analítico cuidadosamente planejado que a técnica clássica proporciona. Essa premissa torna o modelo clássico essencialmente numa perspectiva de “uma pessoa”. O encontro analítico funciona como uma máquina do tempo, na qual o paciente retorna ao seu passado por deslocamentos temporais da transferência. A pessoa do analista não é importante, já que o seu papel funcional é o de operador da máquina do tempo. Se for competente, o analista vai proporcionar uma função genérica que dá ao paciente a capacidade de experienciar, examinar e compreender mais plenamente seu passado.

A acção terapêutica dentro do modelo relacional depende do estabelecimento de um ambiente seguro no qual cada elemento da dupla contribui com percepções singulares que têm a sua própria experiência compartilhada. À medida que os padrões relacionais do início da vida do paciente vão sendo reencenados dentro do espaço analítico, os laços afetivos patológicos que o prendem a antigos objetos vão ser realçados e mantidos em rigoroso contraste com os relacionamentos novos, e espera-se, mais adaptativos e flexíveis, que paciente e analista lutam para negociar no presente.

Por meio do processo de contrastar, integrar e apreciar os matizes de perspectivas e subjetividades alternativas, diferentes das nossas, é que o paciente e analista constroem – em conjunto – uma visão compartilhada do mundo que existe, além das paredes do self, a partir de duas perspectivas diferentes.



Referências:

Sauberman, P. R. (2009). Psicanálise relacional contemporânea da pulsão para a relação. Rev. bras. psicanál v. 43 n.1 S. Paulo



Psicoterapia

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Buraco da Fechadura



psicologia clínica

Psicanálise e Psicoterapia Relacional - Uma introdução


A Psicanálise Relacional começa a tomar a sua forma actual durante os anos oitenta do século passado, especialmente nos EUA, quando um grupo de autores (Mitchell, Aron, Stolorow, Benjamin Bromberg) procura integrar a tradição relacional (Sullivan, Murray, Kohut) com a teoria britânica das relações de objeto (Balint, Fairbairn, Winnicott).

Trata-se de uma psicanálise anti-cartesiana porque propõe que o mundo seja entendido, principalmente, como uma constelação de relacionamentos que permitem a construção do ser humano individual. A mente não nasce com o indivíduo mas desenvolve-se na interação humana com o meio ambiente. A criança não é apenas um produto do meio ambiente, mas interage com ele, com a sua espontaneidade e inclinações.

Para a teoria freudiana, o ser humano é motivado por impulsos sexuais e agressivos, inata e biologicamente determinados. Para a nova abordagem, no entanto, a principal motivação é a busca de relações com os outros.

As relações iniciais com os cuidadores primários moldam o nosso comportamento, a auto-imagem e a forma de satisfazer os nossos desejos e necessidades, assim,  não podem ser separadas do contexto relacional. Os padrões iniciais de relacionamento tendem a ser reproduzidos posteriormente na interação relacional com os novos companheiros de relação.

Uma das características marcantes da psicanálise relacional está no peso dado à interpretação, ou seja, esta não é considerada o factor terapêutico fundamental. A presença empática do terapeuta, o acompanhamento, o apoio (Winnicott - holding), são factores, no mínimo, tão importantes, como aquilo que em concreto se possa interpretar/dizer ao paciente.

Outro importante factor é redução da assimetria entre o terapeuta e o paciente, ou seja, o terapeuta não se situa numa cúpula de onde emite o seu oráculo, que o paciente deve ouvir com humildade e submissão. Aqui, o paciente nem sempre está errado quando mostra a sua discordância com algo que o terapeuta disse ou fez.



Traduzido e adaptado daqui


Psicoterapia

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Poesia - da consciência das palavras à consciência de si

Segundo um estudo da Universidade de Liverpool, ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e contribui para a auto-reflexão.

Os investigadores descobriram que a poesia, em particular, afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas e as emoções, favorecendo o re-pensar das vivências, e assim, a compreende-las noutra perspectiva.

Philip Davis refere que "A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos das nossas recordações".

O estudo mostra que a literatura que reflete sobre a condição humana é mais benéfica que os livros de auto-ajuda, ou literatura “light”, que ao invés de abrir novas vias de pensamento, reforçam o conhecido, o previsível, e assim, acabam por não acrescentar muito à reflexão e ao crescimento mental.

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psicologia clínica

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A descoberta do vazio e a criação do sentido


Há um momento mais importante do que a primeira palavra ou o primeiro passo de uma criança: a descoberta do vazio. O que fazemos diante dele é também o que nos torna pais e mães.

" - Os filhos dão muita alegria e tudo o mais que se costuma dizer, mas também, e isso não se costuma dizer, dão muita pena, permanentemente, o que não creio que mude nem quando forem maiores. Você vê a perplexidade deles diante das coisas, e isso dá pena. Vê a boa vontade deles, quando estão a fim de ajudar e acrescentar algo próprio mas não podem, e isso também dá pena. Dá pena a seriedade deles e dão pena suas brincadeiras elementares e suas mentiras transparentes, dão pena suas desilusões e também suas ilusões, suas expectativas e suas pequenas decepções, sua ingenuidade, sua incompreensão, suas perguntas tão lógicas e até a ocasional má intenção que possam ter. Dá pena pensar quanto lhes falta aprender e no longuíssimo percurso que têm pela frente e que ninguém pode fazer por eles, apesar de estarmos há séculos fazendo e não vejamos a necessidade de que todos os que nascem devam começar outra vez desde o início. Que sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?" ( “Os Enamoramentos”,  Javier Marías)

Lembro-me do momento exato em que olhei para a minha filha e senti essa dor, que era a dor que eu achava que pudesse ser a dela ou que tinha a certeza de que um dia seria a dela.

Minha filha tinha uns três ou quatro anos e estava sentada no chão tentando brincar. Eu via o seu esforço e via o seu fracasso. Ou talvez apenas estivesse projetando nela o que sabia que seria seu embate mais ou menos eterno. Mas creio que não, acredito que já era angústia o que havia no seu rostinho redondo, já era perplexidade diante da aridez de alguns dias. Lembro-me de que, naquele momento, as lágrimas pingaram dos meus olhos, como de uma torneira mal fechada. Eu soube ali que jamais poderia tapar aquele buraco, que teria de testemunhar para sempre aquela luta íntima na qual cada um de nós está só. Sempre só. Eu assistia a ela desde já, tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder ilusório, debatendo-se com a vida. E para sempre diante dela eu pingaria como uma torneira mal fechada. Era um momento silencioso entre nós – e as cartas já estavam dadas muito antes de nós.

É pelo consumo – e aí possivelmente nunca antes como agora – que se tenta tapar esse buraco aberto no peito dos nossos filhos. Um objeto seguido de outro objeto, a ilusão de que algo foi preenchido com duração cada vez mais curta, o desejo pelo produto seguinte cada vez mais imperativo, a frustração sempre abissal entre um e outro. Com alguma imaginação, é possível enxergar um filme de zumbis nas cenas de shopping, pequenos arrastando grandes por corredores iluminados, em busca não de cabeças humanas, mas de mercadorias para triturar com dentes que não estão na boca.
   
Mas não protegemos nossos filhos deste vazio, não há como protegê-los daquilo que é uma ausência que nos completa. Penso que este é o momento crucial da maternidade e da paternidade. Cada um de nós, que se sabe faltante, diante da falta que grita no filho. Quando me vi diante desse abismo, como a personagem de “Enamoramentos”, ela num momento muito diverso e muito mais limite do que o meu, lembro-me de me sentir envolta em melancolia. Eu soube ali, naquele instante prosaico em que minha pequena filha procurava por algo que talvez não pudesse ser encontrado em nenhum lugar além dela mesma, que eu haveria de conviver com uma falência dali em diante. Minha melancolia não se devia às dificuldades de uma maternidade precoce – mas à certeza de que proteger minha filha era uma missão desde sempre fracassada.

Ao olhar para minha própria filha naquele momento em que eu sabia que a máquina do mundo se abria diante dela para mostrar seu enorme estômago vazio, lembro-me de que, por um momento, pensei em alcançar talvez um outro brinquedo ou lhe oferecer um chocolate (…) Mas meu pensamento não virou gesto. Eu sabia que tudo o que eu podia fazer era me manter em silêncio. Que ser mãe, naquele momento, era ser capaz de vê-la debater-se com o vazio, testemunhar o início de seu longo embate vida adentro. E acho que ali, como deve acontecer com os pais e mães que percebem esse momento exato, uma fissura nova se abriu em mim. Esta que para sempre me faria pingar como uma torneira mal fechada.

“Que sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?” (…) a resposta talvez seja a de que não exista sentido. E exatamente por não existir, só podemos mostrar aos nossos filhos, porque isso é algo que se mostra, não que se diz, que a tarefa de uma vida humana, desde sempre e para sempre, é criar sentido onde não há nenhum. Inventar uma vida é a tarefa que faz de todos nós ficcionistas. E, em geral, uma vida que faz sentido é aquela em que os sentidos são construídos para serem perdidos mais adiante e recriados mais uma vez e sempre outra vez. É o vazio, afinal, que nos faz inventar uma vida humana – e não morrer antes da morte.

É o que fazemos como pais neste momento em que um filho descobre o vazio, um momento mais importante do que a primeira palavra ou o primeiro passo ou o primeiro dente, que também nos torna pais. É preciso aguentar. Saber aguentar e escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser calado com coisa alguma, é um ato profundo de amor. Um momento sem palavras em que nosso silêncio diz apenas que a tarefa de criar uma vida que faça sentido é dele, pessoal e intransferível. E tudo o que poderemos fazer é estar mais ou menos por perto, ainda que nada possamos fazer.


Excertos de: "A dor dos filhos", Eliane Brum
Revista Época 5.11.2012

psicologia clínica

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Não, duas vezes não

As ondas provocadas pelo artigo publicado no New York Times -  What brand is your therapist?, onde Lori Gottlieb  dá conta das dificuldades no exercício da sua profissão de terapeuta, têm-se feito sentir na comunicação social e noutros espaços ligados aos “psis”.

Após a sua formação, Lori tinha a expectativa de poder estabelecer-se, iniciar a sua prática clínica e colher os frutos do investimento pessoal e financeiro: satisfação no trabalho e remuneração justa. Não foi preciso muito tempo para que as suas expectativas fossem goradas pela falta de pacientes que, concluiu, se alargava até aos mais antigos e experientes. Isso, devia-se em parte, às seguradoras que tinham deixado de reembolsar os gastos com as terapias.

Uma nova realidade esperava por Lori; Branding consultants for therapists. Vários colegas seus tinham recorrido ao auxílio de branding consultants para através de estratégias de marketing conseguirem distinguir-se dos concorrentes, tornando-se visíveis ao grande público.

No meio de um conflito entre questões técnicas e éticas acabou por procurar um destes profissionais. Segundo ele, as pessoas já não estavam interessadas nas terapias convencionais, desejavam soluções rápidas e fáceis para os seus problemas e, estavam susceptíveis a propostas mais atraentes. Os terapeutas generalistas - old-school – estavam ultrapassados e o que atraía as pessoas eram especialistas, por exemplo, em cyberbullying e sexting.

Para além disso, para evitar ser considerado frio e distante, era sugerido que o terapeuta, juntamente com o anúncio da actividade profissional, expusesse a sua vida pessoal na redes sociais, principalmente os seus problemas, para que os pacientes se identificassem com eles e assim criassem uma proximidade.

O artigo de Lori é extenso e merece uma leitura atenta porque foca aspectos até aqui pouco abordados e com enormes implicações. Acredito que a escolha de um terapeuta no Google passe pela capacidade de sedução da mensagem, seja através da falsa intimidade ou pelo milagre prometido, e, quiçá, uma atraente foto da terapeuta numa praia das caraíbas, mas temo que o processo nasça inquinado.

Se o terapeuta estiver mais interessado nos seus proveitos financeiros do que no paciente, então, aconselho uma profissão mais leve e rentável. Isto, não implica que se ignore o drama que se está a colocar aos terapeutas, que tanto investiram na sua formação para estarem aptos ajudar e se vêm numa situação desesperante. No entanto, há limites, não vale tudo.

Os terapeutas, para além de serem pessoas como as outras e terem que pagar as suas contas, têm também a responsabilidade de impedir, no mínimo, não contribuir, para que as psicoterapias passem a ser vistas como fórmulas/produtos de consumo, propiciadores de bem-estar imediato e constante, negando a realidade numa atitude delirante. Não é fácil, mas é essencial.

Desde os tempos idos do início das psicoterapias, mérito seja dado a Freud, até hoje, várias mudanças se verificaram. Actualmente, sabe-se que o poder “curativo” está na relação - autêntica - com o outro. Os estudos com bebés mostram que desde o nascimento, aquele pequeno "Ser" procura o outro – a relação –. É a partir do outro que verdadeiramente se nasce e se faz o homem.

Mascarada de múltiplas formas, lá está, a patologia dos nosso dias – o vazio -. A ilusão do preenchimento para esconder a incompletude fornecida por qualquer gadget é efémera, dura até sair o modelo seguinte. As responsabilidades não devem ser atribuídas exclusivamente à publicidade que vende prazer imediato e a fantasia de que tudo é possível com um cartão visa; elas são também de todos nós que fomos sendo alegremente corrompidos pelo desenfreado consumismo como forma de alienação do que nos rodeia.

Se tiver que ficar para trás por não acompanhar os novos tempos, ficarei. Ficarei com as minhas convicções, com aquilo que acredito e tenho a certeza que não ficarei sozinho.


Psicoterapia

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Diz-me quantas vezes fazes, dir-te-ei…

Diante a liberdade sexual crescente, os Senhores do costume, acharam que tinham que dizer qualquer coisa, pegaram na bíblia das patologias, o DSM (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria) e fizeram de sua justiça. Em 1980, na 3ª edição do DSM-III, lá estava a "sexual addiction". Entretanto, na 4ª edição e na 5ª, que será publicada em 2013 a "sexual addiction" desapareceu. Quer isto dizer que deixaram de entrar nas nossas cabecinhas perversas (vida sexual) e prescindiram de nos dizer o que é certo e errado, normal ou patológico? Com certeza que não! Imbuídos da sua autoridade moral juntaram-se para declarar que não passamos de uns tarados (espero eu).

A cada nova edição do DSM a linha que separa o normal e o patológico esbate-se, e comportamentos e afectos num instante se transformam em patologia a necessitar de tratamento.

Agora, segundo se prevê, a “sexual addiction” foi rebatizada, passando a chamar-se “transtorno hipersexual”. Dentro deste gravíssimo distúrbio psiquiátrico vamos encontrar o EXCESSO de fantasias, impulsos e comportamentos sexuais acima da frugalidade recomendada.

Quando entramos nos critérios quantitativos somos levados a pensar que estes “experts” não são desprovidos de humor. Assim, se você passar entre 30 minutos a 2 horas por dia absorvido por fantasias ou desejos e quiçá os realiza, ora masturbando-se, ora com um parceiro (cuidado – masturbação entre parceiros não está incluída), entre duas a cinco vezes por semana, fique descansado, o seu caso é de severidade média!

Tudo isto não passaria de uma piada, se não fosse verdade.



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psicologia clínica

Não é Loucura, Senhor; é Pobreza

"Le contaron al gobernante de un país que todas las mañanas un hombre, al parecer loco, llegaba arrastrando sus andrajos hasta el borde de un basural en las afueras de la ciudad, instalaba ahí un fogón de piedras y se ponía a preparar sus alimentos en una olla; que en realidad la olla siempre estaba vacía y que después el hombre fingía verter parte de los imaginarios alimentos en un plato y simulaba comer. El gobernante, transpirando de sospechas, decidió ver al hombre.

A la mañana siguiente, luego de observar oculto y a cierta distancia lo que hacía el hombre hasta el instante en que se llevaba la primera cucharada a la boca, el gobernante salió de su escondrijo y se acercó, seguido por el silencio de su numerosa comitiva.

-Soy el que gobierna este país- le dijo al hombre.

Sentado al pie del humilde fogón, el hombre levantó la mirada y observó al gobernante, pero no dijo nada. En seguida cogió la olla y otro plato, simuló verter en éste un poco del supuesto contenido de la olla y añadió una cuchara.

-Sírvase, señor- le ofreció el plato al gobernante.

Convencido de que el hombre estaba loco, el gobernante hizo una mueca de enojo y resueltamente comentó:

-Esto es una locura- y se alejó de prisa.

Y no pudo oír que el hombre decía, con voz fatigada y triste:

-No es locura, señor; es pobreza."


Antonio Gálvez Ronceros , "Mirage"
Histórias de trazer os homens, Extramuros Editorial, Lima, 1988.




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psicologia clínica

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ver o mundo através dos olhos do outro


No editorial da British Journal of Psychiatry - The end of the psychopharmacological revolution, Peter Tyrer questiona papel da psiquiatria (psicofarmacologia) na actualidade como disciplina isolada no tratamento da doença mental. Ao “anunciar” o fim da revolução psicofarmacológica estará "anunciar, a queda do mito da cura, através das drogas? Falar em cura implica falar em doença e talvez Thomas Szasz  “Mito da doença Mental” nos ajudasse nesta altura. A cada “fim” nem sempre corresponde um “começo” diferente, e neste caso, mesmo contrariando as evidências, tudo aponta para que o doente e a doença continuem com entidades separadas. Partilho as palavras de Tyrer “Ver o mundo através dos olhos de um paciente nem sempre é fácil, especialmente se o que eles vêem não é o que você vê, mas ele retribui o esforço”, mas a esperança de que a doença mental possa ser vista pelos olhos do paciente, essa, é pequena.



Psicoterapia

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pensar é o melhor remédio

"O estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal depravado." Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.

Há anos, a filósofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a partir de suas próprias convicções e motivações.

Com isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da psiquiatria contemporânea. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de valores e normas.

Essa é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida bem-sucedida.

A fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil, parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".

Décadas atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.

Tal filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou, décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.

Por "uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por visar conservar performances sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos de crise aguda.

Tal uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que nos adoece, é ela também que nos cura.



O pensar como doença
Vladimir Safatle
Folha de S. Paulo, 27/11/2012




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