terça-feira, 23 de julho de 2013

Dependência sexual

Antes de mais, importa recordar que os adictos ao sexo são aqueles que praticam mais sexo do que nós - a norma.

Os doutos nos comportamentos dos outros não sabem o que fazer com a questão da adicção ao sexo (sexual addiction). Na DSM-IV estava consagrada como Hypersexuality, e na recente publicação do DSM-V passou a ser uma condição que precisa de mais investigação! Num recente estudo conduzido por Nicole Prause (UCLA), os resultados indicam que a dependência sexual não deve ser considerada uma doença.

O que na verdade nos deve preocupar é o sofrimento que estas pessoas possam apresentar e, não é garantido que todos o tenham. Há naturalmente que fazer uma distinção entre comportamentos sexuais desviantes, perversos e impulsos libidinais. Por eles estarem muita vezes entrelaçados é preciso compreender o que é o quê.

A psiquiatria e a psicologia vieram de certa forma substituir a religião no que diz respeito ao que é certo e errado, retirando-lhe, só parcialmente, a questão moral/culpa tão presente na religião. A sociedade encontra sempre uma forma de ordenar e controlar o comportamento humano…. E se há coisa que mexe com as profundezas dos reprimidos é o desejo sexual. Que o diga Freud.

De tudo isto, resulta em muitas pessoas, sentimentos de culpa e de vergonha e é essa a minha preocupação, ajudar o sujeito a desembaraçar-se da culpa que pode atingir e contaminar a sexualidade, que se quer satisfatória na quantidade que a cada um convier.



Psicoterapia

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Os textos que eu não escrevi # 2

Tempo fechado para o ferido narcísico

Ela estava com cerca de trinta anos. Seu emprego de final de ano havia lhe rendido alguns bons trocados, em meio a viagens. Era uma representante comercial. As viagens eram, sobretudo, para o interior do estado onde morava. Viagens de poucas horas. Formação superior, independência econômica da família, fisicamente cobiçada. Nada pudica, nem promíscua. Solteira e individualista.

Algum desconforto recente, numa dessas viagens. Um suor angustiado, uma pressa [e uma angústia] pelo vir a ser [pressa e temor, ao mesmo tempo], que era “mais do que querer chegar rápido ao destino”. Após fazer suas vendas, pediu para ir ao banheiro, lavar o rosto. Olhando-se no espelho, teve aquele rápido lampejo [e inequívoco desconforto] de “despersonalização”. Olhava-se como que “de fora” [“quase como um elefante olharia para um humano”, foram as suas palavras]. Após grande crise de ansiedade, tendo feito [com dificuldade] o trajeto para sua cidade, sentia a musculatura da coxa direita tremer involuntariamente, como resíduo de um estado de stress. E também a pálpebra.

A partir de então, surgiram as crises de pânico. Temia sentir “aquilo” presa no carro, em meio a qualquer viagem profissional. Foi visitar a mãe na data de aniversário dela [= a mãe]. Encontrou a casa com convidados e convidadas, com os quais não tinha intimidade. Cumprimentou-os socialmente, e foi para outro cômodo da casa que conhecia bem, pois que havia sido seu quarto.

O tempo fechou lá fora: desses rápidos escurecimentos e tempestades de verão. Ao voltar da cozinha, onde tomara um copo d’água, a lâmpada de seu antigo quarto queimou. Desabou, então, a tempestade. Não iria sair da casa da mãe e ficar presa no trânsito urbano, num dia como aquele. Angustiava-lhe a perspectiva. Não iria se esforçar para se desempenhar numa conversa social com quase-estranhos, ainda mais estranhos por serem de outra geração. Sentiu-se, ela, a estranha, naquele momento.

Sim. Ela se deu conta de sua própria estranheza, reavivando o sentido de “despersonalização ao se olhar no espelho” na “casa estranha”, dias antes, em outra cidade. Aparentemente, a situação de estar sem-saída se reavivava ali, em sua antiga casa. Mas, desta vez, com nuances bastante particulares. Não era o “pânico” que se costuma conhecer, desses das revistas e noticiários de televisão, um sentimento quase-anônimo e tão descrito, quase impessoal e indiferenciado, mas tão “classicamente fisiológico”. Era possível dar-lhe nome, mas um nome que só viria um pouco adiante...

Ela ouvia o burburinho da sala, e as conversas comemorativas. Aquilo lhe parecia longe. Como não parecesse “reconhecer”, de fato, aquelas pessoas “de longe” [e eram “longínquas”, mesmo nuances de sua própria mãe...], o outro pólo da situação lhe ficou progressivamente patente: a de que a mãe não devia lhe reconhecer, no fundo. Quem a conheceria verdadeiramente?!

Não considerou alívio algum se valer do celular para contatar algum amigo. Considerou, sim, naquele momento, que qualquer busca por aproximação física seria uma “fuga daquela solidão”. Vou chamar essa solidão de “solidão ontológica”: a solidão à qual não se pode fazer [nem trazer] companhia.

Naquela circunstância, então, ela considerou quantos amigos [e amigas] poderiam desejar a sua companhia, mas julgou que “ninguém a conheceria de fato”. Não sob aquele ângulo. Considerou as amizades eróticas como um passatempo desprezível e sem grande alcance, um anestésico contra tal solidão profunda. Viu, naquele momento, que muito do sexo que fazia [e fazia com regularidade e inconfundível prazer, assim lhe parecera até ali...] tinha essa feição de “anestésico” ou “distração”. Anestésico contra a tal solidão indizível. Distração dessa mesma solidão.

Mas, ciente disso tudo, ela não queria [e nem podia] distrair-se. Sentiu, simplesmente, que não lhe era possível mentir ou desviar-se da questão. A idéia de tentar aparentar um estado minimamente disposto ao telefone [para qualquer eventual interlocutor] lhe causava asco. Literalmente: ânsia de vômito. Já tinha ido à cozinha, sem se deter na sala, para não chamar muito a atenção sobre si. A idéia de chamar a atenção “daqueles estranhos da sala” sobrepunha-lhe um desconfortável “constrangimento íntimo” [“ansiedade, vergonha, embaraço, medo, tudo misturado”] ao nojo que sentia de tentar disfarçar sua solidão para os amigos, caso recorresse ao telefone.

Foi ao banheiro, contíguo ao quarto, e teve “aquele movimento espasmódico do vômito, mesmo de estômago vazio”, como era o caso. Só pôs só água pra fora. Sabia ser “um enjôo puramente emocional”, isso era óbvio. Uma ânsia de vômito “de puro nervoso”. Não tinha como explicar a ninguém “o que teria comido que lhe fizera mal”, e ouras coisas que tais. Isso lhe causava ainda maior ansiedade em não querer chamar atenção sobre si, tendo de tentar explicar para os outros “o inexplicável”. Todos quereriam achar razões objetivas para o mal-estar, era o que ela pensava. “Sempre querem achar uma razão objetiva pras coisas”. Tentava, então, se acalmar no quarto, sem nenhuma “fuga” ou “despedida” apressadas, o que causaria mais estranheza a todos os circunstantes: mãe e convidados. Tentaria se acalmar “e ponto final”. Talvez voltasse à cozinha, pegasse mais água, para tomar um comprimido de Plasil. Imaginava saber onde encontrá-lo, se as coisas na casa da mãe não estivessem tão mudadas.

E não estavam. Estavam e não estavam. Pois o sentimento de estranheza como que pairava sobre tudo que já era sabido. Ou previsível. [E, sobretudo, pairava...].

No seu antigo quarto, com a lâmpada queimada, tentava se acalmar. Até porque a perspectiva da tempestade lá fora era ainda menos animadora do que estar ali. No mínimo, refletia-lhe a tempestade íntima, em matiz “tão sombrio quanto”. “Não tinha pra onde correr”.

Olhou para uma foto antiga, sua com seus familiares, sobre um porta-retrato. Estava na penumbra. Sua estranheza, agora, tinha, por acréscimo, um sentimento de dor profunda: o sentimento de ter sido “absolutamente anônima” naquela época. Anônima para todos aqueles que estavam na foto. Ninguém conhecia boa parte das suas questões de então: chantagens que experimentava no ambiente escolar, humilhações físicas relativas à desproporção dos seios para o corpo que tinha na época, além de acne bastante grave. Havia assédio e desprezo misturados por parte dos outros. Tinha medo e distância do pai, na ocasião. Parecia-lhe que ele se esquivava de ver seus eventuais dramas juvenis, além de ser muito severo. Sabia que sua mãe também tinha medo dele. Na infância, era frequentemente punida por coisas bobas. Ou por outras que nem havia feito. Quando dizia ao pai não ter feito nada, ele sempre lhe respondia “e daí?”. Impunha-lhe surras ou castigos morais [ficar um tempo longo sem sair nos finais de semana, jantar e dormir cedo, etc]. A mãe, simplesmente, lhe olhava com uma “expressão de impotência quase-empática e ao mesmo tempo esquiva”, do tipo [do tipo é expressão dela...]: “Não fui eu que te bati nem te pus de castigo, filha..., mas não posso fazer nada “contra teu pai”... O pai, agora, já era falecido. Impossível, para ele, “ser apresentado àquela jovem” ou, ainda mais difícil, “àquela menina magoada”. Impossível, para ela, apresentar-se a ele. Tudo era “tarde demais” e “nublado”. E a mãe, naquela sala, não conhecera aquela pessoa desde muito cedo. Ou se omitira, por receio, “preservando a si mesma de sua vulnerabilidade conjugal” [expressão da moça].

Outras solidões mais antigas vieram à tona. Não poderia “atualizar” a nenhum de seus novos amigos [ou amigas] essas tais solidões ancestrais. Nem era o caso. Mas olhar aquela foto, ali, no quarto com lâmpada queimada, simplesmente lhe despertou soluços. Soluços fortes, desses de “se chorar com a barriga, curvando-se” [tradução da moça], em profundo lamento. Fechou a porta do quarto, com medo de que a ouvissem. “Chorou curvada” por mais de quarenta minutos, aquele choro sentido e antigo, olhando para a solidão de longe... Achou-a, naquele momento, “irremediável” [“uma solidão irremediável”; “uma coisa que não tem conserto”]. Não acreditava, simplesmente, na eficácia de qualquer companhia ou lenitivo para aquela tristeza e aquele sentimento de “não ter sido vista”, nem pelo pai. A idéia de ser “corporalmente aceita” por qualquer dos amigos que viesse a procurar, até sexualmente aceita [e com facilidade], só fazia parecer ainda mais [e ainda maior] aquela solidão sem-fundo. [Que era aquela solidão-de-fundo].

Não ser vista por pai nem mãe [ele já falecido] lhe parecia uma espécie de “orfandade” inescapável. Incontornável. Uma “orfandade do espelho” [essa expressão é minha]. A superposição da estranheza que tivera diante do espelho estranho na tal viagem recente se somou àquele estado. Tudo se somava: dor pela(s) perda(s) [“não dá pra acertar as coisas com a pessoa que já se foi”], o sentido do anonimato e ferida irremediáveis perante “os próximos”, pai e mãe: ela aniversariando, ele falecido... O sentido de absoluta “irrelevância do desejo masculino perante aquela solidão” [Narciso engole Édipo, porque lhe é anterior, cronológica e axiologicamente falando: na escala do Tempo, e na escala do Valor; o Mito de Narciso tem primariedade e prevalência sobre o de Édipo], a náusea que isso lhe trazia, o “sentido de não haver lugar onde pudesse estar livre disso” [“fosse à cidade que fosse, com quanto dinheiro tivesse”, para lazeres que lhe pareciam, naquele momento, de todo, “inúteis”]. “O tempo estava fechado”.

Lá fora, continuava a tempestade. Ia ao banheiro lavar o rosto, mais uma vez. Mas, diante da pia, se curvara naquele choro convulso [“o que nasce da barriga”...] ouvindo a si mesma falar uma expressão lamuriosa, que reconhecia ter sido dita desde lá atrás, muitas vezes... Sua voz dizia simplesmente o seguinte: “Eu quero morrer...”. Isso foi repetido muitas e muitas vezes, até que sua mãe apareceu, consternada e assustada, à porta do banheiro, perguntando “se ela estava bem”...

Pelo momento, registe-se a cena, para que se tenha um breve flagrante das questões de fundo [que são questões de base] do ferido narcísico.

Não era o “pânico” que se costuma conhecer comumente, desses das revistas e noticiários, um sentimento quase-anônimo e tão descrito, quase impessoal e indiferenciado. Era possível dar-lhe nome, mas um nome que só viria um pouco adiante...
E o nome era: “Eu quero morrer..., eu quero morrer...”

[Narciso tem grande proximidade com Tanatos].


Marcelo Novaes


Psicoterapia

Está um monstro debaixo da cama… só não vê quem não quer




Para as crianças é muito difícil expressar os seus sonhos maus/pesadelos e uma das razões, directa ou indirectamente, são os pais. Quem mais? Pobres pais…

Indirectamente porque o sonho pode ter como personagem os próprios pais: “A mãe enlouquecida que fecha o filho dentro de um armário escuro”; O pai transformado em monstro persegue a filha com uma faca da cozinha”; A mãe/bruxa com os olhos vermelho incandescente incendeia a cama onde o filho dorme”. Como conseguirá a criança contar estes sonhos aos pais onde eles aparecem como criaturas terríveis? De uma maneira geral as crianças sentem que estes sonhos não serão bem aceites pelos pais. E, quantos pais conseguiriam lidar com sonhos desta natureza? Não é fácil, à que dizê-lo.

Por outro lado, temos os pais que acordados a meio da noite, se confrontam com: “há um monstro debaixo da cama”; está alguém atrás do armário”, e a resposta é: “isso não é nada, é um pesadelo, dorme que isso já passou”.

Se a criança viu o monstro, então ele existe. E se ele existe, melhor será perguntar: “como era esse monstro?”; “o que é que ele estava a fazer?”; “ainda está aqui?”; “vamos correr com ele daqui”.

Se os pais não se disponibilizam a entrar no sonho, no espaço assustador, as crianças podem concluir que ninguém acredita nelas ou que os pais também estão assustados e por isso incapazes de as proteger. “Só me tenho a mim para me proteger”. Assim pode iniciar-se um afastamento dos pais, um isolamento em relação ao mundo que a rodeia, pois há coisas sobre as quais não se pode falar, coisas indizíveis, impossíveis de serem partilhadas. O mundo começa a fechar-se e nesse mundo, muitas vezes a criança precisa criar – um outro – dentro dela própria que a proteja.

Quando o terror não pode ser compartilhado a solidão ganha espaço. Estas experiências vividas sem testemunhas, levarão a criança a questionar até que ponto poderá partilhar a raiva, a mágoa e o sentimento de abandono. Impossibilitada de se fazer ouvir, gritará alto com maus resultados escolares, violência com os colegas, isolamento, alergias e mais alergias.

A criança gritará porque é a única forma que tem de se fazer ouvir, mas dramaticamente, não é porque grita que será ouvida. Será tratada, porque está doente e doente permanecerá até ser ouvida.



psicologia clínica

terça-feira, 16 de julho de 2013

Aquele que quer morrer


"Aquele Que Quer Morrer"

"Aquele que quer morrer
é aquele que quer conservar a vida,
só o que infinitamente pára se move, fugindo,
o que regressa nunca saiu do mesmo sítio, e só esse regressa

ao mesmo sítio, no limiar da sua Morte,
encontrando todas as coisas no mesmo sítio
e parando no princípio de tudo.
Para aqui chegar tive que percorrer tudo.

A falta das palavras e do
silêncio e da falta de isso
é o que encontra o seu começo e a sua memória
e fala finalmente sobre todas as coisas."

Manuel António Pina

A cura da homossexualidade ou homofobia?


Embora o “mundo natural” seja o mesmo para qualquer sociedade, cada uma vai percebê-lo e decompô-lo para em seguida dar-lhe sentido, dentro das associações sintagmáticas que aquela sociedade criou para “ler o mundo”. O discurso interpretativo que surge daí é tributário do sistema simbólico da sociedade em questão, que está sujeito ao universo imaginário e fantasmático desta mesma sociedade: não existe um paradigma único, universal.

Vivemos nossa sexualidade dentro do imaginário da sociedade onde estamos inseridos. Desconhecemos que somos guiados por convenções culturais, e acreditamos na existência “natural” de sujeitos heterossexuais, bissexuais e homossexuais. Esta crença, evidentemente ideológica, é vivida como algo intuitivo, universalmente válido, desde sempre, para todos os sujeitos. É por isto que uma das coisas mais difíceis a suportar é a diferença, sem que ela seja vivida como uma ameaça. Aceitar que o outro possa ser diferente abala nossa verdade, e mostra que a verdade é sempre a verdade de cada um, o que desvela a ilusão da existência de uma identidade última e absoluta, e revela que nossos referenciais são construções com tempo de vida limitado.

O discurso social, que constrói as referências simbólicas do masculino e do feminino e dita os parâmetros que definem a “sexualidade de normal”, contribui não só para a invenção da homossexualidade como também para que o sujeito homossexual, marcado pelos ideais da sociedade, se sinta “desviante”, posto que excluído do discurso dominante. Os homossexuais nascem em uma sociedade cuja organização simbólica cedo lhes ensina que sua forma de viver a sexualidade é errada. Uma pessoa durante um processo analítico disse: “primeiro aprendi que ser homossexual era anormal. Depois, descobri que era homossexual. Ou seja, que era anormal. O que fazer?”.

Visto que os padrões da sexualidade humana são criados e não inatos, há de se considerar a importância da história libidinal de cada um na origem de sua solução sexual. Esta história, por sua vez, é construída por marcas identificatórias sucessivas, resultado de investimentos libidinais em diferentes registros (simbólico, imaginário e fantasmático), originados nos encontros desse sujeito com outros sujeitos. Dito de outra forma: o ser humano possui uma sexualidade. E esta sexualidade, devido à singularidade da história de cada um terá um destino particular: não há uma única maneira que se proponha certa, única e universal para as manifestações da sexualidade.

Se a relação sexual não existe, é porque no inconsciente não existe a inscrição psíquica da diferença sexual: “a função fálica não impede os homens de serem homossexuais” (Lacan, 1972-73, p. 97). O homossexual, como o heterossexual, tem acesso a uma forma de gozo fálico.
Não existe um sujeito homossexual, assim como não existe um heterossexual ou bissexual. Existem moções pulsionais e movimentos identificatórios que se deslocam, mais ou menos livremente, e que se manifestam nas escolhas objetais que sustentam as diversas expressões da sexualidade. Contudo, estas últimas não definem o sujeito.

Os ideais sociais direcionam os investimentos libidinais, criando assim uma sexualidade “normal”, o que não deixa de ser, como demonstra Foucault (1976), uma forma de controle. Para a psicanálise – que vem mostrar o quão ilusório é falar de “normal” em se tratando de pulsão –, o relevante é tentar compreender a dinâmica que subjaz as diferentes orientações sexuais. Nesta perspectiva, tanto a hetero quanto a homossexualidade são posições libidinais e identificatórias alcançadas pelo sujeito ao longo de seu trajeto pulsional.

Excerto de “A invenção da homossexualidade”
 Paulo R. Ceccarelli


Psicoterapia

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Diálogos, monólogos e solilóquios


O que te persegue é o que te precede


Psicoterapia

A busca da significação

Quantas vezes a vida não é a construção de “uma realidade” que seja, aparentemente tolerável, servindo propósitos internos…. Perante acontecimentos que a cada segundo se multiplicam podemos olhá-los como novos, à procura de um significado (novo), ou então encaixar tudo na experiência vivida, como se o tempo tivesse parado e os desejos esvaecido. O futuro é o passado e o presente, simplesmente, a ponte que os liga.
O novo, o não vivido, mas essencialmente a experiência passada que procura significação, pode, através da criatividade – capacidade de criar - ser re-significada e re-interpretada destruindo o que era uma evidência irrefutável. As experiências emocionais ao recuperarem os significados perdidos encontram a profundidade e a riqueza que se tinha perdido.
"We had the experience but missed the meaning, 
And approach to the meaning restores the experience 
In a different way......"
 
(Four Quartets)

"Nós tivemos a experiência mas perdemos a sua significação, 
E a busca da significação restaura a experiência 
De uma forma diferente......."

T. S. Elliot


Psicoterapia

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Dependência do Terapeuta

É frequente ouvir-se falar do receio de ficar dependente do terapeuta. A questão é mais complexa do que à partida se pode supor e, para além do mais, está intimamente relacionada com a história de cada um. No entanto, costumo dizer, que uma boa dependência é essencial para obter a independência. É exactamente a boa dependência (matriz de uma boa relação afectiva pais/filhos), ao invés da dependência tóxica (má relação/incapacitante) que permite rumar à autonomia. O ser humano é frágil, e é-o, ainda mais, quando nasce e está completamente dependente dos pais/cuidadores. É exactamente a partir daqui, desta dependência inicial, que se começa a traçar o caminho para a autonomia. Mas, infelizmente, nem sempre tudo corre bem. Muitas vezes, mesmo correndo mal inicialmente, a capacidade de resiliência da criança associada à maior disponibilidade emocional dos pais permite superar falhas iniciais. Noutros casos assiste-se a tentativas desesperadas/dramáticas de procura de autonomia por todas as formas possíveis e imaginárias que, infelizmente estão destinadas ao fracasso, pois nenhuma destas tentativas dá um significado emocional/suprime/corrige/transforma a vivência de uma má relação de dependência.



Psicoterapia

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Crazy Friends






psicologia clínica

Falar sobre a morte com as crianças

Não existem fórmulas para falar de assuntos complicados com as crianças. Na maior parte das vezes os nossos medos contaminam a nossa capacidade de os abordar. Como sempre acontece, a honestidade é o que funciona melhor quando se fala sobre a morte. E porque não dizer que a honestidade é sempre o melhor quando se fala com as crianças sobre qualquer assunto!

Sejam honestos convosco e com as crianças

World can be a very scary place and bad things happen….



 
  psicologia clínica

Não quero acordar

Como já é hábito aqui no blog, Eliane Brum com mais uma das suas excelentes crónicas: Acordei doente mental


"Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro."


psicologia clínica

domingo, 9 de junho de 2013

Admitir... nunca foi tão fácil!!!



Veja aqui


A realidade adora humilhar a ficção


E se um dia o médico dissesse:

- Vamos parar com a medicação do seu filho, ele não está doente, o transtorno do défice de atenção com hiperactividade não existe, é uma doença inventada.

INVENTOR OF ADHD'S DEATHBED CONFESSION: "ADHD IS A FICTITIOUS DISEASE"

Fique tranquilo, isso não vai acontecer, felizmente, o seu filho contínua doente!

O seu médico pode ser considerado tão vítima quanto você, mas situa-se numa escala de responsabilidade diferente. A um médico exige-se muito mais conhecimento e capacidade de questionar um diagnóstico do que se exige a um pai. Apesar disso, existem muitos pais que consideram que os diagnósticos feitos aos seus filhos não se justificam.


Um conhecimento mais aprofundado e rigoroso do funcionamento mental das crianças e até algum senso comum, levaria os técnicos a questionar, por exemplo, o que se passa na família. Está tudo bem com os pais? Estão a divorciar-se? Os pais estão a sofrer com o desemprego? Nasceu um irmão? Morreu um avô? A criança perdeu os amigos porque mudou de escola? Etc. etc. … Imagino que tudo isto esteja a parecer óbvio. Enganem-se, isto não é relevante. O importante é: “nunca está quieto, anda sempre nas nuvens, está sempre desatento, os resultados na escola estão piores….” Qual é o interesse em saber se a criança mudou de escola? Não há nada a fazer, não podemos voltar para a escola antiga, logo a criança sofre de TDAH.


Tudo aquilo que os pais descrevem aos médicos é real, está efectivamente a passar-se com os seus filhos, não é uma invenção, somente, não é uma doença mental.



Psicoterapia

Echolilia: Sometimes I Wonder



O fotógrafo norte-americano Timonthy Archibal através de uma série de imagens retrata com enorme sensibilidade o autismo. “Echolilia: Sometimes I Wonder”, é o nome do ensaio onde Timonthy apresenta o seu próprio filho em situações quotidianas.

De acordo com Archibald, a ideia para a sessão surgiu pela necessidade de fazer algo de concreto por seu filho Eli, que completou 8 anos recentemente. Ao contrário de muitos pais que fotografam os seus fazem filhos sorridentes ou em situações graciosas, optou por um registo intimo tentando captar a essência.

Aqui





psicologia clínica

domingo, 5 de maio de 2013

Mãe

As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. 


Herberto Hélder

terça-feira, 30 de abril de 2013

Tem dificuldade em falar? Escreva!!!


Vivemos tempos estranhos



A forma como a loucura e o louco são vistos mudou muito. Ainda não há muito tempo eram encarcerados, escondidos da sociedade como possuidores de uma doença altamente contagiosa, sendo sujeitos a maus tratos difíceis de imaginar. A dignidade humana não existia para o louco.

 Esse importante avanço civilizacional permitiu reconhecer ao louco direitos que até aí eram negados (em parte continuam a ser). Os avanços continuam em velocidade cruzeiro e ninguém pode, com alguma certeza, dizer até onde nos levarão.

O louco evoluiu para doente mental e rapidamente começou a banalizar-se a loucura vulgarizando e o que ela tem de mais presente, o sofrimento. Do rótulo incómodo passou-se ao alívio através do rótulo. Os loucos não sofrem, dizem-nos. Os loucos não precisam sofrer, vendem-nos. Os loucos não existem, mentem-nos.

Louco estou eu, cada vez mais


psicologia clínica


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Diálogos, monólogos e solilóquios



VAI. E se der medo, vai mesmo com medo



Compulsão à repetição

Ao nível da psicopatologia concreta, processo incoercível e de origem inconsciente, pelo qual o indivíduo se coloca activamente em situações penosas, repetindo assim experiências antigas sem se recordar do protótipo e tendo pelo contrário a impressão muito viva de que se trata de algo de plenamente motivado na actualidade.

É de toda a evidência que a psicanálise viu-se confrontada desde a origem com fenómenos de repetição. Se encararmos nomeadamente os sintomas, por um lado alguns deles são manifestamente repetitivos (rituais obsessivos, por exemplo), e, por outro, o que define o sintoma em psicanálise é precisamente o facto de reproduzir, de maneira mais ou menos disfarçada, certos elementos de um conflito passado. De um modo geral, o recalcado procurar “retornar” ao presente, sobre a forma de sonhos, de sintomas, do agir: “o que permaneceu incompreendido retorna; como uma alma penada, não tem repouso até encontrar resolução e libertação”


Vocabulário da Psicanálise – J. Laplanche & J.B. Pontalis


psicologia clínica

terça-feira, 23 de abril de 2013

Therapy is...


Therapy isn’t about finding yourself
Therapy is about creating yourself
























Psicoterapia

No colo aprendi a amar

Num post anterior dei conta de um estudo da FPCE-UC onde se concluía que: “Brincar 10 minutos diários com os filhos em idade pré-escolar, sem direito a fazer mais nada em simultâneo, e de forma cooperativa, contribui para reduzir os distúrbios de comportamento, como p. ex., hiperatividade, défice de atenção, oposição (a criança opõe-se a qualquer ordem do adulto) e desafio e agressividade.”

Agora surge um estudo desenvolvido no Japão pelo Dr. Kumi Kuroda (Riken Brain Science Institute) com resultados, passe a ironia, absolutamente inesperados: os bebés acalmam quando são colocados no colo.

Durante décadas os pais foram bombardeados com dezenas de teorias estapafúrdias que ensinavam a cuidar dos filhos. Os especialistas na matéria, pediatras e psicólogos, venderam milhares de livros “revolucionando” a forma de educar. Técnicas para lidar com choros, birras etc., foram desenvolvidas com base em preconceitos (e muita ciência, sempre muita ciência) e, invariavelmente, descentrando-se do principal: “A criança”.

Resultado: os pais perderam a espontaneidade, a sua capacidade instintiva de cuidar (que passa de pais para filhos). Em vez de se desenvolver um vínculo seguro através do estabelecimento de uma boa relação - objectivo primeiro -, instrumentalizou-se a relação humana precoce. É um exagero dizer que os inúmeros diagnósticos de hiperactividade estão relacionados com este tipo de relação, até porque muitos desses diagnósticos estão errados, mas como a sabedoria popular nos ensina: “quem semeia ventos colhe tempestades”.

Nunca imaginei poder dizer que estes estudos são muito bem-vindos, nem imaginei sequer, que fossem desenvolvidos e que tivessem esta divulgação. Mas eles aí estão, para nos dizerem o que todos sabíamos.


psicologia clínica

sexta-feira, 19 de abril de 2013


How can you fix what you don’t understand?

Autorização para sofrer

Para quê sofrer se posso evitar?! Nem todas as pessoas que procuram a todo o custo não sofrer o fazem para evitar o sofrimento propriamente dito, a dor. Existem muitas pessoas para as quais o sofrimento está interdito. Essas são as que precisam de autorização para sofrer. Quando conseguimos fazer entender, por exemplo, que perante a perda/luto de alguém que se gostava muito é normal estar triste, perder o apetite ou não conseguir dormir e, estranho seria sair de um funeral directamente para o cinema ou para uma festa com um sorriso na cara, isso não cria nenhum tipo de estupefacção, todos compreendem facilmente que é normal estar em sofrimento, só faltava a permissão! O conhecimento latente de que sofrer é próprio à vida foi-se tornando cada vez mais uma realidade desajustada. O sofrimento e as suas causas não são muito diferentes do que sempre foram, mas a atitude, essa, parece cada vez menos humana. Os robots dos filmes de ficção científica sonham em ser humanos, nós, em ser robots.



Psicoterapia

terça-feira, 16 de abril de 2013

Abstinência, neutralidade ou insensibilidade?


“A insensibilidade do analista (maneira afectada de cumprimentar, exigência formal de “contar tudo”, a atenção dita flutuante que, afinal não o é e certamente não é apropriada para as comunicações dos analisandos, impregnadas que estão de sentimentos e frequentemente trazidas com grande dificuldades) tem por efeito: (1) o paciente sente-se ofendido pela falta ou pela insuficiência de interesse; (2) como ele não quer pensar mal de nós, nem nos considerar desfavoravelmente, procura a causa dessa não-reacção nele mesmo, ou seja, na qualidade daquilo que nos comunicou; (3) finalmente, duvida da realidade do conteúdo que antes estava tão próximo do sentimento.”

Entre os inúmeros exemplos sobre aspectos técnicos subjacentes à prática clínica, a escolha do primeiro parágrafo do Diário Clínico de Sándor Ferenczi (7 de Janeiro de 1932) prende-se com o facto de se tratar de um dos primeiros testemunhos sobre a “obrigatoriedade” de dar ao espaço terapêutico autenticidade. Como refere Kupermann “A noção de sensibilidade, oriunda do campo da estética, é empregue por Ferenczi no seu sentido rigoroso como a capacidade de afetar e de ser afetado pelo outro, e não no sentido coloquial, que poderia remeter-nos às ideias de plácida benevolência ou de compreensão ilimitada e passiva etc., que foram apressadamente associadas a sua figura. A insensibilidade ou a hipocrisia é, assim, a principal figura do álibi passível de ser empregue pelos analistas para escapar das duras consequências do acto analítico.”

Voltarei a este tema…. Sem dúvida!


Psicoterapia

Chover no molhado ou, nem por isso….

Numa fase em que parece que tudo tem que ser estudado, tem que ser comprovado para que as pessoas prestem alguma atenção e, quem sabe, as ponham em prática, acho bem que saiam estas notícias. Mas também devemos colocar a questão: Isto é realmente uma conclusão nova? Não sabíamos todos isto? Então desculpem que diga, se não sabiam deviam saber!

“Brincar 10 minutos diários com os filhos em idade pré-escolar, sem direito a fazer mais nada em simultâneo, e de forma cooperativa, contribui para reduzir os distúrbios de comportamento, como p. ex., hiperatividade, défice de atenção, oposição (a criança opõe-se a qualquer ordem do adulto) e desafio e agressividade, comprova um estudo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.”

O estudo foi efectuado com crianças com problemas de comportamento diagnosticados e, segundo os resultados, com sucesso, pois verificou-se uma redução de sintomatologias de hiperatividade, défice de atenção e oposição e desafio, agressividade e impulsividade.

Embora o estudo se tenha focado na intervenção em famílias de crianças com diagnóstico clínico, a investigadora defende que o programa é também essencial para atuar «ao nível da prevenção de futuros comportamentos desviantes. Todos os pais deveriam ter acesso gratuito ao programa nos centros de saúde, tal como têm acesso a vacinas, ou nos jardins-de-infância».

A investigadora Maria Filomena Gaspar defende que o programa é também essencial para actuar «ao nível da prevenção de futuros comportamentos desviantes”. Desculpem colocar outra questão: Se os pais brincassem mais com os filhos, colocassem regras e limites não se evitariam muitos diagnósticos clínicos?

Se forem precisos estudos para nos dizer que temos que brincar com os nossos filhos, estamos mal, estamos muito mal!


psicologia clínica

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Alma Humana


Ao contrário de Amour, de Michael Haneke, que parece ter-nos roubado a capacidade de transformar em palavras o que sentíamos pelo esmagamento da intensidade afectiva a que somos sujeitos, Jagten (A Caça) de Thomas Vinterberg (Dogma 95), obriga-nos a procurar palavras para verbalizar o insuportável desconforto de nos vermos espelhados na escuridão da alma humana. Não querendo entrar em grandes comparações, digo apenas que a Palma de Ouro ficaria MUITO melhor entregue ao filme de Vinterberg, que teve em Mads Mikkelsen o prémio de melhor actor.

Não me vou perder em elogios aos brilhantes actores que contracenam com o magistral Mikkelsen. Somente dizer que Annika Wedderkopp (Klara-criança) com o seu olhar doce e perdido faz-nos sentir que a sua fragilidade e desamparo só pode ser real.

Apesar da liberdade de cada um pensar que o filme trata desta ou daquela questão (também vou exercer a minha), o tema principal do filme, como o próprio Vinterberg referiu numa entrevista, não é a pedofilia, como seria fácil supor. Segundo o realizador a ideia para o filme foi-lhe apresentada por um psicólogo, e nela estavam as fantasias de abuso sexual criadas pelas crianças. Uma década depois, quando procurou fazer terapia, Vinterberg decidiu ligar ao mesmo psicólogo dizendo-lhe: “Para ser educado, decidi ler aquele material e fiquei chocado” com o elevado número de falsas acusações de pedofilia.

Para os que estão familiarizados com a Psicanálise o tema das fantasias de abuso sexual não são novas. Freud, nos seus trabalhos iniciais, desenvolveu a “Teoria da Sedução” onde, com base nas descrições dos seus pacientes e da sua auto-análise terá considerado que as crianças teriam sido sujeitas a seduções de cariz sexual por parte dos adultos, principalmente familiares. Perante alguns factos Freud viu-se forçado a abandonar as suas formulações acerca da cena de sedução e a substituir a crença na realidade desta cena pela suposição de que a sedução seria uma construção, em termos de fantasia, do próprio sujeito. Assim, a cena de sedução não possui correspondência na realidade externa – apesar de recorrer a alguns indícios dessa realidade – mas, trata-se de uma construção, uma “realidade psíquica”. Em 1897 numa carta a Fliess, Freud expressou a sua insatisfação com a teoria da sedução, afirmando ter deixado de acreditar na “neurótica”. (Para os interessados no tema, é importante referir que há nesta questão muitas nuances, que permitem várias leituras sobre o abandono da teoria de sedução).

Agora o filme

A Caça é um filme absolutamente claustrofóbico onde o espaço e o tempo (bomba relógio) se encolhem de forma pautada até ao intolerável. Como num terrível pesadelo, queremos gritar mas da nossa boca não sai nenhum som, ninguém nos pode ouvir, ou melhor, ninguém nos quer ouvir. Queremos fugir mas não podemos. Estamos destinados, como Lucas, a viver sem esbracejar. Estamos a ver tudo, sabemos tudo, e sofremos porque nós somos Lucas. Presos num magnetismo inexplicável assistimos colados na cadeira, com suores frios à mistura, a um filme pungente, devastador.

Este é um filme sobre o ser humano, um objecto de estudo, onde da pureza, da inocência e do horror na infância se passa para tormentos da adolescência e se termina numa despedaçada vida adulta. Todos estes tempos se cruzam e são interpretados por personagens diferentes. Vinterberg põe a nu a agressividade existente em todos nós e a forma fácil dela se fazer presente. Espicaçado na capacidade destruidora, o grupo (caçadores) encontra na presa (caça - Lucas) a satisfação do instinto destrutivo. Dirigido com uma crueza arrepiante, Vinterberg, põe a nu os aspectos sombrios da alma humana, seja criança, adolescente ou adulto. Sendo, neste caso, uma criança (as crianças gozam de um olhar particularmente distorcido por parte dos adultos), o sentimento é ainda mais aterrador.

Este filme deveria passar em todas as faculdades de Psicologia. Não faria mal nenhum a magistrados, e a todas a áreas do saber ligadas a esta problemática.


Mais que imperdível, indispensável




psicologia clínica

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Benefício primário e secundário da doença

Benefício da doença designa de um modo geral qualquer satisfação directa ou indirecta que um individuo retira da sua doença.
O benefício primário é o que entra em consideração na própria motivação de uma neurose: satisfação encontrada no sintoma, fuga para a doença, modificação vantajosa das relações com o meio.
O benefício secundário poderia distinguir-se do precedente do seguinte modo:
– pela sua aparição posterior, como vantagem suplementar ou utilização pelo indivíduo  de uma doença já constituída;
– pelo seu carácter extrínseco em relação ao determinismo inicial da doença e ao sentido dos sintomas;
– pelo faco de se tratar de satisfações narcísicas ou ligadas à auto-conservação, em vez de satisfações directamente libidinais.
O “benefício primário” está ligado ao próprio determinismo dos sintomas.
Podemos distinguir duas partes:
– A “parte interna do benefício primário” consiste na redução de tensão proporcionada pelo sintoma; este, por doloroso que seja, tem por fim evitar ao indivíduo conflitos às vezes mais penosos: é o chamado mecanismo de “fuga para a doença”.
– A “parte externa do benefício primário” estaria ligada às modificações introduzidas pelo sintoma nas relações interpessoais do indivíduo.
Assim, uma mulher oprimida pelo marido pode obter, graças à neurose, mais ternura e atenção, vingando-se ao mesmo tempo dos maus tratos sofridos. Mas se Freud designa este último aspecto de benefício pelos termos “externo ou acidental”, é exactamente porque a fronteira que o separa do benefício secundário é difícil de traçar.
Para descrever este, Freud refere-se ao caso da neurose traumática, e mesmo ao de uma invalidez física resultante de um acidente. O benefício secundário materializa-se aqui pela pensão paga ao inválido, poderoso motivo que se opõe a uma readaptação: “ Ao contrário da sua enfermidade, começaríamos por lhe retirar os seus meios de subsistência, uma vez que, ele não seria capaz de retomar o seu antigo trabalho”.
Vocabulário da Psicanálise – J. Laplanche & J.B. Pontalis


psicologia clínica