segunda-feira, 3 de setembro de 2012

De pequenino se torce o pepino


       

           A Vénus das Peles





psicologia clínica

Liberdade de escolha


O governo Sueco (provavelmente, com a melhor das intenções) ávido de resultados e impelido por questões financeiras decidiu que iria apoiar um modelo de psicoterapia em detrimento de todos os outros. Quando chegou altura de analisar os resultados, os responsáveis suecos concluíram que se tinham equivocado, não só os resultados não foram os esperados como superaram as piores expectativas. Apostou tudo no vermelho e saiu preto. Acontece.

Como já é hábito, as pessoas que não tiveram oportunidade de escolha, que se sujeitaram a algo que não era bom para elas e que, acredito, perderam muito com isso, não são consideradas. Adiante.

Independentemente das qualidades subjacentes a cada modelo psicoterapêutico, aqui estamos a falar de liberdade de escolha. As pessoas não são todas iguais, felizmente são até bastantes diferentes, por isso devem ser elas que, informadas, devem escolher aquilo que julgam ser melhor e caso concluam que não é o indicado, devem poder mudar livremente.

Esta tendência de uniformização e catalogação das pessoas em patologias (o deprimido, o psicótico, o hiperactivo) e por conseguinte, abordagens terapêuticas especificas para certos diagnósticos, não se mostra eficiente. Mas Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha, e continua-se a insistir. Todos os deprimidos do mundo são iguais, todas as depressões são iguais, todos os terapeutas são iguais. Há coisas que nem parecem difíceis de entender.




Psicoterapia

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ó tempo volta pra trás. Já!




“Foi-se o tempo em que … bastava “apenas um olhar do pai” para que as crianças se reposicionassem no seu lugar de filho.“Nesse outro tempo” tínhamos a impressão que tudo tinha o seu “lugar”.

Nessa época não se ouvia falar em hieractividade. As crianças eram definidas como seres mal-educados que precisavam de uma educação rígida e rigorosa para se tronarem adultos civilizados.

…a religião e a tradição asseguravam o lugar do pai na família. … a autoridade do pai era sustentada não apenas pela mãe dentro de casa, mas, na esfera pública e politica, através da religião e dos costumes. Nesse mesmo lastro residia a autoridade do professor e dos adultos em geral.

Esse cenário começou a mudar a partir de um longo processo de transformações históricas e sociais que solapou a tradição e a religião enquanto organizadores da família e da sociedade.

A valorização da criança produzida pelo capitalismo, em que a mesma passou a sustentar a promessa de fabricação do adulto de futuro, produziu não apenas a valorização da mulher como mãe, mas, instituiu uma preocupação do estado em limitar e regular cada vez mais os poderes do pai, visando proteger a mulher e os filhos da sua arbitrariedade.

O filho tornou-se propriedade privada da mulher-mãe. Ao pai, restou um colchão ao lado da cama do casal, agora ocupado pela mãe e pelo filho. Quando ele intervém, é logo interpelado pela sua mulher com um “cala a boca, você não sabe nada”. O homem-pai viu-se reduzido a uma criança que não sabe nada, nem sobre a vida doméstica nem sobre os filhos. Ela briga com ele como briga com uma criança: “não faça isso! Faça aquilo. Você não sabe de nada!” Diante dessa mãe omnipotente, o homem viu-se reduzido a uma criança impotente.

Pois bem, se na família patriarcal a autoridade era atribuída ao pai, na família moderna a mãe passou a ocupar esse lugar.

 Diante da crise de referências instituída a partir da queda da tradição, o pai, não sabendo qual seu lugar, viu-se reduzido a uma condição infantil, ora toma a mãe como modelo de relação com os filhos, funcionando como uma “segunda mãe”, ora se identifica com a criança, demandando à mãe mais cuidados do que deveria.

Como consequência dessa crise de referências, temos encontrado um cenário muito assustador: crianças que dormem com os pais, ainda usam fraldas apesar da idade, têm dentes mas ainda tomam mamadeira. São grandes em peso e altura, mas vivem no colo dos pais.

As crianças não conhecem a frustração. Privadas da intervenção educativa, pouco a pouco vão-se tornando pequenos monstros assustadores e demandantes: querem “tudo” e ao mesmo tempo “nada”. As crianças tornaram-se pequenos tiranos e os pais escravos da tirania dos filhos.

Quando essas crianças chegam à escola … não conseguem concentrar-se e não aprendem.

Ao não reconhecer a desorganização da criança como proveniente da sua própria renúncia, os pais recorrem a um “outro-especialista” buscando uma resposta sobre o que se passa com o seu filho. Este por sua vez, capturado numa formação organicista pautada no modelo biomédico – modelo que reduz todo e qualquer problemática humana a um defeito no funcionamento biológico – vê-se obrigado a diagnosticar a má educação da criança como hiperactividade.

Impotentes face à demanda dos pais e das escolas, os médicos medicam. Aliás, o que poderiam fazer além de medicar? … Talvez os médicos pudessem dizer: ”Seu filho precisa limites!!!”. Mas certamente seriam considerados maus médicos. Pois, ao denunciar a necessidade de limites, denunciariam as renúncias educativas dos pais!

Não sabendo o que fazer com os pequenos tiranos, solicitam à ciência e à medicina algum limite, mesmo que seja químico!

Como sabemos, um adulto precisa aprender a viver e a ter horários para dormir, assim como o adolescente precisa aprender modos de relacionamento com o outro para transar. Por isso fica a pergunta: Será que uma criança poderia prescindir dos adultos para se tornar civilizada? Ou de facto acreditam que uma dose diária da “droga” seria suficiente para educá-la? Depois não me venham com campanhas “Crack nem pensar!!!”


Transcrição parcial (adaptada) do artigo: A fabricação da loucura na infância, Michele Kamers




psicologia clínica

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Stand-up Psychology


Um pouco por todo o lado proliferam “terapias” que vão ao encontro das necessidades dos dias de hoje: soluções rápidas - fast -, de preferência imediatas. Soluções milagrosas, heregemente apoiadas por uma pseudociência, que se resume a estatísticas, cujo método se equipara aos estudos de mercado. Não é nada de novo, inovador, trata-se de velhas fórmulas adaptadas aos nossos dias; fruta em garrafinhas em vez de uma peça de fruta para descascar ou comer com casca.

Em substituição de fórmulas ultrapassadas aparece em forma de Stand-up Psychology (direccionada para as massas), acompanhada de bestsellers com títulos a condizer – Lições de sedução; Não quero crescer; Benvinda dor; Histórias de divã e encontros (O lado B do amor) – um ramo da já conhecida Psicologia Positiva.

E resulta? Se resulta!!!

A felicidade, a sempre desejada, seja através de iogurtes ou cremes faciais continua a vender como se não houvesse amanhã. Mas a forma mais tentadora de ser apresentada é: Faça você mesmo – está nas suas mãos -. Só mesmo os muito preguiçosos desperdiçarão a oportunidade de mudarem a vida com as suas próprias mãos e retirarem os louros desse passo grandioso.

Nada se consegue sem trabalho, por isso também deve ser dado mérito aos empreendedores da Stand-up Psychology. 1º - Humanos como todos os outros falam dos seus problemas, que são iguais aos de toda a gente. 2º - Como os resolvem ou resolveram. 3º Vejam como nós, simples humanos como vocês, estamos de bem com a vida.

Os méritos não terminam aqui. O mérito principal – a razão do sucesso - é o de apresentar uma resposta, uma direcção. Certa ou errada, parece que tanto faz. As pessoas precisam de respostas. Não as encontram sozinhas e esperam que as ajudem a encontrar. Isto deve levar os psicólogos a reflectir.

Roma e Pavia não se fizeram num dia.

É preciso ter em conta, que muitas vezes não há resposta imediata, e, tão importante como não ter resposta é considerar porque não se consegue encontrá-la. Todos deveríamos ser capazes de ter solução para tudo? Não, infelizmente ou felizmente, não há solução para tudo. Mas se a falta de resposta significa ficar paralisado então é preciso ajudar a desbloquear.

Numa altura em que os relacionamentos têm um carácter faceboquiano, vulgo, superficial, muitas das possibilidades de resposta perderam-se algures. A procura afectiva da resposta é sempre a melhor e sem dúvida a que obtém melhores resultados. É no entrelaçado afectivo que se gera a confiança interna, indutora e catalisadora do pensamento criativo perante as dificuldades.

Mas não será tudo isso demasiado superficial? Sim, mas não é obrigatório que todas as pessoas estejam interessadas em grandes aprofundamentos. A escolha deve ser livre mas informada. O facto de ser superficial não significa que não seja suficiente para alguns. Perante uma casa que necessita ser recuperada há pelo menos duas possibilidades. Uma reabilitação profunda (reconstrução) ou uns retoques superficiais na pintura. É uma opção que vai depender de dinheiro, tempo e disponibilidade mental. Quem optar pelos retoques não pode esperar o mesmo que aquele que se decidiu pela reconstrução; as pinturas não duram muito tempo mas deixam as casas mais bonitas e em alguns casos habitáveis, e isso não é de somenos importância.

Jamais deve confundir-se uma mudança superficial com uma aparente mudança. E nestes casos parece tratar-se de algo simplesmente aparente. Temas como: porque as mulheres têm o passatempo uterino de arranjar homens idiotas, podem ser divertidos e provocar grandes gargalhadas mas jamais levará alguém a compreender as suas escolhas afectivas.

 As pessoas estão cheias de “nadas”, proposta ilusória do tudo. Tudo é possível. Não. Não é tudo possível, alcançável e concretizável. É preciso dizê-lo.




Psicoterapia

O Elogio da estupidez






Psicólogo Clínico

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um entristecido adeus à infância


Crescer é abdicar dos sonhos de infância e aceitar o nosso passado com todas as imperfeições que possa ter tido. É viver entre um entristecido adeus à infância – ou seja, a si mesmo e aos objectos do passado – e à superação gradual, ansiosa e esperançada, de muitas barreiras até à entrada no desconhecido mundo da vida adulta.
Na adolescência – onde se vivenciam estados afectivos de luto e paixão – dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais. O jovem estabelece novos vínculos e adquire capacidade para novas experiências afectivas e sexuais. Desidealiza as figuras parentais e procura novos modelos exteriores. Para além da mudança de objecto de amor, há também mudança de objectivos. Os interesses deixam de ser quase exclusivamente narcísicos (característicos da infância) para passarem a ser sociais.
O desejo de parar o tempo, a mudança, pode ser considerada uma excepção, que se deve, essencialmente, a uma incapacidade de enfrentar o novo. No desenvolvimento normal, em contraposição à tendência de manutenção do estado original de fusão, há um impulso à diferenciação e individuação que visa a aquisição e estabelecimento da identidade.
Impossibilitado da fazer a “passagem”, o jovem em desenvolvimento fica amarrado às coisas conhecidas e controláveis (próprias do universo infantil) que produzem um sentimento de segurança. Aqueles que não podem desfrutar das coisas transitórias da vida (como acontece na evolução), perder umas para se ganhar outras, são os que na sua história pessoal sentiram as mudanças de forma catastrófica, ao ponto de predominarem os sentimentos de angústia e vivências de perda.
Perante o choque entre forças progressivas e regressivas prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer ao abrigo de uma genitalidade crescente e desejante como impulso para a independência e liberdade. O desejo que a criança tem de ocupar o lugar do adulto (o lugar entre os adultos) pode finalmente ser realizado, elaborando os sentimentos de perda e deixando-se capturar e fascinar pelos encantos do novo.
psicologia clínica

sábado, 4 de agosto de 2012

Quanto se pouparia em sofrimento?


Segundo um estudo publicado esta semana na revista Biological Psychiatry muito dinheiro poderia ser poupado se perante os primeiros sintomas de patologia mental fosse feita uma intervenção. Sabe-se há muito que a prevenção e a intervenção precoce limitam a progressão de quadros psicopatológicos que se podem tornar mais complexos e morosos de ser tratados. Naturalmente, o impacto socioeconómico resultante do retardar da intervenção também se fará sentir. O ângulo pelo qual se olha para a questão desvia-se do essencial, ao centrar a sua preocupação no dinheiro que se pode poupar ao invés do sofrimento que se poderia poupar.  Se tivermos que chegar ao local certo pelo caminho errado, que seja, mas nunca esquecendo que invertendo as prioridades, ou seja, pôr o dinheiro à frente, terá custos incalculáveis. 


"Não fazer prevenção da doença mental em idade escolar ou tratar crianças e jovens quando apresentam os primeiros sintomas de doenças psiquiátricas como depressão, ansiedade ou fobias pode significar a longo prazo, para um país como Portugal, uma redução de 1,4% no rendimento disponível bruto das famílias. Parece uma variação pequena, mas tendo em conta os dados de 2012 para este indicador, trata-se de uma perda anual de 1,6 mil milhões de euros." Continuar a ler aqui


Psicoterapia

Um entusiasta!





psicologia clínica

terça-feira, 31 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

Superprotecção das crianças pode favorecer obesidade


Uma atitude de superprotecção das crianças pode conduzir à ansiedade e, consequentemente, à obesidade pelo consumo de alimentos como procura de segurança, avançou hoje um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).
Os resultados preliminares de um estudo desenvolvido por investigadores da FMUP indicam que as crianças, “sobretudo as meninas”, que sejam educadas por pais superprotectores e “demasiado zelosos, podem ser mais propensas ao desenvolvimento da obesidade”.
De acordo com os investigadores, a atitude superprotectora dos pais leva a que as crianças tenham a imagem de um “mundo ameaçador”, sentindo ansiedade e tendo, consequentemente, “um aumento de cortisol, a hormona do stress”.
Os casos, classificados como “vinculação insegura” pelos especialistas, poderão ter “efeitos menos positivos” no desenvolvimento das crianças, levando-as a uma procura de segurança através de “conforto em actos básicos”, como a comida ou o bem-estar emocional junto de alguém.
“Os dados sugerem que, quando existe vinculação insegura, os rapazes tendem a exteriorizar o comportamento, tornando-se agressivos, por exemplo, mas as meninas parecem internalizar as emoções, comendo”, explicou Inês Pinto, estudante do programa Doutoral em Metabolismo da FMUP e investigadora principal do estudo.
A investigadora adiantou que os níveis elevados de stress sentidos pelas meninas leva a que não consigam ter sucesso quando sujeitas a dietas, visto que a comida é “a forma de obterem uma sensação de conforto e segurança”.
De acordo com a investigadora, os pais devem procurar ajuda para as meninas que tenham excesso de peso e uma personalidade introvertida, especialmente nos casos em que a alteração da dieta não surte qualquer efeito, mencionando ainda que os profissionais envolvidos terão que estar alerta para um possível “sofrimento não visível, que tem de ser observado por um especialista em saúde mental“.
O estudo foi orientado pelo director do Departamento de Neurociências Clínicas e Saúde Mental da FMUP, Rui Coelho, e por Conceição Calhau, professora e investigadora na área do Metabolismo.

psicologia clínica

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O grande especialista em crianças é a mãe



D. Winnicott, autor do conceito de mãe suficientemente boa, refere que esta é uma mãe atenta e capaz de se adaptar activamente às necessidades do seu filho, mas ao mesmo tempo, é capaz de frustrar criando uma desilusão gradativa necessária ao desenvolvimento.
“Com o tempo, o bebé começa a precisar da mãe para ser mal sucedido na sua adaptação (…). Para uma criança, seria muito aborrecido continuar a vivenciar uma situação de omnipotência quando ela já dispõe de mecanismos que lhe permitem conviver com as frustrações e as dificuldades do seu meio ambiente.”
Com a proliferação de estudos e livros publicados sobre bebés e crianças as mães arriscam-se a perder a intuição.
Nunca tivemos acesso a tanta informação como agora. livros, sites, artigos, blogs, aulas, terapeutas, etc. Apesar desta lista interminável os pais parecem cada vez mais inseguros e ansiosos em relação aos seus papéis.
Para cada dúvida existe um milhão de respostas, parte delas contraditórias. O conhecimento que poderiam adquirir destas leituras por vezes gera mais ansiedade do que tranquilidade.
Em grande medida a educação é a transmissão de um modelo que existe em cada um de nós. A mãe aprendeu muito mais pelo facto de já ter sido criança, de ter observado outros pais com os seus filhos, de ter brincado (fantasiado) aos pais e às mães, do que poderá aprender com este tipo de livros.
Pra além do mais, é possível que a espessa camada de informações impeça os pais de serem naturais, e só quando se desprendem dessa quantidade de instruções conseguem envolver-se mais profundamente com os filhos.
À medida que a ansiedade diminui as mães têm mais consciência das suas qualidades e dessa forma conseguem tirar mais proveito da informação disponível, conservando a intuição.
A expressão “mãe suficientemente boa” implica a ausência de um imperativo de perfeição. Ao mesmo tempo, o reconhecimento que a mãe faz das suas imperfeições deve constituir algo mais libertador do que opressivo.
A mãe já foi filha e por isso, trás consigo recordações de tê-lo sido e de ter sido cuidada por uma mãe, e estas lembranças tanto podem ajudá-la como atrapalhar na sua experiência como mãe. No entanto, só muito excepcionalmente, encontramos mães que por graves perturbações são incapazes de cuidar dos filhos ao ponto de os colocar em risco.
Felizmente todas as mães falham, não são perfeitas, e por isso não conduzem os seus filhos para um mundo falso e delirante. A mãe que falha não ama menos os seus filhos, somente segue a intuição que vem desenvolvendo e que agora nesta experiência materna experimenta.

psicologia clínica

terça-feira, 10 de julho de 2012

Complexo de Édipo



Posts relacionados:  Complexo de Édipo - Uma introdução


Psicólogo Clínico

365 razões para ficar apreensivo



O DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, surgiu nos Estados Unidos em 1952 (DSM-I) pelas mãos da APA- American Psychiatric Association e resultou da necessidade de criar um sistema de classificação que unificasse os 5 sistemas de classificação existentes.

O propósito do DSM-I era criar uma nomenclatura comum, baseada num consenso do conhecimento contemporâneo sobre os transtornos psiquiátricos. Baseado em listas de sintomas o DSM-I incluía 3 categorias de psicopatologia: síndromes cerebrais orgânicos, distúrbios funcionais e deficiência mental. Essas categorias continham 106 diagnósticos. Apenas o diagnóstico de reacção de ajustamento na infância/adolescência podia ser aplicada a crianças.

O DSM-II foi publicado em 1968 e continha 185 diagnósticos que se distribuíam por 11 grandes categorias de diagnóstico. Uma maior atenção foi dada aos problemas da criança e da adolescência com a adição dos transtornos do comportamento da infância e da adolescência.

As publicações do DSM-I e do DSM-II foram amplamente criticadas por falta de validade e confiabilidade. As descrições dos diagnósticos não eram detalhadas, deixando muito espaço para o erro. Além disso, as descrições foram feitas por um pequeno número de académicos, em vez de se apoiarem em estudos empíricos. Muitos psiquiatras criticaram o modelo implícito médico, afirmando que era inadequado, porque a causa da maioria das doenças era desconhecida. Um dos maiores críticos foi Thomas Szasz, que se tornou o líder da anti-psiquiatria. No seu livro “O Mito da Doença Mental” (1961) afirmou que os transtornos mentais são na realidade "problemas da vida" e acusava os psiquiatras de serem "polícias da moral".

Em 1980 surge o DSM-III com critérios explícitos para 15 categorias e 265 diagnósticos, ou seja, mais 80 do que a sua antecessora DSM-II. Passou de 92 páginas para 482. A DSM-III foi tão popular e obteve tantas receitas que levou à criação da imprensa psiquiátrica americana.

Devido a novas pesquisas, ensaios de campo e problemas com a codificação, a APA publicou o DSM-III-R em 1987. O DSM-III-R destinava-se a ser uma curta actualização, no entanto, as diferenças entre o III e o III-R são grandes. O DSM-III-R viu serem renomeadas, eliminadas e incluídas novas categorias. Diagnósticos controversos como a Síndrome Pré-Menstrual, Transtorno da Personalidade Masoquista, entre outros, foram descartados devido às suas implicações sociais. Ao todo o DSM-III-R continha 297 diagnósticos. Apesar de amplamente aceite, o DSM-III e o DSM-III-R foram também amplamente criticados e a evidência científica questionada.

O DSM-IV foi publicado em 1994, para reflectir a investigação realizada desde 1987, data da publicação do DSM-III-R. O DSM-IV viu serem reestruturadas várias categorias, de onde surgiram 365 diagnósticos em 886 páginas (7 vezes maior do que o DSM-II). Tal como os seus predecessores, o DSM-IV foi criticado por levantar, entre outras, questões de comorbidade e sobreposição de sintomas. Não resolveu o problema da TPM e os outros transtornos controversos foram simplesmente adicionados entre os distúrbios que requerem um estudo mais aprofundado.

O DSM-IV-TR (2000) foi lançado para corrigir quaisquer erros factuais e fazer alterações que reflectissem as pesquisas recentes. Não tinha a intenção de resolver qualquer um dos problemas de DSM-IV. Pelo contrário, as alterações eram limitadas ao texto; expressões como "esquizofrénico" foram removidas e substituídas por "um indivíduo com esquizofrenia".

Esta é a história do DSM, mas é também a história que reflecte uma certa visão da doença mental. Em 40 anos foram acrescentados 250 diagnósticos a uma lista que já continha 106. Quem ler o DSM vai encontrar muitas razões, algumas sérias, para procurar tratamento psiquiátrico. A visão distorcida do ser humano encontra-se bem espelhada nas descrições estéreis e descontextualizadas das 886 páginas do DSM-IV-R. O desejo de uniformizar e padronizar através do registo de sintomas observáveis acaba por retirar a subjectividade inerente à vida psíquica, catalogando e empacotando pessoas em categorias estatísticas. As fronteiras entre a chamada normalidade e a psicopatologia parecem não existir, entrelaçando a vivência do sofrimento com a patologia. A vida do paciente, as suas vivências, actuais ou passadas, o seja, a tentativa de compreender a relação doente/doença são desprezadas. Nesta desenfreada proliferação de diagnósticos, com perigosas incursões à infância, que se traduzem numa patologisação e medicalização da vida mental, caminha-se a passos largos para uma profunda desumanização. A DSM-V está na forja, e de bom, nada podemos esperar.

posts relacionados: Diz-me quantas vezes fazes, dir-te-ei... ; O Alienista

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Valorização pessoal (isento de iva)




Psicólogo Clínico

O que é uma psicoterapia? A minha ou a sua?


Quando o meu amigo Tristan Walker (incansável a colaborar no site) me pediu para escrever sobre psicoterapia, fiz uma busca na internet e verifiquei que quase todos os sites/blogues dizem coisas parecidas de maneiras diferentes. Ao ler senti que aqueles textos pouco dizem sobre um processo/experiência/relação intensa e profunda como é uma psicoterapia. Tratam-se de descrições com detalhes herméticos e ao mesmo tempo, vazias no essencial, dando a entender que as pessoas são todas iguais e que se devem encaixar num modelo psicoterapêutico em vez de ser a psicoterapia a ajustar-se à pessoa, no seu sofrimento pessoal, na sua singularidade, naquilo que tem de único.

Uma psicoterapia é uma experiência emocional vivida. Como tal, ela não pode, na verdade, ser traduzida, transcrita, explicada, compreendida ou contada em palavras. Ela é o que é. Qualquer esforço para a descrever ficará sempre aquém da experiência. Compreendo que as pessoas procurem saber algo de concreto, algo que as ajude a criar uma ideia sobre a dita Psicoterapia e com a ajuda dessas descrições, efectivamente a construam. No entanto, podem ler-se vários livros sobre cães mas se o leitor não tiver experienciado um cão vivo, não vai saber o que é um cão.

Tenho para mim que uma psicoterapia que promova a mudança/crescimento psicológico, ou seja, a expansão da capacidade de experimentar todo o espectro de sentimentos que podem ir da alegria à tristeza mais profunda e até ao colapso psicológico, necessita assentar em valores. Não se trata, neste caso, de valores morais ou éticos, mas valores psicoterapêuticos – respeito, verdade, responsabilidade – dos quais não se deve abrir mão.

Recentemente fui procurado por uma pessoa interessada em iniciar uma psicoterapia.

“ …contínuo a pensar que não me pode ajudar, e o Dr. deve estar a perguntar, se eu acho que não me pode ajudar porque estou aqui? Nos últimos anos tenho coleccionado garantias e promessas de resolução dos meus problemas. Quando lhe perguntei, na primeira consulta, se me podia ajudar você respondeu que não sabia, que não podia responder com a certeza de que me podia ajudar. Para quem está farto de mentiras a sua sinceridade, ainda que não tenha sido música para os meus ouvidos, foi importante para mim.”

Neste caso, a opção foi, parar e pensar. Parece-me importante que o tenha feito, interrompendo a roda-viva de saltar de consultório em consultório, à procura de uma bela melodia para os seus ouvidos. Talvez se tenha aberto para o paciente uma frincha na janela do “não saber”. O terapeuta deve ser capaz de tolerar e de ajudar o paciente a lidar com o “não saber”. O “não saber” é uma pré-condição para ser capaz de pensar, de imaginar. A imaginação, ao contrário da fantasia, que é rígida e repetitiva, mantém aberta uma multiplicidade de possibilidades de experimentação emocional.

Terapeuta e paciente devem estar empenhados no esforço de encarar a verdade, de serem honestos consigo mesmos em face da experiência emocional perturbadora. Este esforço está no âmago do processo terapêutico e dá-lhe uma direcção. Não se trata de uma busca da verdade mas do que é verdadeiro em relação ao que está acontecer no processo terapêutico, criando assim, um contexto humano no qual o paciente possa ser capaz de viver a sua experiência emocional passada e presente. Ao ajudar o paciente a enfrentar a verdade da sua experiência emocional o terapeuta deve respeitar as formas que este encontrou para manter a sua sanidade. A velocidade e o ritmo dos esforços para encarar a verdade da sua experiência emocional devem ser determinados pelo próprio paciente.

O respeito que o terapeuta deve ter para com o paciente e pelo sofrimento que ele e aqueles que lhe são próximos vivem, não só honra a dignidade humana como tem um significado terapêutico. Se as nossas intervenções não forem humanas eles não têm significado terapêutico e nessa medida não promovem a elaboração psicológica. A responsabilidade do terapeuta não é para com a psicoterapia/as teorias, mas para ajudar o paciente a realizar o trabalho psicológico que ele precisa a fim de poder viver de maneira diferente.

 
Aspectos gerais sobre Psicoterapia:

A Psicoterapia é um método de tratamento que se traduz na aplicação dos conhecimentos da Psicologia e da Psicopatologia. Trata-se de um instrumento valioso para lidar com as várias formas que o sofrimento humano pode assumir.

O tratamento psicoterapêutico ocupa actualmente um lugar importante na área da saúde ao propiciar uma visão integrada do homem, considerando as dimensões, orgânica, psíquica e social.

Mais de um século de pesquisas e desenvolvimento permitem que as Psicoterapias alcancem actualmente resultados significativos e efectivos, em relação a outras opções terapêuticas (Shedler, 2010).

No geral, os prazos de tratamento dependem dos objectivos e da gravidade do problema. Há terapias focadas em objectivos específicos que conseguem atingir resultados significativos em períodos inferiores a um ano. Há casos que obrigam a um trabalho psicoterapêutico mais demorado, dependendo problemática Estas psicoterapias podem necessitar de anos de trabalho contínuo, compensados por mudanças significativas.

Apesar de poder ser considerado, à primeira vista, um tratamento oneroso em termos de tempo e dinheiro, a psicoterapia tem-se mostrado, efectivamente, uma forma económica de tratamento. Pesquisas recentes mostram, por exemplo, que a psicoterapia diminui os índices de consumo de medicamentos e de internamentos hospitalares (Gabbard et al., 1997). É também considerada uma opção economicamente compensadora, por prevenir e eliminar problemas psicológicos que, quando não resolvidos adequadamente, levam a enormes prejuízos para as pessoas (Gabbard, 2001).

 
 
Psicoterapia

terça-feira, 26 de junho de 2012

Um grande mal-entendido


Onde havia sentimentos hoje há sintomas. Onde havia infelicidade hoje há depressão. Onde havia uma reacção “normal” (egossintónica) hoje há patologia. Ao abolir-se a reacção “normal” perante vivências inevitáveis da nossa vida, como por exemplo, a tristeza pela morte de alguém, transformando-a em sintoma, estamos a amputar a experiência humana e a enriquecer as estatísticas. O ser humano, cada vez mais alfanumérico e menos ser/humano, trilha caminhos que o conduzirão à loucura, quando, paradoxalmente, foge dela. A coragem, humilde e primária da procura, deu lugar à arrogância do pseudo-conhecimento. Este falso conhecimento assente em construções delirantes sobre o próprio e sobre o outro, mais não é que uma autofagia. Distorcendo a realidade, somos isto e somos aquilo, até deixarmos, simplesmente, de ser.







quarta-feira, 20 de junho de 2012

Furto Infantil


O furto infantil consiste na apropriação de objectos por parte da criança que simbolicamente representam uma compensação, na sua essência inconsciente, de uma frustração afectiva.
O objecto que a criança furta, independentemente do valor material, tem valor simbólico e não utilitário, na medida em que ele não é usado para resolver nenhum problema prático.
Muitas vezes, o produto do furto é distribuído pelo grupo de amigos, ganhando dessa forma a sua admiração, na procura de preencher uma lacuna afectiva.
Quando a criança possui uma maior consciência do valor material dos objectos o furto de uma coisa valiosa não lhe retira valor simbólico, pois a criança sente que tem algo valioso e desejado pelo outro, sentindo-se assim, especial.
Em alguns casos, a criança procura “repor a justiça”: “Se eles têm tantos brinquedos porque eu não posso ficar com um?”
É importante que a atitude dos pais perante a situação não corresponda a um interrogatório policial transformando um acto simbólico num traço patológico.
As apropriações de pequenos objectos não têm nas crianças um carácter patológico significativo, mas à medida que a criança cresce a continuação destes actos merece uma certa atenção. Estamos, provavelmente,  perante uma criança em sofrimento que pode andar triste ou deprimida.







quinta-feira, 24 de maio de 2012

Hiperactividade a quanto obrigas


Criança de seis anos impedida de entrar na escola por ser hiperactiva.

Alguém ficará admirado se esta criança voltar a entrar nesta escola ou noutra escola qualquer e começar a comportar-se pior que nunca? Eu não. Ela vai simplesmente responder com a moeda dela – agressividade –, à exclusão e humilhação a que tem sido sujeita. A escola não conseguiu acolher/compreender esta criança, que na sua história já sofreu outra grande exclusão – os pais –, que a deixaram, quando tinha um ano, a cargo dos avós. Se a escola só servir para ensinar a tabuada e o abecedário então é melhor que feche as portas. Esta criança, considerada doentinha da cabeça, conserva – ainda - alguma saúde mental. A sua capacidade de reagir, de mostrar pelos seus meios - que as crianças dispõem -, que não aceita ser mal tratada é prova disso. E o maluco sou eu!

 posts relacionados: Distúrbio da Hiperactividade com Défice de Atenção  ; “Crónico” quer dizer para a vida toda?

psicologia clínica

terça-feira, 22 de maio de 2012

Diálogos, monólogos e solilóquios


(Sem) um brilhozinho nos olhos

“A certa altura senti que o meu pai não esperava nada de mim. Não tinha valor para ele, não servia para nada. Desde esse momento cresceu em mim a fantasia de que me tornaria famoso mundialmente e todos invejariam a minha grandeza. Nunca fui famoso, nunca brilhei aos olhos de ninguém, mas pior que tudo isso é continuar acalentar a fantasia de que um dia serei grande. Quem me dera puder ser, simplesmente, alguém.”

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A clínica encenada # 2



"Os meus pais não percebem o sofrimento que me causaram. Estiveram sempre focados na vida deles, nas suas coisas e eu fiquei ali, esquecida. Eles nunca serão capazes de reconhecer isso.”

Mais importante do que o conteúdo (o ressentimento), é a capacidade de olhar para trás, para a sua infância, pelos seus olhos, ao invés de ver a partir do ponto de vista dos pais (centrífugo). Este tipo de separação mental é imprescindível para o desenvolvimento. Crescer implica alterar o ponto de referência (o foco, o ângulo), a partir do qual se olha para as coisas. Helena começa a olhar para sua história através do seu olho interno, ao invés de absorver e de se contentar com a história que lhe foi contada. Começa a perceber que a perspectiva do narrador condiciona a história e que os seus pais não têm que concordar e validar a sua narrativa.

À medida que constrói a sua narrativa vai elaborando as tensões, os sentimentos de raiva, de exclusão, de inveja e ciúme em relação aos pais. Este processo permite-lhe contactar com a menina que se sentiu tão sozinha durante períodos críticos da sua infância, ajudando-a a ver que não era uma "menina má", mas que os seus pais tiveram que se concentrar na sua própria sobrevivência e, assim, tornaram-se menos atentos às suas necessidades. Agora não se culpa pelos sentimentos negativos que tinha quando era criança.

O espaço para novos sentimentos gera-se ao ritmo das elaborações. A reparação inicia-se a partir do momento em que a obstrução gerada pela incapacidade de pensar (a culpa), dá lugar à criação – pensar e pensando-me. O que é crescer senão criar e recriar-se?

 

Psicoterapia

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Livros



“Acredito certamente que todos sofremos danos, de uma ou outra maneira. Como podíamos não sofrer, se não existe um mundo de pais, irmãos, vizinhos e companheiros perfeitos? E depois há a questão, de que tanta coisa depende, do modo como reagimos ao dano: quer o reconheçamos, quer o recalquemos, e como isso afecta as nossas relações com os outros. Alguns admitem o dano e tentam suavizá-lo; outros passam a vida a tentar ajudar outros que sofreram danos; e há depois aqueles cuja maior preocupação é evitar mais danos para si próprios, a qualquer preço. Esses são os implacáveis, aqueles com quem devemos ter cuidado.”

“Parece-me que pode ser esta um das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos, inventamos passados diferentes para os outros.”


“Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história de contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.”

domingo, 6 de maio de 2012

I feel like...

Psicoterapia

Psicologização. Psi quê? Importa-se de repetir?

Em virtude do aumento da presença da psicologia e dos psicólogos na vida quotidiana, começou a ouvir-se falar de psicologizar; psicologizante; psicologização. Em meu entender, esse termo, nos exemplos em que era usado, referia-se a uma atitude passiva e permissiva dos pais/educadores em relação ao comportamento das crianças e dos adolescentes. “Agora fazem tudo o que querem”; “psicologia para aqui, psicologia para ali, não sei onde isto vai parar”; “agora não se pode tocar nas criancinhas”; “no meu tempo levavam umas palmadas e acabava-se logo com as parvoíces”; “são uns delinquentes, deixam-nos fazer tudo”.
A propósito da psicologização, ocorreu-me uma “conversa” que o Dr. João dos Santos teve com João Sousa Monteiro:
«Uma mãe desejava falar-me e trazia o filho de 8 ou 9 anos. O miúdo queria assistir à conversa. Era uma família de elevado nível social e cultural, e tinham conversas muito intelectuais com os filhos. A mãe queria conversar comigo porque tinha um problema qualquer com o miúdo, e o miúdo dizia que também queria assistir à conversa, que não queria ficar de fora. Eu disse-lhe: “Não não, tu agora esperas aí porque eu preciso falar com a tua mãe, ela tem umas coisas para me dizer que não quer que tu oiças, portanto esperas aí fora”. E o miúdo disse-me assim: “mas eu posso ouvir tudo, porque eu até sei o que é o superego”. E eu disse-lhe: “tu não sabes nada o que é o superego, o superego não é nada disso que tu imaginas, é isto que eu te vou mostrar”. Agarrei-o por um braço e disse-lhe: “se tu não vais já lá para fora, levas dois estalos e então ficas logo a saber o que é o superego».
É inimaginável que um psicólogo exerça algum tipo de violência sobre um paciente/criança. Aqui não se trata de violência mas de relocalização no espaço – cada um deve ter o seu lugar. É bastante tranquilizador para a criança que já tem capacidade de distinguir os espaços, saber qual é o seu e qual é o do outro. Mas mais importante que isso, é a criança sentir que quando entra em espaços alheios (apesar de muito desejados), existe alguém que lhe põe um limite e a impede de pisar certos terrenos.
Actualmente, as crianças são vistas de forma muito diferente e a psicologia deu o seu contributo ao emprestar uma maior compreensão deste “ser complexo”. Daí resultaram, como resultam sempre, várias interpretações e respectivas aplicações. A psicologização parece ser uma delas.


psicologia clínica

terça-feira, 1 de maio de 2012

Terapia é


Psicoterapia

Saúde Mental

Um dia, a mãe do Miguel, preocupada porque o via muitas vezes triste, perguntou-lhe:
– O que é que tens, Miguel, o que se passa contigo?
– Não me apetece viver – respondeu o miúdo.
A mãe, surpreendida com aquela resposta assim tão inesperada, e ao mesmo tempo tão directa, tão verdadeira perguntou-lhe:
– Porque é que não te apetece viver?
– Porque não gosto de mim – respondeu o Miguel.
Contou-me a mãe mais tarde que às vezes, quando estava sozinha com ele e o via triste, perguntava-lhe porque ele estava triste, e o Miguel respondia-lhe, naquela sua maneira directa e verdadeira de sempre: – Já sabe o que é, é sempre pela mesma razão, não gosto de mim.
João dos Santos – O que é importante é que isso que o Miguel sente e diz, revela uma grande saúde mentalda parte dele. Para nós, psicanalistas, a saúde mental não consiste num indivíduo ser sólido assim como o granito, ou rígido como uma estátua. A saúde mental consiste na pessoa ser capaz de se movimentar livremente dentro de si, e os movimentos de tristeza são tão importantes como os movimentos de alegria.
In “João dos Santos – Se não sabe porque é que pergunta?
conversas com João Sousa Monteiro.”



psicologia clínica

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Distúrbio da Hiperactividade com Défice de Atenção

Nos últimos 30 anos, o PHDA (distúrbio da hiperactividade com défice de atenção) parece ter-se tornado numa epidemia na nossa sociedade, com uma em cada 10 de todas as crianças de dez anos de idade medicada para estes sintomas. Os pais cujos filhos apresentam estes sintomas têm que decidir, se o filho deve ou não ser medicado, na maioria das vezes, sem terem informação suficiente. Para além do mais, há um problema identificado; os pais estão pressionados para agir. Com o intuito de poder ajudar os pais a decidir, Aqui fica um artigo recentemente publicado no New York Times: "Ritalin Gone Wrong" de L. Alan Sroufe.



psicologia clínica

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sobre o narcisismo # 1


A prótese narcísica é uma forma de compensação por sentimentos (principalmente) de inferioridade.
Através desta estratégia de compensação procura-se obter uma nova imagem de si através da correcção da falha (narcísica).
Uma vez que a falha se situa ao nível interno, este processo está condenado ao fracasso. Por muitos pincéis e tintas que se use para retocar a imagem , por baixo ela mantém-se inalterada. Esta tentativa de engrandecimento não passa de uma luta inglória, porque, apesar de um esforço continuado, é remar contra a maré.
Os recursos em vez de serem colocados ao serviço do próprio são desperdiçados em manobras, muitas vezes desesperadas, de esconder – desse ser que se pretende grandioso – todas as imperfeições.
Por não compreender mais profundamente os sentimentos de inferioridade e assim procurar a ultrapassá-los, vive-se confinado entre a imagem negativa e distorcida de si (porque só consegue ver-se parcialmente) e a imagem desejada de grandeza. Flutuando, sem ser uma coisa nem outra, dará à costa trazido pela maré.
psicologia clínica

domingo, 22 de abril de 2012

A clínica encenada

Maria tem 32 anos e uma filha de 7. Maria está constantemente a sufocar a filha com as suas preocupações injustificadas, da mesma forma que a mãe a sufocava a ela. Reconhece isso, mas sente que não consegue mudar.
Força-se a ser diferente, acabando muitas vezes por ser um híbrido materno sem consistência afectiva. Procura a terapia com a esperança de se tornar uma mãe melhor do que a sua, e com isso poder desfrutar (em vez de contaminar) da relação com a filha.
Juntos, Maria e eu exploramos a sua identificação com a mãe e a incapacidade de separar-se dela. Através de novas identificações (não tóxicas) é possível avançar lentamente.
A distância não é corte, é continuidade (de existir).
Com o decorrer da psicoterapia sente menos necessidade das minhas intervenções. Começa a poder fazer escolhas e a reconhecer as opções como sendo suas. Essa liberdade crescente permite-lhe iniciar pequenos percursos (dentro e fora da terapia), com esforço, mas com igual prazer.
O desenvolvimento da capacidade de compreender e aceitar os relacionamentos nas suas múltiplas dinâmicas levam-na a usufruir da ligação com outros e em particular com a filha.
Apanhada na rede da transmissão intergeracional, onde de pais para filhos se perpetua certo tipo de funcionamento mental, parece agora, mais perto, de pôr fim a esse ciclo.



Psicoterapia