quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Implodir ou explodir?


Implodir ou explodir? A resposta não é fácil e, normalmente, a decisão está dependente dos (supostos) efeitos colaterais da explosão, ou seja, como recuperar dos danos resultantes – reais ou imaginados.
Embora provoque grandes estragos, a implosão (explosão interna) tem a “vantagem” de ser controlada pelo próprio.
Já na explosão (externa), o maior receio é a imprevisibilidade quanto aos (supostos) estragos. Temem-se os efeitos no outro e o reflexo no próprio.
É complicado abordar esta questão sem sabermos o que está por trás, mas tomemos o exemplo:
Imaginemos que a Filipa diminui e amesquinha constantemente a Inês através de observações desagradáveis, comentários depreciativos e a responsabiliza por tudo o que corre mal. Um dos efeitos nefastos da Inês não reagir traduz-se no desenvolvimento de sentimentos de desvalorização e de inculpação – absorção da maldade do outro transformando-a sua-; algo que se pode enraizar profundamente no Eu a ponto de se constituir como parte integrante deste.
Neste caso seria de supor que a “explosão” seria a resposta adequada, mas há um senão. O que representa a Filipa para a Inês? Se pensarmos que se trata de uma figura afectivamente muito importante é natural que o vontade da Inês reagir possa ser bloqueada devido ao receio (normalmente fantasiado) de vir a perder a relação com a Filipa. Quando o receio é muito grande dá-se a implosão.
Uma das conclusões que se podem tirar é que certas dinâmicas relacionais implicam custos muito altos.
As coisas não são tão simples como tentei demonstrar, são, até, muito mais complexas. Cada caso é um caso, mas implodir não é a solução, mas antes, uma forma de perpetuar certos padrões relacionais.


Psicoterapia

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Complexo de Édipo - Uma introdução


 Tendo em conta que um dos posts mais visto no blog é o “Complexo de Édipo”, e para desalento de alguns, não encontram mais do que uma tira humorística, que ainda por cima, reforça a ideia prevalecente e pouco precisa em relação ao C.E.: matar o pai e ficar com a mãe; decidi voltar ao tema. Para clarificar um pouco o mito Edipiano temos que ir à origem: Rei Édipo de Sófocles.

Antes de mais, é preciso dizer que o “Complexo de Édipo” é uma metáfora criada para descrever uma quantidade de ideias, emoções e impulsos, em grande parte inconscientes, que gravitam em torno das relações que as crianças estabelecem com os seus pais. O Complexo de Édipo aponta para a angústia e culpa que a criança sente em relação aos seus desejos, assim como para as consequências de agir de acordo com eles.

É complicado compreender esta metáfora se não estivermos familiarizados com a tragédia de Sófocles, Rei Édipo. A história de Édipo começa com a traumatização psicológica e física de uma criança por aqueles que deveriam ser os seus protectores, os pais.

Laio e Jocasta, Reis de Tebas, foram advertidos pelo oráculo que o filho deles, o bebé Édipo, estava fadado a assassinar o próprio pai. Este, depois de lhe terem trespassado os pés com uma lança, é entregue a uma pastor por Jocasta, com instruções para ser abandonado no deserto para morrer.

Édipo acaba por escapar à sua morte prematura sendo cuidado pelos reis de Corinto, Polybus e Merope, e cresce acreditando que estes são os seus verdadeiros pais.

Quando certo dia é-lhe sugerido que os Reis de Corinto não eram os seus pais; Édipo fica tão consternado que vai consultar o oráculo de Delfos, e este diz-lhe, que ele matará o seu pai e casará com a sua própria mãe. Acometido com essa profecia e desejando ardentemente proteger aqueles que pensa serem os seus pais, sai de corinto decidido a não voltar.

Entretanto numa encruzilhada tem um desentendimento e mata um homem – Laio, o seu pai.

Por fim Édipo chega a Tebas que está nesse momento assolada pela Esfinge, que instalada num penhasco propõe enigmas a todos os que passam por perto, matando qualquer um que não desse a resposta correcta. Édipo, destroçado com tudo o que tem acontecido, e não tendo muito apreço pela vida, aceita o desafio da esfinge e consegue resolver o enigma que ela lhe apresentou. Como recompensa por ter libertado Tebas, Édipo é feito rei e casa com Jocasta.

Muitos anos depois, abate-se sobre Tebas a peste como punição do assassinato não vingado de Laio. Édipo, vai então procurar o assassino e a verdade é revelada. No fim da tragédia, Jocasta suicida-se e Édipo cega-se.

Aquilo que se entende por Complexo de Édipo tem um significado simbólico de grande riqueza referencial. Entender o Complexo de Édipo como: rapazinhos que querem matar o pai e casar com a mãe é de extrema simplificação, ou mesmo descabido. É preciso não esquecer que quando Édipo matou Laio e acabou casado com Jocasta, este não sabia que estes eram os seus verdadeiros pais. Na verdade Édipo saiu de Corinto para proteger aqueles que julgava serem os seus pais.


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psicologia clínica

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O meu segundo amor




psicologia clínica

Trauma - uma introdução


No Vocabulário de Psicanálise, Laplanche e Pontalis descrevem trauma ou traumatismo (psíquico) como:
“Acontecimento da vida do indivíduo que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se acha o indivíduo de lhe responder de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogénicos duradouros que provoca na organização psíquica.”
No entanto, nem toda a experiência de trauma é um acontecimento específico; ele pode ser cumulativo. Neste caso, uma vez que as causas são menos claras, torna-se mais difícil de lidar.
Conceito importante associado ao de trauma, é o de sinal de angústia.
Laplanche e Pontalis referem:” O sinal de angústia reproduz de forma atenuada a reacção de angústia vivida primitivamente numa situação traumática, o que permite desencadear operações de defesa.”
Segundo P. Casement, quando se considera a revivência do trauma é importante pensar em conjuntos inconscientes.
“Isso dá-nos uma lógica em termos da qual podemos entender como a mente regista inconscientemente elementos particulares como sendo da mesma natureza – porque foram anteriormente vivenciados juntos. Assim eles passam a ser estabelecidos como relacionados, de forma atemporal e sem excepção. Para o inconsciente a parte pode representar o todo, logo, qualquer coisa associada a uma situação traumática pode representar o trauma como um todo e pode deflagrar o sinal de ansiedade, alertando a mente inconsciente como se aquela situação traumática estivesse na eminência de se repetir.”
P. Casement dá-nos um exemplo através de uma vinheta clínica:
Uma menina de dois anos de idade foi levada pela mãe para ser vacinada antes de viajar para o estrangeiro. Para poder aplicar a vacina na coxa da criança, o médico pediu à mãe para levantar o vestido da filha. Até aí nada de anormal, à excepção, talvez, da presença desse relativamente estranho – o médico de família. Mas depois de ficar chocada com a súbita dor da injecção, foram necessários alguns meses para que a criança fosse capaz de recuperar da experiência que parecia estar sempre iminente. Mais especificamente, ela demonstrava um claro sinal de ansiedade sempre que a mãe tentava trocar-lhe as roupas.
Qualquer tentativa da mãe de levantar o vestido da criança era recebida com gritos. Uma reacção semelhante era evidente quando se tirava qualquer outra peça de roupa; quanto mais perto da parte inferior do corpo mais intensa era a reacção. Outras pessoas tinham mais sucesso do que a mãe nessa operação, mas ninguém podia levantar-lhe o vestido.
Podemos ver neste exemplo como várias associações relacionadas com a situação de perigo foram estabelecidas em torno do trauma original.
As mais específicas eram as seguintes: a mãe com a criança ao colo levantando o vestido.
Associações menores também podiam ser identificadas: roupas perto da coxa e pessoas como a mãe.
Era perceptível que a criança tinha mais confiança no pai do que na mãe quando estava no colo. Mas quando a criança estava no colo de outra pessoa, o pai tornava-se a fonte de ansiedade caso estendesse as mãos para ajudar a tirar a roupa.
Por isso, dava a sensação de existirem diferentes níveis de associação a funcionar: uma pessoa-colo do sexo feminino era mais temida do que uma pessoa-colo do sexo masculino, particularmente quando associada à tentativa de tirar a roupa. Também um homem de braços estendidos para ajudar, quando associado à tentativa de tirar roupas, era mais temido do que uma mulher na mesma posição.
Neste exemplo podemos ver que o trauma passou a ser associado a um conjunto de elementos principais: estar no colo de uma mulher; roupas removidas ou levantadas; um homem a estender as mãos para fazer algo.
Reconhecendo intuitivamente as associações às quais sua filha reagia, a mãe encontrou uma maneira de lidar com o problema.
Ao colocar a criança na banheira e molhando as roupas, ao invés de tentar despi-la ao colo distanciou-se da situação traumática. Conseguiu então tirar roupas que estavam molhadas em vez de secas. Roupas molhadas não tinham participado no trauma original, de modo que essa diferença permitiu à criança aceitar uma nova maneira de se despir, apesar de que remover roupas ainda era parte daquilo que a mãe fazia.
Ela não estava, portanto, evitando completamente a experiência, mas encontrando uma maneira de fazer face a ela – na medida em que a criança estava em condições de a tolerar.
Gradualmente os vínculos associativos tornaram-se mais fracos e as roupas secas também puderam ser removidas: primeiro, removidas quando ela estava sentada numa banheira vazia e, depois, sentada ao colo da mãe.


psicologia clínica

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quem não chora não mama


                                                             

 - Ninguém sabe como me sinto, ninguém se interessa…
 - Você já disse a alguém como se sente?

A expectativa de que os outros saibam como nos sentimos sem necessidade de o manifestar, na maioria das vezes, não se concretiza.

Naturalmente, o próprio, coloca a questão em relação ao outro: Ele não se interessa, não gosta de mim, é um ingrato…….

O ângulo que me parece mais importante observar é o do próprio. O desejo de ser entendido sem necessidade do expressar encontra paralelo na infância precoce onde a mãe consegue antecipar os desejos/necessidades da criança e os satisfaz. Mas excluindo este “fenómeno” que resulta de uma profunda ligação (fusão) mãe-bebé, e, que para o bem de todos se desfaz gradualmente, a criança vai desde o início manifestando as suas necessidades e procura pelos meios de dispõe que elas sejam satisfeitas. Com o crescimento a criança vai adquirindo capacidades e uma das mais importantes é a linguagem. A partir desse momento dispõe de um valioso e complexo meio de expressão.


“Quem não chora não mama”

Se não é fácil pedir ajuda, para algumas pessoas isso é quase impossível. Pedir representa uma falha, uma fragilidade que é necessário ocultar. Quando pedem ajuda fazem-no de uma forma atabalhoada e encoberta que mais parece que não precisam de nada. O receio de pedir e não receber não só expõe a falha como a amplia. Então, numa satisfação perversa, aguentam estoicamente em silêncio, alimentando sentimentos hostis em relação ao outro, que geram distância em vez de proximidade.


Está na altura de começar a falar                                                                                  


   psicologia clínica

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

De pequenino se torce o pepino


       

           A Vénus das Peles





psicologia clínica

Liberdade de escolha


O governo Sueco (provavelmente, com a melhor das intenções) ávido de resultados e impelido por questões financeiras decidiu que iria apoiar um modelo de psicoterapia em detrimento de todos os outros. Quando chegou altura de analisar os resultados, os responsáveis suecos concluíram que se tinham equivocado, não só os resultados não foram os esperados como superaram as piores expectativas. Apostou tudo no vermelho e saiu preto. Acontece.

Como já é hábito, as pessoas que não tiveram oportunidade de escolha, que se sujeitaram a algo que não era bom para elas e que, acredito, perderam muito com isso, não são consideradas. Adiante.

Independentemente das qualidades subjacentes a cada modelo psicoterapêutico, aqui estamos a falar de liberdade de escolha. As pessoas não são todas iguais, felizmente são até bastantes diferentes, por isso devem ser elas que, informadas, devem escolher aquilo que julgam ser melhor e caso concluam que não é o indicado, devem poder mudar livremente.

Esta tendência de uniformização e catalogação das pessoas em patologias (o deprimido, o psicótico, o hiperactivo) e por conseguinte, abordagens terapêuticas especificas para certos diagnósticos, não se mostra eficiente. Mas Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha, e continua-se a insistir. Todos os deprimidos do mundo são iguais, todas as depressões são iguais, todos os terapeutas são iguais. Há coisas que nem parecem difíceis de entender.




Psicoterapia

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ó tempo volta pra trás. Já!




“Foi-se o tempo em que … bastava “apenas um olhar do pai” para que as crianças se reposicionassem no seu lugar de filho.“Nesse outro tempo” tínhamos a impressão que tudo tinha o seu “lugar”.

Nessa época não se ouvia falar em hieractividade. As crianças eram definidas como seres mal-educados que precisavam de uma educação rígida e rigorosa para se tronarem adultos civilizados.

…a religião e a tradição asseguravam o lugar do pai na família. … a autoridade do pai era sustentada não apenas pela mãe dentro de casa, mas, na esfera pública e politica, através da religião e dos costumes. Nesse mesmo lastro residia a autoridade do professor e dos adultos em geral.

Esse cenário começou a mudar a partir de um longo processo de transformações históricas e sociais que solapou a tradição e a religião enquanto organizadores da família e da sociedade.

A valorização da criança produzida pelo capitalismo, em que a mesma passou a sustentar a promessa de fabricação do adulto de futuro, produziu não apenas a valorização da mulher como mãe, mas, instituiu uma preocupação do estado em limitar e regular cada vez mais os poderes do pai, visando proteger a mulher e os filhos da sua arbitrariedade.

O filho tornou-se propriedade privada da mulher-mãe. Ao pai, restou um colchão ao lado da cama do casal, agora ocupado pela mãe e pelo filho. Quando ele intervém, é logo interpelado pela sua mulher com um “cala a boca, você não sabe nada”. O homem-pai viu-se reduzido a uma criança que não sabe nada, nem sobre a vida doméstica nem sobre os filhos. Ela briga com ele como briga com uma criança: “não faça isso! Faça aquilo. Você não sabe de nada!” Diante dessa mãe omnipotente, o homem viu-se reduzido a uma criança impotente.

Pois bem, se na família patriarcal a autoridade era atribuída ao pai, na família moderna a mãe passou a ocupar esse lugar.

 Diante da crise de referências instituída a partir da queda da tradição, o pai, não sabendo qual seu lugar, viu-se reduzido a uma condição infantil, ora toma a mãe como modelo de relação com os filhos, funcionando como uma “segunda mãe”, ora se identifica com a criança, demandando à mãe mais cuidados do que deveria.

Como consequência dessa crise de referências, temos encontrado um cenário muito assustador: crianças que dormem com os pais, ainda usam fraldas apesar da idade, têm dentes mas ainda tomam mamadeira. São grandes em peso e altura, mas vivem no colo dos pais.

As crianças não conhecem a frustração. Privadas da intervenção educativa, pouco a pouco vão-se tornando pequenos monstros assustadores e demandantes: querem “tudo” e ao mesmo tempo “nada”. As crianças tornaram-se pequenos tiranos e os pais escravos da tirania dos filhos.

Quando essas crianças chegam à escola … não conseguem concentrar-se e não aprendem.

Ao não reconhecer a desorganização da criança como proveniente da sua própria renúncia, os pais recorrem a um “outro-especialista” buscando uma resposta sobre o que se passa com o seu filho. Este por sua vez, capturado numa formação organicista pautada no modelo biomédico – modelo que reduz todo e qualquer problemática humana a um defeito no funcionamento biológico – vê-se obrigado a diagnosticar a má educação da criança como hiperactividade.

Impotentes face à demanda dos pais e das escolas, os médicos medicam. Aliás, o que poderiam fazer além de medicar? … Talvez os médicos pudessem dizer: ”Seu filho precisa limites!!!”. Mas certamente seriam considerados maus médicos. Pois, ao denunciar a necessidade de limites, denunciariam as renúncias educativas dos pais!

Não sabendo o que fazer com os pequenos tiranos, solicitam à ciência e à medicina algum limite, mesmo que seja químico!

Como sabemos, um adulto precisa aprender a viver e a ter horários para dormir, assim como o adolescente precisa aprender modos de relacionamento com o outro para transar. Por isso fica a pergunta: Será que uma criança poderia prescindir dos adultos para se tornar civilizada? Ou de facto acreditam que uma dose diária da “droga” seria suficiente para educá-la? Depois não me venham com campanhas “Crack nem pensar!!!”


Transcrição parcial (adaptada) do artigo: A fabricação da loucura na infância, Michele Kamers




psicologia clínica

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Stand-up Psychology


Um pouco por todo o lado proliferam “terapias” que vão ao encontro das necessidades dos dias de hoje: soluções rápidas - fast -, de preferência imediatas. Soluções milagrosas, heregemente apoiadas por uma pseudociência, que se resume a estatísticas, cujo método se equipara aos estudos de mercado. Não é nada de novo, inovador, trata-se de velhas fórmulas adaptadas aos nossos dias; fruta em garrafinhas em vez de uma peça de fruta para descascar ou comer com casca.

Em substituição de fórmulas ultrapassadas aparece em forma de Stand-up Psychology (direccionada para as massas), acompanhada de bestsellers com títulos a condizer – Lições de sedução; Não quero crescer; Benvinda dor; Histórias de divã e encontros (O lado B do amor) – um ramo da já conhecida Psicologia Positiva.

E resulta? Se resulta!!!

A felicidade, a sempre desejada, seja através de iogurtes ou cremes faciais continua a vender como se não houvesse amanhã. Mas a forma mais tentadora de ser apresentada é: Faça você mesmo – está nas suas mãos -. Só mesmo os muito preguiçosos desperdiçarão a oportunidade de mudarem a vida com as suas próprias mãos e retirarem os louros desse passo grandioso.

Nada se consegue sem trabalho, por isso também deve ser dado mérito aos empreendedores da Stand-up Psychology. 1º - Humanos como todos os outros falam dos seus problemas, que são iguais aos de toda a gente. 2º - Como os resolvem ou resolveram. 3º Vejam como nós, simples humanos como vocês, estamos de bem com a vida.

Os méritos não terminam aqui. O mérito principal – a razão do sucesso - é o de apresentar uma resposta, uma direcção. Certa ou errada, parece que tanto faz. As pessoas precisam de respostas. Não as encontram sozinhas e esperam que as ajudem a encontrar. Isto deve levar os psicólogos a reflectir.

Roma e Pavia não se fizeram num dia.

É preciso ter em conta, que muitas vezes não há resposta imediata, e, tão importante como não ter resposta é considerar porque não se consegue encontrá-la. Todos deveríamos ser capazes de ter solução para tudo? Não, infelizmente ou felizmente, não há solução para tudo. Mas se a falta de resposta significa ficar paralisado então é preciso ajudar a desbloquear.

Numa altura em que os relacionamentos têm um carácter faceboquiano, vulgo, superficial, muitas das possibilidades de resposta perderam-se algures. A procura afectiva da resposta é sempre a melhor e sem dúvida a que obtém melhores resultados. É no entrelaçado afectivo que se gera a confiança interna, indutora e catalisadora do pensamento criativo perante as dificuldades.

Mas não será tudo isso demasiado superficial? Sim, mas não é obrigatório que todas as pessoas estejam interessadas em grandes aprofundamentos. A escolha deve ser livre mas informada. O facto de ser superficial não significa que não seja suficiente para alguns. Perante uma casa que necessita ser recuperada há pelo menos duas possibilidades. Uma reabilitação profunda (reconstrução) ou uns retoques superficiais na pintura. É uma opção que vai depender de dinheiro, tempo e disponibilidade mental. Quem optar pelos retoques não pode esperar o mesmo que aquele que se decidiu pela reconstrução; as pinturas não duram muito tempo mas deixam as casas mais bonitas e em alguns casos habitáveis, e isso não é de somenos importância.

Jamais deve confundir-se uma mudança superficial com uma aparente mudança. E nestes casos parece tratar-se de algo simplesmente aparente. Temas como: porque as mulheres têm o passatempo uterino de arranjar homens idiotas, podem ser divertidos e provocar grandes gargalhadas mas jamais levará alguém a compreender as suas escolhas afectivas.

 As pessoas estão cheias de “nadas”, proposta ilusória do tudo. Tudo é possível. Não. Não é tudo possível, alcançável e concretizável. É preciso dizê-lo.




Psicoterapia

O Elogio da estupidez






Psicólogo Clínico

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um entristecido adeus à infância


Crescer é abdicar dos sonhos de infância e aceitar o nosso passado com todas as imperfeições que possa ter tido. É viver entre um entristecido adeus à infância – ou seja, a si mesmo e aos objectos do passado – e à superação gradual, ansiosa e esperançada, de muitas barreiras até à entrada no desconhecido mundo da vida adulta.
Na adolescência – onde se vivenciam estados afectivos de luto e paixão – dá-se um corte com as ligações da infância e com a dependência dos pais. O jovem estabelece novos vínculos e adquire capacidade para novas experiências afectivas e sexuais. Desidealiza as figuras parentais e procura novos modelos exteriores. Para além da mudança de objecto de amor, há também mudança de objectivos. Os interesses deixam de ser quase exclusivamente narcísicos (característicos da infância) para passarem a ser sociais.
O desejo de parar o tempo, a mudança, pode ser considerada uma excepção, que se deve, essencialmente, a uma incapacidade de enfrentar o novo. No desenvolvimento normal, em contraposição à tendência de manutenção do estado original de fusão, há um impulso à diferenciação e individuação que visa a aquisição e estabelecimento da identidade.
Impossibilitado da fazer a “passagem”, o jovem em desenvolvimento fica amarrado às coisas conhecidas e controláveis (próprias do universo infantil) que produzem um sentimento de segurança. Aqueles que não podem desfrutar das coisas transitórias da vida (como acontece na evolução), perder umas para se ganhar outras, são os que na sua história pessoal sentiram as mudanças de forma catastrófica, ao ponto de predominarem os sentimentos de angústia e vivências de perda.
Perante o choque entre forças progressivas e regressivas prevalece a expectativa de uma independência com realizações pessoais e prazeres por satisfazer ao abrigo de uma genitalidade crescente e desejante como impulso para a independência e liberdade. O desejo que a criança tem de ocupar o lugar do adulto (o lugar entre os adultos) pode finalmente ser realizado, elaborando os sentimentos de perda e deixando-se capturar e fascinar pelos encantos do novo.
psicologia clínica

sábado, 4 de agosto de 2012

Quanto se pouparia em sofrimento?


Segundo um estudo publicado esta semana na revista Biological Psychiatry muito dinheiro poderia ser poupado se perante os primeiros sintomas de patologia mental fosse feita uma intervenção. Sabe-se há muito que a prevenção e a intervenção precoce limitam a progressão de quadros psicopatológicos que se podem tornar mais complexos e morosos de ser tratados. Naturalmente, o impacto socioeconómico resultante do retardar da intervenção também se fará sentir. O ângulo pelo qual se olha para a questão desvia-se do essencial, ao centrar a sua preocupação no dinheiro que se pode poupar ao invés do sofrimento que se poderia poupar.  Se tivermos que chegar ao local certo pelo caminho errado, que seja, mas nunca esquecendo que invertendo as prioridades, ou seja, pôr o dinheiro à frente, terá custos incalculáveis. 


"Não fazer prevenção da doença mental em idade escolar ou tratar crianças e jovens quando apresentam os primeiros sintomas de doenças psiquiátricas como depressão, ansiedade ou fobias pode significar a longo prazo, para um país como Portugal, uma redução de 1,4% no rendimento disponível bruto das famílias. Parece uma variação pequena, mas tendo em conta os dados de 2012 para este indicador, trata-se de uma perda anual de 1,6 mil milhões de euros." Continuar a ler aqui


Psicoterapia

Um entusiasta!





psicologia clínica

terça-feira, 31 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

Superprotecção das crianças pode favorecer obesidade


Uma atitude de superprotecção das crianças pode conduzir à ansiedade e, consequentemente, à obesidade pelo consumo de alimentos como procura de segurança, avançou hoje um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).
Os resultados preliminares de um estudo desenvolvido por investigadores da FMUP indicam que as crianças, “sobretudo as meninas”, que sejam educadas por pais superprotectores e “demasiado zelosos, podem ser mais propensas ao desenvolvimento da obesidade”.
De acordo com os investigadores, a atitude superprotectora dos pais leva a que as crianças tenham a imagem de um “mundo ameaçador”, sentindo ansiedade e tendo, consequentemente, “um aumento de cortisol, a hormona do stress”.
Os casos, classificados como “vinculação insegura” pelos especialistas, poderão ter “efeitos menos positivos” no desenvolvimento das crianças, levando-as a uma procura de segurança através de “conforto em actos básicos”, como a comida ou o bem-estar emocional junto de alguém.
“Os dados sugerem que, quando existe vinculação insegura, os rapazes tendem a exteriorizar o comportamento, tornando-se agressivos, por exemplo, mas as meninas parecem internalizar as emoções, comendo”, explicou Inês Pinto, estudante do programa Doutoral em Metabolismo da FMUP e investigadora principal do estudo.
A investigadora adiantou que os níveis elevados de stress sentidos pelas meninas leva a que não consigam ter sucesso quando sujeitas a dietas, visto que a comida é “a forma de obterem uma sensação de conforto e segurança”.
De acordo com a investigadora, os pais devem procurar ajuda para as meninas que tenham excesso de peso e uma personalidade introvertida, especialmente nos casos em que a alteração da dieta não surte qualquer efeito, mencionando ainda que os profissionais envolvidos terão que estar alerta para um possível “sofrimento não visível, que tem de ser observado por um especialista em saúde mental“.
O estudo foi orientado pelo director do Departamento de Neurociências Clínicas e Saúde Mental da FMUP, Rui Coelho, e por Conceição Calhau, professora e investigadora na área do Metabolismo.

psicologia clínica

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O grande especialista em crianças é a mãe



D. Winnicott, autor do conceito de mãe suficientemente boa, refere que esta é uma mãe atenta e capaz de se adaptar activamente às necessidades do seu filho, mas ao mesmo tempo, é capaz de frustrar criando uma desilusão gradativa necessária ao desenvolvimento.
“Com o tempo, o bebé começa a precisar da mãe para ser mal sucedido na sua adaptação (…). Para uma criança, seria muito aborrecido continuar a vivenciar uma situação de omnipotência quando ela já dispõe de mecanismos que lhe permitem conviver com as frustrações e as dificuldades do seu meio ambiente.”
Com a proliferação de estudos e livros publicados sobre bebés e crianças as mães arriscam-se a perder a intuição.
Nunca tivemos acesso a tanta informação como agora. livros, sites, artigos, blogs, aulas, terapeutas, etc. Apesar desta lista interminável os pais parecem cada vez mais inseguros e ansiosos em relação aos seus papéis.
Para cada dúvida existe um milhão de respostas, parte delas contraditórias. O conhecimento que poderiam adquirir destas leituras por vezes gera mais ansiedade do que tranquilidade.
Em grande medida a educação é a transmissão de um modelo que existe em cada um de nós. A mãe aprendeu muito mais pelo facto de já ter sido criança, de ter observado outros pais com os seus filhos, de ter brincado (fantasiado) aos pais e às mães, do que poderá aprender com este tipo de livros.
Pra além do mais, é possível que a espessa camada de informações impeça os pais de serem naturais, e só quando se desprendem dessa quantidade de instruções conseguem envolver-se mais profundamente com os filhos.
À medida que a ansiedade diminui as mães têm mais consciência das suas qualidades e dessa forma conseguem tirar mais proveito da informação disponível, conservando a intuição.
A expressão “mãe suficientemente boa” implica a ausência de um imperativo de perfeição. Ao mesmo tempo, o reconhecimento que a mãe faz das suas imperfeições deve constituir algo mais libertador do que opressivo.
A mãe já foi filha e por isso, trás consigo recordações de tê-lo sido e de ter sido cuidada por uma mãe, e estas lembranças tanto podem ajudá-la como atrapalhar na sua experiência como mãe. No entanto, só muito excepcionalmente, encontramos mães que por graves perturbações são incapazes de cuidar dos filhos ao ponto de os colocar em risco.
Felizmente todas as mães falham, não são perfeitas, e por isso não conduzem os seus filhos para um mundo falso e delirante. A mãe que falha não ama menos os seus filhos, somente segue a intuição que vem desenvolvendo e que agora nesta experiência materna experimenta.

psicologia clínica

terça-feira, 10 de julho de 2012

Complexo de Édipo



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Psicólogo Clínico

365 razões para ficar apreensivo



O DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, surgiu nos Estados Unidos em 1952 (DSM-I) pelas mãos da APA- American Psychiatric Association e resultou da necessidade de criar um sistema de classificação que unificasse os 5 sistemas de classificação existentes.

O propósito do DSM-I era criar uma nomenclatura comum, baseada num consenso do conhecimento contemporâneo sobre os transtornos psiquiátricos. Baseado em listas de sintomas o DSM-I incluía 3 categorias de psicopatologia: síndromes cerebrais orgânicos, distúrbios funcionais e deficiência mental. Essas categorias continham 106 diagnósticos. Apenas o diagnóstico de reacção de ajustamento na infância/adolescência podia ser aplicada a crianças.

O DSM-II foi publicado em 1968 e continha 185 diagnósticos que se distribuíam por 11 grandes categorias de diagnóstico. Uma maior atenção foi dada aos problemas da criança e da adolescência com a adição dos transtornos do comportamento da infância e da adolescência.

As publicações do DSM-I e do DSM-II foram amplamente criticadas por falta de validade e confiabilidade. As descrições dos diagnósticos não eram detalhadas, deixando muito espaço para o erro. Além disso, as descrições foram feitas por um pequeno número de académicos, em vez de se apoiarem em estudos empíricos. Muitos psiquiatras criticaram o modelo implícito médico, afirmando que era inadequado, porque a causa da maioria das doenças era desconhecida. Um dos maiores críticos foi Thomas Szasz, que se tornou o líder da anti-psiquiatria. No seu livro “O Mito da Doença Mental” (1961) afirmou que os transtornos mentais são na realidade "problemas da vida" e acusava os psiquiatras de serem "polícias da moral".

Em 1980 surge o DSM-III com critérios explícitos para 15 categorias e 265 diagnósticos, ou seja, mais 80 do que a sua antecessora DSM-II. Passou de 92 páginas para 482. A DSM-III foi tão popular e obteve tantas receitas que levou à criação da imprensa psiquiátrica americana.

Devido a novas pesquisas, ensaios de campo e problemas com a codificação, a APA publicou o DSM-III-R em 1987. O DSM-III-R destinava-se a ser uma curta actualização, no entanto, as diferenças entre o III e o III-R são grandes. O DSM-III-R viu serem renomeadas, eliminadas e incluídas novas categorias. Diagnósticos controversos como a Síndrome Pré-Menstrual, Transtorno da Personalidade Masoquista, entre outros, foram descartados devido às suas implicações sociais. Ao todo o DSM-III-R continha 297 diagnósticos. Apesar de amplamente aceite, o DSM-III e o DSM-III-R foram também amplamente criticados e a evidência científica questionada.

O DSM-IV foi publicado em 1994, para reflectir a investigação realizada desde 1987, data da publicação do DSM-III-R. O DSM-IV viu serem reestruturadas várias categorias, de onde surgiram 365 diagnósticos em 886 páginas (7 vezes maior do que o DSM-II). Tal como os seus predecessores, o DSM-IV foi criticado por levantar, entre outras, questões de comorbidade e sobreposição de sintomas. Não resolveu o problema da TPM e os outros transtornos controversos foram simplesmente adicionados entre os distúrbios que requerem um estudo mais aprofundado.

O DSM-IV-TR (2000) foi lançado para corrigir quaisquer erros factuais e fazer alterações que reflectissem as pesquisas recentes. Não tinha a intenção de resolver qualquer um dos problemas de DSM-IV. Pelo contrário, as alterações eram limitadas ao texto; expressões como "esquizofrénico" foram removidas e substituídas por "um indivíduo com esquizofrenia".

Esta é a história do DSM, mas é também a história que reflecte uma certa visão da doença mental. Em 40 anos foram acrescentados 250 diagnósticos a uma lista que já continha 106. Quem ler o DSM vai encontrar muitas razões, algumas sérias, para procurar tratamento psiquiátrico. A visão distorcida do ser humano encontra-se bem espelhada nas descrições estéreis e descontextualizadas das 886 páginas do DSM-IV-R. O desejo de uniformizar e padronizar através do registo de sintomas observáveis acaba por retirar a subjectividade inerente à vida psíquica, catalogando e empacotando pessoas em categorias estatísticas. As fronteiras entre a chamada normalidade e a psicopatologia parecem não existir, entrelaçando a vivência do sofrimento com a patologia. A vida do paciente, as suas vivências, actuais ou passadas, o seja, a tentativa de compreender a relação doente/doença são desprezadas. Nesta desenfreada proliferação de diagnósticos, com perigosas incursões à infância, que se traduzem numa patologisação e medicalização da vida mental, caminha-se a passos largos para uma profunda desumanização. A DSM-V está na forja, e de bom, nada podemos esperar.

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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Valorização pessoal (isento de iva)




Psicólogo Clínico

O que é uma psicoterapia? A minha ou a sua?


Quando o meu amigo Tristan Walker (incansável a colaborar no site) me pediu para escrever sobre psicoterapia, fiz uma busca na internet e verifiquei que quase todos os sites/blogues dizem coisas parecidas de maneiras diferentes. Ao ler senti que aqueles textos pouco dizem sobre um processo/experiência/relação intensa e profunda como é uma psicoterapia. Tratam-se de descrições com detalhes herméticos e ao mesmo tempo, vazias no essencial, dando a entender que as pessoas são todas iguais e que se devem encaixar num modelo psicoterapêutico em vez de ser a psicoterapia a ajustar-se à pessoa, no seu sofrimento pessoal, na sua singularidade, naquilo que tem de único.

Uma psicoterapia é uma experiência emocional vivida. Como tal, ela não pode, na verdade, ser traduzida, transcrita, explicada, compreendida ou contada em palavras. Ela é o que é. Qualquer esforço para a descrever ficará sempre aquém da experiência. Compreendo que as pessoas procurem saber algo de concreto, algo que as ajude a criar uma ideia sobre a dita Psicoterapia e com a ajuda dessas descrições, efectivamente a construam. No entanto, podem ler-se vários livros sobre cães mas se o leitor não tiver experienciado um cão vivo, não vai saber o que é um cão.

Tenho para mim que uma psicoterapia que promova a mudança/crescimento psicológico, ou seja, a expansão da capacidade de experimentar todo o espectro de sentimentos que podem ir da alegria à tristeza mais profunda e até ao colapso psicológico, necessita assentar em valores. Não se trata, neste caso, de valores morais ou éticos, mas valores psicoterapêuticos – respeito, verdade, responsabilidade – dos quais não se deve abrir mão.

Recentemente fui procurado por uma pessoa interessada em iniciar uma psicoterapia.

“ …contínuo a pensar que não me pode ajudar, e o Dr. deve estar a perguntar, se eu acho que não me pode ajudar porque estou aqui? Nos últimos anos tenho coleccionado garantias e promessas de resolução dos meus problemas. Quando lhe perguntei, na primeira consulta, se me podia ajudar você respondeu que não sabia, que não podia responder com a certeza de que me podia ajudar. Para quem está farto de mentiras a sua sinceridade, ainda que não tenha sido música para os meus ouvidos, foi importante para mim.”

Neste caso, a opção foi, parar e pensar. Parece-me importante que o tenha feito, interrompendo a roda-viva de saltar de consultório em consultório, à procura de uma bela melodia para os seus ouvidos. Talvez se tenha aberto para o paciente uma frincha na janela do “não saber”. O terapeuta deve ser capaz de tolerar e de ajudar o paciente a lidar com o “não saber”. O “não saber” é uma pré-condição para ser capaz de pensar, de imaginar. A imaginação, ao contrário da fantasia, que é rígida e repetitiva, mantém aberta uma multiplicidade de possibilidades de experimentação emocional.

Terapeuta e paciente devem estar empenhados no esforço de encarar a verdade, de serem honestos consigo mesmos em face da experiência emocional perturbadora. Este esforço está no âmago do processo terapêutico e dá-lhe uma direcção. Não se trata de uma busca da verdade mas do que é verdadeiro em relação ao que está acontecer no processo terapêutico, criando assim, um contexto humano no qual o paciente possa ser capaz de viver a sua experiência emocional passada e presente. Ao ajudar o paciente a enfrentar a verdade da sua experiência emocional o terapeuta deve respeitar as formas que este encontrou para manter a sua sanidade. A velocidade e o ritmo dos esforços para encarar a verdade da sua experiência emocional devem ser determinados pelo próprio paciente.

O respeito que o terapeuta deve ter para com o paciente e pelo sofrimento que ele e aqueles que lhe são próximos vivem, não só honra a dignidade humana como tem um significado terapêutico. Se as nossas intervenções não forem humanas eles não têm significado terapêutico e nessa medida não promovem a elaboração psicológica. A responsabilidade do terapeuta não é para com a psicoterapia/as teorias, mas para ajudar o paciente a realizar o trabalho psicológico que ele precisa a fim de poder viver de maneira diferente.

 
Aspectos gerais sobre Psicoterapia:

A Psicoterapia é um método de tratamento que se traduz na aplicação dos conhecimentos da Psicologia e da Psicopatologia. Trata-se de um instrumento valioso para lidar com as várias formas que o sofrimento humano pode assumir.

O tratamento psicoterapêutico ocupa actualmente um lugar importante na área da saúde ao propiciar uma visão integrada do homem, considerando as dimensões, orgânica, psíquica e social.

Mais de um século de pesquisas e desenvolvimento permitem que as Psicoterapias alcancem actualmente resultados significativos e efectivos, em relação a outras opções terapêuticas (Shedler, 2010).

No geral, os prazos de tratamento dependem dos objectivos e da gravidade do problema. Há terapias focadas em objectivos específicos que conseguem atingir resultados significativos em períodos inferiores a um ano. Há casos que obrigam a um trabalho psicoterapêutico mais demorado, dependendo problemática Estas psicoterapias podem necessitar de anos de trabalho contínuo, compensados por mudanças significativas.

Apesar de poder ser considerado, à primeira vista, um tratamento oneroso em termos de tempo e dinheiro, a psicoterapia tem-se mostrado, efectivamente, uma forma económica de tratamento. Pesquisas recentes mostram, por exemplo, que a psicoterapia diminui os índices de consumo de medicamentos e de internamentos hospitalares (Gabbard et al., 1997). É também considerada uma opção economicamente compensadora, por prevenir e eliminar problemas psicológicos que, quando não resolvidos adequadamente, levam a enormes prejuízos para as pessoas (Gabbard, 2001).

 
 
Psicoterapia

terça-feira, 26 de junho de 2012

Um grande mal-entendido


Onde havia sentimentos hoje há sintomas. Onde havia infelicidade hoje há depressão. Onde havia uma reacção “normal” (egossintónica) hoje há patologia. Ao abolir-se a reacção “normal” perante vivências inevitáveis da nossa vida, como por exemplo, a tristeza pela morte de alguém, transformando-a em sintoma, estamos a amputar a experiência humana e a enriquecer as estatísticas. O ser humano, cada vez mais alfanumérico e menos ser/humano, trilha caminhos que o conduzirão à loucura, quando, paradoxalmente, foge dela. A coragem, humilde e primária da procura, deu lugar à arrogância do pseudo-conhecimento. Este falso conhecimento assente em construções delirantes sobre o próprio e sobre o outro, mais não é que uma autofagia. Distorcendo a realidade, somos isto e somos aquilo, até deixarmos, simplesmente, de ser.







quarta-feira, 20 de junho de 2012

Furto Infantil


O furto infantil consiste na apropriação de objectos por parte da criança que simbolicamente representam uma compensação, na sua essência inconsciente, de uma frustração afectiva.
O objecto que a criança furta, independentemente do valor material, tem valor simbólico e não utilitário, na medida em que ele não é usado para resolver nenhum problema prático.
Muitas vezes, o produto do furto é distribuído pelo grupo de amigos, ganhando dessa forma a sua admiração, na procura de preencher uma lacuna afectiva.
Quando a criança possui uma maior consciência do valor material dos objectos o furto de uma coisa valiosa não lhe retira valor simbólico, pois a criança sente que tem algo valioso e desejado pelo outro, sentindo-se assim, especial.
Em alguns casos, a criança procura “repor a justiça”: “Se eles têm tantos brinquedos porque eu não posso ficar com um?”
É importante que a atitude dos pais perante a situação não corresponda a um interrogatório policial transformando um acto simbólico num traço patológico.
As apropriações de pequenos objectos não têm nas crianças um carácter patológico significativo, mas à medida que a criança cresce a continuação destes actos merece uma certa atenção. Estamos, provavelmente,  perante uma criança em sofrimento que pode andar triste ou deprimida.