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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Notas sobre Os Ataques de Pânico # 3
O pânico constitui uma
tentativa extrema de tornar o desamparo apreensível para o psíquico. A especificidade metapsicológica do pânico situa-o dentro do campo dos estados em que a angústia é extrema e transbordante.
Paradoxalmente, o sujeito em
pânico não busca escapar do incognoscível, nem dos restos irredutíveis à
simbolização. Esses constituem a fonte de onde podem jorrar e realizar-se todos
os possíveis, isto é, eles são a fonte potencial do traumático. No pânico, o
sujeito parece tentar levar a sua experiência do desamparo ao seu nível mais
extremo, mais insuportável, como uma forma de obter um certo domínio sobre ela.
Desse ponto de vista, um ataque de pânico não pode ser concebido como a
manifestação directa de uma pura descarga “automática” da energia pulsional,
mas, antes, como um forço extremo no sentido de capturar o inominável.
Ser tomado por um ataque de
pânico atesta, pois, o reconhecimento inequívoco por parte do sujeito da
dimensão de desamparo fundamental subjacente ao funcionamento psíquico.
Através do pânico busca-se um
certo domínio sobre as realizações possíveis do perigo. Trata-se, em última
instância, de uma estratégia bastante singular de eliminação do horizonte do
possível, no qual tudo o que é da ordem do terrível pode, efectivamente,
realizar-se. Tal estratégia consiste em tornar presente, imediato, aquilo que
assusta apenas por ser possível. Ou, mais precisamente, é a própria dimensão –
intransitiva – do possível que deve ser eliminada.
O pânico distingue-se do
terror, estado afectivo caracterizado precisamente pela perda de referências a
um lugar de desamparo no psíquico. No terror, o desamparo é sem limites, está
em todo o lugar e todo o momento. O não-senso é a sua marca fundamental. Já o
pânico refere-se aos momentos de vacilação em que os limites que o sujeito
reconhece como separando-o de um abismo infinito parecem apagar-se. O terror
implica paralisia, entrega de si mesmo ao mortífero. É do lado da vida que se
tem pânico.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Notas sobre Os Ataques de Pânico # 2
No pânico é antes o morrer do
que a morte o que se constitui em problema. O pânico constitui a marca e a
prova de que o aparelho psíquico descobriu a sua precariedade fundamental
enquanto tal. Através do ataque de pânico, o sujeito busca, de alguma forma tornar
apreensível no plano psíquico a experiência inominável do desamparo. As
experiências repetidas do “estar morrendo” que se instalam no pânico parecem
constituir uma tentativa de obter um certo domínio sobre o que escapa às
possibilidades de simbolização e que é vivenciado sob o nome geral de “morte”.
Ter ataques repetidos de pânico constitui uma tentativa, por assim dizer, de
esvaziar a morte do seu conteúdo incognoscível, por meio de uma
actualização-antecipação do momento de entrada nesse estado de desvalia;
trata-se de um esforço por “tocar” o impossível, aquilo que escapa sempre e
necessariamente ao psíquico, isto é, um esforço de controlar o momento de
abandono por parte do outro suposto protector e fiador do mundo.
A experiência de desintegração
psíquica acompanha a ameaça do seu desaparecimento. O sujeito em pânico
considera que a presença concreta do outro fiador da estabilidade do seu mundo
é uma condição indispensável para a sua própria sobrevivência. Se há algo de
mortal no pânico é essa sorte de ataque contra si mesmo como expressão de apelo
– mas também de revolta e desespero – diante do outro protector que abandona.
Um ataque de pânico constitui,
assim, um grito desesperado, um pedido de ajuda e uma expressão de revolta
dirigidos a este fiador superpotente de quem o sujeito espera protecção e amor.
A crise de pânico dirige-se,
portanto, ao Outro (“pré-histórico e inesquecível”) ainda que este não possa
ser objectivado em alguém delimitável: a crise constitui um pedido de amor, um
reconhecimento, um apelo ao sujeito para não ser abandonado, sem ajuda, ao seu
próprio desamparo. As vertigens e as sensações de estar em queda livre (de
estar caindo sem parar), tão frequentes nos ataques de pânico, parecem
manifestar corporalmente a vivência de abandono pelo objecto protector, fiador
da estabilidade do mundo.
Realmente não há garantia para
nada, ninguém me pode proteger contra o possível.
Até ao início das crises, a
questão do desamparo não se colocara de facto. Quando, subitamente, o individuo
se vê confrontado com ela, a ilusão desaba mas nada consegue ser colocado no
seu lugar. Não há nenhuma possibilidade de subjectivação da falta de garantias
pois essa “descoberta” terrível é feita toda de uma vez. Restam apenas o
desespero e o esforço desatinado para “fazer alguma coisa”: a confluência
dessas duas tendências materializa-se no pânico.
O abandono tão temido pelo
indivíduo acometido por ataques de pânico tem contornos bastante específicos.
Primeiro, apresenta-se como algo concreto: a ameaça de separação de uma pessoa
em particular, da perda de uma situação estável, o medo de que mudanças venham
a interferir de modo catastrófico na sua vida habitual ou na sua saúde.
Eles [ataques de pânico],
começam frequentemente (…) após um evento que confirma ao sujeito o carácter
incerto, imprevisível e potencialmente ameaçador do mundo. Assim, a morte de um
ente próximo, uma doença grave na família, a separação de um ser amado são
situações relatadas de modo quase rotineiro aos que cuidam de pessoas sofrendo
de ataques de pânico como tendo desencadeado os ataques. A perda real de um
próximo constitui para esses sujeitos a mais abominável concretização dos seus
fantasmas de abandono e de impotência ante um mundo excessivamente perigoso.
Eles constatam: “Então a situação de desamparo é mesmo possível!” e ficam
desesperados.
In Pânico e Desamparo
Mário Eduardo C. Pereira
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Notas sobre Os Ataques de Pânico # 1
Os ataques de pânico –
brutais, incompreensíveis, repetitivos – não parecem remeter a nada senão a
eles mesmos, constituindo-se aparentemente uma experiência de pura perda. Aos
olhos de quem os experimenta, tais ataques podem parecer absurdos e sem
qualquer relação com o resto da sua vida psíquica. Eles apresentam-se como
“espontâneos” e “incompreensíveis”.
O pânico apresenta-se antes
de mais nada como esmagamento da linguagem, mutismo e paralisia, colocando o
sujeito necessariamente na situação de só poder falar da sua aterradora
vivência psíquica a posteriori
[nachtraglich], num tempo em que não se está mais em pânico.
(…) o pânico é o estado
afectivo que se instaura quando o aparelho psíquico, vendo-se radicalmente confrontado
com a Hilflosigkeit – sua dimensão de desamparo fundamental – descobre, com terror,
que o lugar onde esperava encontrar a presença concreta de um fiador da estabilidade
do seu mundo está fundamentalmente vazio.
Tal confrontação, para resultar
em pânico, implica (…) que até ao momento das crises, a dimensão de desamparo da
linguagem havia sido “tamponada” naquele sujeito pela presença concreta de “objectos-fiadores”
que permitiam a manutenção inalterada de uma ilusão de se estar totalmente protegido
por um ser omnipotente, imortal e benfazejo.
Por vezes, a própria questão de
falta de garantias sequer chega a ser colocada. O pânico instaura-se num momento
de derrocada desse sistema de ilusões. (…) Instala-se, portanto, em momentos em
que o aparelho psíquico se vê obrigado a reconhecer os limites enquanto tais, de
suas possibilidades de simbolização, mas não suporta nem o peso nem as consequências
desse reconhecimento, dado que a existência de tais limites passa a ser vivenciada
como uma ameaça iminente de desabamento do mundo simbolicamente organizado.
In Pânico e Desamparo
Mário Eduardo C. Pereira
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